Rockstar: A Ascenção de Johnny (3ª Parte: O Sorriso do ípsilon e outras experiências)

_Como assim você nunca bebeu cerveja antes Johnny? _ Perguntou Luci com espanto enquanto os membros da banda olhavam fixamente em meus olhos como se eles dissessem: “Caraca Johnny, eu nem sei o que dizer” _É uma das melhores invenções dos humanos!

_Luciano, Por que você fala dos humanos como se você não fosse humano? _ Perguntou Cleyton confuso, aliviando-me da inconveniência de explicar o porquê de eu nunca ter bebido cerveja antes.

_Talvez eu não seja um humano. Talvez eu seja o próprio mal encarnado que se alimenta do sofrimento das pessoas que vivem à margem dos pecados! _ Ele respondeu forçando uma voz sibilante como outrora no galpão abandonado_ Ou talvez eu esteja apenas tirando onda com a sua cara Cleyton com ípsilon.

_Ei, eu gosto do ípsilon no meio do meu nome. É o meu charme!

_E como foi que você aprendeu tocar guitarra tão bem Johnny? _ Perguntou Ana enquanto enchia meu copo de cerveja e o empurrava em minha direção, mas com seus olhos contemplando o rosto de Tamara.

_Bom, eu sou autodidata... e assisti algumas videoaulas no YouTube_ Respondi quase gaguejando olhando para Luci, que estava com um saleiro na mão prestes a salpicar meu copo de cerveja_ Ei, qual é Luci...ano?

_Salgar cerveja é uma tradição Johnny. Respeite as tradições e beba logo esse negócio seu mestre guitarrista de araque.

_Uau, então você é do tipo “talentoso musical”, que aprende só de ouvir! É um dom, sabia? _ Acrescentou Tamara, que diferentemente de todo o resto do pessoal, bebia um copo de caipirinha enquanto não tirava os olhos de Ana.

_Sim, eu acho_ Respondi baixinho antes de dar meu primeiro gole daquela coisa amarga_ Cruzes, cerveja é horrível!

Ficamos conversando por um tempo, e eu mal pude perceber que me encontrava em meu décimo copo de cerveja, ou vigésimo? Eu já não sabia mais. Luci bebia como um louco. Para se exibir, bebeu uma garrafa inteira de vodka na frente de todos em apenas alguns goles:

_Johnny, seu irmão vai morrer se ele continuar bebendo assim! _Cleyton parecia preocupado, (Ao contrário de Ana e Tamara, que nem estavam ligando muito para aquilo, pois as duas estavam se beijando loucamente). Mas eu sabia que uma garrafa de vodka não mataria Luci, afinal ele era o Diabo...

_Vocês humanos são engraçados. Eu realmente gosto de estar aqui entre vocês, sabiam? Sinto por ter que condená-los vez ou outra a uma torrente infinita de dor e agonia, mas é o meu trabalho, que por sinal, eu nunca pedi para tê-lo. Sabe quando você é contratado sem nem fazer entrevista? Foi meio assim comigo quando me entregaram as chaves do inferno...

_Johnny, seu irmão leva a sério esse papo de se achar o demônio hein?! Talvez ele tenha feito um pacto com Satã para ter conseguido aquela Ferrari e depois tenha ficado louco por causa disso! _ Disse Tamara que voltara a sua atenção para nós, assim como Ana. Ambas estavam de mãos dadas.

_Pois é, ele faz essas coisas mesmo, mas a Ferrari é resultado de herança familiar.... Enfim_ Tentei mudar de assunto para evitar algum tipo de desconfiança_ Tamara, eu li as letras que você escreveu e me mandou pelo Whats. Achei elas incríveis, porém tristes... Como a “Eu sempre quis que meu teto desabasse”, aonde você fala que seu pai te tratava com maldade. Você ainda mora com ele?

Tamara ficou séria, com um olhar distante. Bebeu um pouco do Gin que estava na mesa devido ao surto alcoólico de Luci e respondeu:

_Sim, moramos juntos. Ele é gerente de banco, e inclusive já foi vereador. O típico homem branco conservador e “perfeito” perante os olhos hipócritas da sociedade. Por isso ele sempre quis uma filha perfeita. Mas eu nunca conseguia atingir suas expectativas escrotas. E minha mãe sempre foi passiva nesta história. Ambos possuem um mente retrógrada que me faz ter receio de eu ser quem eu sou. Até hoje eles não sabem que eu sou lésbica... E se soubessem, me expulsariam de casa, provavelmente.

_Quando eu disse que gostava de estar entre humanos, eu esqueci de não generalizar... A maioria é estúpida_ Disse Luci calmamente_ Sabe, alguns de vocês são a escória da sociedade. Criam regas que só cabem em seu mundo e creem que as mesmas são aceitáveis por Nós. Se existe uma regra absoluta que Ele_ Luci apontou o indicador para o teto_ faz questão de seguir é a do amor e empatia pelo próximo. O resto, é por conta de vocês... Mas mesmo assim, ainda insistem em colocarem nossos nomes no meio das merdas que vocês mesmo fazem... Nem todos vocês, claro...

_Concordo plenamente com o irmão esquisito do Johnny_ Disse Ana apertando Tamara com força em seus braços_ Vamos usar nossos talentos para mostrar ao mundo o quão hipócrita a sociedade é!

_Sim! Minhas baquetas serão as aríetes que explodirão os portões da hipocrisia! _ Bradou Cleyton sorrindo com orgulho. Não pude deixar de notar que ele possuía um sorriso muito bonito.

_Nossa, que frase tosca! _Respondeu Luci_ Mas gostei da sua atitude garoto do sorriso bonito_ Luci me deu uma piscadela.

_Ei, um brinde a Vênus em Marte, a banda que mudará o mundo! _ Disse Tamara levantando-se com seu copo de Gin.

Todos brindamos juntos, menos Luci que saíra da mesa para pegar mais bebida enquanto xingava algumas pessoas que reparavam em sua aparência punk.

O bar finalmente fechou, e todos nós estávamos do lado de fora da minha casa. Tamara e Ana foram embora juntas de Uber, e Cleyton foi embora em sua caminhonete, seguindo os conselhos de Luci sobre como ultrapassar o sinal vermelho sem atropelar as pessoas. Dentro de casa eu desabei no sofá enquanto Luci pedia um X-Tudo da Marisa para ele:

_Nossa, eu não fazia ideia de que beber cerveja era tão bom! _Comentei em voz alta enquanto me lembrava do rosto de Cleyton.

_Sim, bacon extra! Eu te amo Marisa, mas repudio seu marido... ele está constantemente reclamando do nosso tratamento no inferno _ Disse Luci no telefone antes de desligar e se sentar ao meu lado no sofá_ Eu queria me orgulhar do mérito de ter inventado a cerveja, mas preferi focar em criar as empresas de cigarros... Achei que cerveja não faria sucesso na época...

_Luci... Quando nós fizemos o pacto na encruzilhada, você disse que eu deveria comer uma cabeça de ovelha, pois somos cordeiros de Deus e estraçalhar aquilo com os dentes faria de mim seu servo no pós-morte em troca das minhas habilidades de tocar guitarra e ganhar fama em vida. Mas no bar você meio que expressou uma certa admiração por Ele...

_Sabe Johnny, o paraíso era maneiro, mas a grama do vizinho é sempre mais verde certo? E alguns erros se tornam permanentes. Contudo, devemos superar nosso passado e seguir em frente. Eu sei porque você nunca havia bebido cerveja e os motivos que te levaram a se identificar com as letras que Tamara escreveu sobre problemas familiares. Mas hoje você mostrou que apesar das adversidades, com ou sem pacto, você é capaz de sorrir de verdade e apreciar um sorriso de uma pessoa que despertou algo em seu coraçãozinho humano.

_Você não deixa nenhum detalhe passar limpo hein...

_Ah qual é Johnny? Eu sou o Rei do Inferno, onde almas humanas vão para serem punidas. Você acha que eu não ia deixar de reparar na faísca da paixão que emanou de seus olhos recém curados da miopia? O ípsilon dele te conquistou.

_Você pega demais no meu pé...

O lanche de Luci chegou, e ele o devorou em poucos minutos. Depois voltou a se sentar ao meu lado:

_Ei Luci, acredito que você vai ter que manter essa forma de punk por um tempo, senão os outros vão achar estranho você se transformar no Capitão América de uma hora para outra.

_Eu não me importo muito, mas acho que você tem razão. E além disso eu gostei desta forma... Ah, eu havia esquecido, eu tenho algo para você.

Um livro com os escritos “O guia prático do pacto: Por Lúcifer” surgiu em minha frente e caiu sobre meu colo:

_É um manual que vai te ajudar bastante quando você estiver com dúvidas e eu não estiver mais aqui com você. É autografado por mim, então cuidado. Eu tive que vasculhar a biblioteca infernal pra conseguir encontrá-lo. Belzebu está tomando conta da biblioteca no momento, mas ele é muito burro, então tive que encontrar sozinho. De nada.

_Poxa Luci, obrigado. Eu não sabia que você gostava de escrever...e muito menos que você possuía uma biblioteca...

_Johnny, você me ofende com a sua ignorância às vezes. Sabia que eu ensinei Virgílio a escrever, e um tempo depois levei Dante ao inferno para ele poder retratar na Divina Comédia como as coisas funcionam por lá? Mas aí eu fiquei com preguiça e deixei Virgílio guiar o Dante pelo inferno, já que ele conhecia bem os nove círculos... Enfim, eu sou um anjo, e conhecimento é o que me diverte quando eu não estou ocupado influenciando políticos ou criando sites pornográficos.

_Uau Luci, eu não sei quem são essas pessoas que você falou, mas devem ser importantes. E você influencia na política? Tipo, a política brasileira possui intervenção sua?

_Não Johnny, eu não criei o Bolsonaro. Ele é problema de vocês...

_Que bom Luci... Sabe, eu estava pensando no que vou fazer depois que ficar famoso.

_E?

_E eu estou pensando em criar uma cerveja artesanal...

_Puta que pariu Johnny...

(Guilherme Henrique)

PássaroAzul
Enviado por PássaroAzul em 06/05/2020
Reeditado em 06/05/2020
Código do texto: T6939488
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