Quando o Inverno se Fez em Mim

CAPÍTULO V
 
N
o aeroporto de Paris, desembarcamos sob o indício de um dia frio e de tempestade. Carla estava devidamente agasalhada, mas não continha um tremor no queixo. Paramos para tomar um chá e esquentar os ânimos. Em seguida caminhamos em direção ao ponto de táxi. Pelas ruas de Paris, minha irmã parecia uma criança e observava tudo demasiadamente encantada. À caminho da minha casa passamos por quase todos os pontos turísticos da cidade como o Rio Sena, que fica num ponto que aqui chamamos de “lle de la Cité", e também pelo Arco do Triunfo; Torre Eiffel; Museu de Rodin; Monmatre e outros pontos até chegar à Clichy-sous-Bois, onde eu morava.
 
Cansada, mas ainda empolgada com a beleza da Cidade-Luz, Carla esperava ser recebida pelos meus pais. O que não acontecera, visto que a esta altura, antes mesmo do embarque eu já tinha me mudado para a minha própria casa, ali mesmo em Clichy-sous-Bois. Meus pais adotivos ficaram apreensivos com a idéia de que talvez trouxesse minha irmã legítima para Paris. Temiam seu comportamento e seus pensamentos a respeito da nobre família amada. Foi assim que resolvi sair de casa.
 
No dia seguinte, saímos juntos para fazer compras e minha pobre irmã permanecia perdidamente encantada. Para mim, não havia qualquer encanto contundente senão estar ali, simplesmente ao lado dela. Clichy não tem nada de tão interessante. Mas, à vista de onde ela morava...
 
Não demorou muito para que Carla, e agora não mais “Paquita”, começasse a arriscar algumas frases em Francês. De modo que ao decorrer de dois anos já estava falando a língua de modo fluente. Já conseguia ir ao supermercado sozinha, aos shoppings, pontos turísticos e praças. E já estava à procura de emprego.
 
Carla conheceu meus pais adotivos que logo, mas informalmente, a adotaram como filha. Conheceu Jacques Valmont d’Embrouille, amigo da família, e acabou cansando-se com ele e para o qual trabalhou durante algum tempo. Quisesse Deus que ela não o tivesse aceitado como marido. Jacques d´Embrouille, que era amigo íntimo de minha avó, Sabrine Rousseau, ou Sabrine Esteves, nunca se deixou levar pela rixa que havia na família. Havia conhecido meus pais, e se aproximou deles. Ainda mais quando soube da história de Carla. Certamente Jacques sabia de muita coisa a respeito da minha avó e certamente teria nessa aproximação repentina algum interesse.
 
Jacques pensava que se casando com Carla herdaria parte da fortuna deixada pela velha Sabrine. Somente depois de alguns meses de casado, em algumas conversas que manteve com meus pais adotivos, é que vira que não herdaria nada. Então começou a tratar a minha irmã de maneira abusiva e absurda.
 
Há poucos dias, no horário em que voltava para casa depois do trabalho, encontrei Carla, na rua, desesperadamente apanhando de Seu Marido. Eu prontamente tentei socorrê-la. E então ela me contou tudo o que havia acontecido:
 
Jacques havia perdido a esperança de herdar alguma coisa do dinheiro da minha avó. Obviamente porque soube que, apesar de nossa luta na justiça para herdarmos algo, ao menos para viver um pouco mais dignamente, tudo que a velha Sabrine tinha já estava em poder do seu amante e do Governo Francês.  Foi então que Jacques começou a revelar todos os podres: Tinha a minha avó ódio de sua irmã pelo simples falto de que a nossa mãe (minha e de Carla) havia se tornado prostituta no passado e  desonrado a família. Coisa que ela mesma, a velha Sabrine, se tornaria mais tarde em Paris, mas que manteria como mais um dos "irreveláveis" segredos de família. À priori, teria vencido na vida. Teria trabalhado dignamente e casado com um homem rico e influente que conhecera na alta sociedade parisiense.
 
Contudo, a velha manteria, até o fim da vida, seu ódio mortal pela sua irmã e também pela filha, a minha mãe adotiva, que não era nem nunca foi filha desse casamento milionário, e sim, filha de um dos vários clientes de sua áurea época de Bordel.  
 
Carla sofreu ao descobrir que sua mãe também havia sido prostituta e questionou até mesmo sobre a nossa irmandade legítima. Se seríamos filhos do mesmo pai. Contudo, a única coisa com que eu realmente me preocupava era com a violência de Jacques. À princípio nada provava que não éramos filhos ao menos da mesma mãe.
 
Ao passar dos dias, ela conformou-se. Largou o marido e voltou a viver a vida de antes. Agora, ao invés de “Paquita”, denominou-se como "La Belle de Noir", voltando a fazer programas, agora nas ruas de Paris. Tentei convencê-la à não fazer isto, mas já não mais me dava ouvidos como antes.
 
Em uma das minhas noites de sono intranqüilo, resolvi passar pelos pontos em que ela costumava ficar, que eram na Torre Eiffel ou no Moulin Rouge, onde a maioria das prostitutas fazem ponto em Paris. Acabei por encontrá-la de frente à Torre... Morta.
 
Quando me aproximei da Praça do Trocadero, percebi um movimento estranho. Havia carros de polícia e muita gente em volta. Aproximei-me para ver o que tinha ocorrido, e embora não esperasse o pior, ele tinha acontecido: Quando consegui passar entre a multidão, encontrei Carla deitada ao chão. Havia sido esfaqueada por um sujeito que vi sendo recolhido ao carro da polícia parisiense. Minha irmã estava morta.
 
Jurei nunca mais perder as esperanças em nada, apesar de toda a revolta. Questionei-me sobre o destino das coisas na vida; sobre ter trazido ela para Paris e sua história ter acabado nisto. Culpei-me durante anos, mas hoje vejo que se não fosse aqui, teria sido no Rio de Janeiro, nas boates, nos motéis ou nas areias da praia de Copacabana. Creio que esse mundo promíscuo fará sempre parte da minha família. Paquita morreu na dúvida de quem seria seu verdadeiro pai e seu irmão-amigo. Pena que não tivemos como comprovar isto antes, mas pelo menos tínhamos o mesmo sangue: Isso descobri no hospital. Hoje, apenas fico abrindo um álbum de fotos nossas para apagar essa triste imagem da minha lembrança. Não quis pedir o DNA. Isso, para mim, não faria mais diferença. A amei como irmã. Conheci a minha última parenta próxima e infelizmente a última lembrança que tenho dela, é a imagem dela morta no inverno de uma praça de Paris.
 
 
(Fim)
Oscar Calixto
Enviado por Oscar Calixto em 14/10/2007
Reeditado em 15/10/2007
Código do texto: T693715
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