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Cinzas Sagradas

           Naquela altura, depois de tantas desilusões, decepções
                             ainda restava um único sonho....

Esperança era uma jovem camponesa que vivia intensamente cada segundo. Dona de um sorriso incomparável. Era muito cobiçada no povoado. Era a estrela que brilhava diuturnamente e jamais ofuscada. Seus cabelos eram compridos e vivia a brincar com bonecas, embora se confundisse com uma delas, de tão bela!

De outro lado, o destino gerava Nicodemus, um jovem idealista que levava tudo muito a sério. Era vítima de um sistema tirano, que matava seus líderes em troca da liberdade dos rebeldes (os quais não mediam esforços para destruir a felicidade do próximo). Nicodemus acreditava que a vida não terminava no túmulo. Que existia uma outra vida após a morte! Era um estudioso exemplar e desconfiado de tudo.

A noite, costumeiramente, de duas a três vezes por semana, freqüentava um templo espírita, que era o alivio para suas provações e onde encontrava forças para superar os desafios do seu dia-a-dia. Mal sabia que o futuro o esperava, com cartas marcadas - talvez, aquelas que jogaram antes de encarnar - e que mais tarde iria surpreendê-lo.

Nicodemus era um jovem bonito, marcava presença e era muito sábio. Ás vezes arrogante, mas sincero. Era um homem que toda mulher queria ter, sem vícios, trabalhador e cumpridor de suas obrigações. Esperança, um espelho onde se refletia beleza e encanto. A magia de seus sentimentos era o alicerce que sustentava todo povoado que, ironicamente, era denominado Santa Felicidade.

Em Santa Felicidade, qualquer coisa era motivo de comentários, risos e até de piada. As pessoas se conheciam e ficavam horas fofocando sobre a vida alheia pelas ruas e banquinhos instalados nas calçadas de frente com a casa. O clima era natural e muito gostoso. Ventava muito e o cultivo da cana era a cultura predominante da cidade.

O alto-falante da Paróquia tocava a ave-maria todos os dias às 18 horas e servia para anunciar notas de interesses públicos e de fúnebres. Chegava até a incomodar as pessoas. Era tradição da cidade a bênção de ramos, quermesses, desfiles cívicos, jogos de férias do Clube, festa de aniversário da cidade e bailes como o da fantasia.

Nicodemus começara a compreender melhor a sobrevivência em Santa Felicidade. Defendia os interesses da população e, dependendo do fato, sabia que poderia tornar-se o centro da polêmica. Tinha preocupação com a preservação da história e do patrimônio público. Considerava relíquia qualquer obra ou objeto que lembrasse época. Ficava fora de si, quando relembrava de entes-queridos que haviam partido para outros mundos - naquele momento, para ele, era tudo imaginário.

Com o passar dos anos, Nicodemus foi atingindo a maioridade. Esperança se matricula no ginásio e passa a conviver com grupos de amigos, que se reunia para fazer trabalhos de escola ou para preparativos de algum evento. A diretora da Escola se chamava dona Camila Albuquerque, muito rígida e com cara de poucos amigos.

Esperança, como o próprio nome diz, era o que todos tinham no futuro. Cada família sonhara que teria um médico, uma professora, um advogado, enfim, a maioria vivia mesmo do corte da cana-de-açúcar e da fabricação de calçados. Fora anunciado que o clube da cidade realizaria um tremendo baile com fantasias e a data: 14 de dezembro. O assunto contagiou a todos e cada um tentava encontrar uma fantasia para o grande dia!

Como não se importasse com o baile, Nicodemus deixou para última hora e se fantasiou de Príncipe (foi a melhor fantasia do baile) e Esperança uma bela donzela de fada-madrinha (deixou os homens boquiabertos). Ao contrário de Nicodemus, Esperança tinha horário de se recolher. O público superlotou as dependências do Clube e, então, brindou a chegada do grande evento. Assim, Nicodemus se encontra com Esperança e passa a dividir um grande sonho. Passaram a viver um conto de fada.

...passados quatro anos...

Aquele amor de adolescente cresceu, ganhou corpo e, como raiz fincada ao peito de ambos, se transformou em fruto desejado e cobiçado. Era a fruta da estação e todos invejavam. Um amor feito de verdade, de sentimento, de valores, de crença, de liberdade e sem julgamentos. Um grande amor não se faz do dia pra noite e nem nasce feito, se conquista, busca, corre atrás, faz por merecer, se constrói em bases sólidas.

A meiguice da donzela flor do campo inspira suavidade e sonhos. É uma fada, um tesouro, uma formosura. Quem ama não vê os defeitos, vê tudo colorido, um mundo diferente do normal ou será que este seria o verdadeiro mundo? Nicodemus e Esperança se casaram e formaram família.

...passados dezesseis anos ...

Ao se aproximar do riacho portando as cinzas do amado num bauzinho de estimação, a dor se transformava em lágrimas e era inevitável a melancolia ao relembrar momentos tão lindos vividos e compartilhados durante toda uma existência a dois. A saudade se colocava entre o céu e o inferno. Os espíritos da natureza, entristecidos, se colocavam como guardiões do trecho, que velava e onde se consumava o sepultamento do grande amor.

Ao abrir o cruel baú, Esperança ainda abraçava forte e aproveitava cada minuto como se fosse o último (e era mesmo). Chorava de alegria e tristeza ao mesmo tempo e relutava em jogar as cinzas para que se perdessem nas águas. Queria que as cinzas voltassem ao tempo, se transformassem em matéria, e trouxessem de volta o amado inesquecível Nicodemus. Era desejo de Nicodemus ter suas cinzas santificadas e engolidas pelas águas do riacho, onde viveu com sua amada momentos inesquecíveis.

Finalmente, Esperança ganhou forças e abriu o baú às águas. Devagar, a correnteza ia levando as cinzas sagradas que se desfaziam e se misturavam com as pedras, os peixes e os restos da mata ciliar. As cinzas se espalhavam gradativamente e os guardiões cuidavam para que o cortejo não sofresse nenhum deslize.

Como pode todo aquele amor, toda devoção simbolizar restos de pó de um sentimento tão puro e singelo? O que não sabia é que o amado, em espírito, acompanhava toda sua dor e chorava na mesma intensidade. Dizia ele, “piedade meu Deus e dê forças para que Esperança, meu amor, encontre a paz e se recupere da separação temporariamente”. Quase em prantos, Nicodemus pediu ao Pai que Esperança pudesse naquele momento ter dom sentí-lo e pudesse compreender que a morte era apenas um fato, uma passagem.

Aquelas cenas eram um mergulho nas profundezas do amor e na mais dura realidade. Esperança preferiu ser egoísta e não dividir com ninguém momentos de infinito sentimento. A ignorância e a incompreensão da matéria sofrida geravam transtornos à alma que se libertara e que não podia alçar vôo na direção do universo, porque ressentia de tamanha frustração.
 
Esperança não se continha, enquanto isso, os raios de sol por sobre as águas alimentadas pelas cinzas que se espalhavam e chegavam às colinas. Naquele instante o riacho era um oceano onde não se via mais nem vestígios do eterno amor. Nicodemus se via preso no local, pois, sentia-se atraído pela força do amor de Esperança, que não aceitava o desligamento integral do espírito da matéria.

Os prantos da querida amada não davam trégua e todo silêncio pairava como uma prece. Restabelecida, Esperança deixa o riacho e parte para sua nova realidade. É como se a vida a tivesse traído e todo mal do mundo caísse de uma só vez em sua cabeça. Dizia pelo caminho, oh! Meu Deus por que fizeste isso comigo? Não podia saber que tudo aquilo, era o destino que escolhera em vidas passadas. *

O riacho foi eternizado por Esperança, que, em todas as tardes ou quando necessitava se acalmar, procurava o local e lá viajava no passado e no presente como se tudo fosse tão real. Ela tinha um coração sublime, doce, puro e tudo que tocava, se harmonizava, se identificava, sempre fiel as suas origens.

Nesse período, o espírito de Nicodemus mais aliviado, parte rumo à sua nova missão. Por ironia do destino, fora designado, a partir daí, pelas esferas superiores, que ele seria o novo anjo da guarda da sua amada. Portanto, não ficaria mais distante dela nem um segundo. É a materialização e a consagração do amor eterno, em sua plenitude e a preservação da essência da perfeição do Criador. É um amor pra toda a vida, pra sempre.

...passados oito anos da morte física

Esperança, enfraquecida pelas rusgas da matéria, maltratada pela saudade do amor que partiu como se tivesse quebrado um juramento, é atingida pelas enfermidades finais e numa noite de primavera, quando o dia amanheceu florido e perfumando o amanhecer, o espírito de Esperança se desvencilha do corpo e sai flutuando pelo universo, como se sentisse um alívio profundo. Seria o reencontro que tanto sonhara.

Nicodemus em formato de luz fez um cerco sobre Esperança e, por alguns minutos, reviveram o mais puro amor. O amor uniu novamente duas almas e dois corações, que acreditavam na eternidade do sentimento e nunca mais, se separaram.

Edimilson Eufrásio
Enviado por Edimilson Eufrásio em 16/10/2007
Reeditado em 16/10/2007
Código do texto: T696864
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Sobre o autor
Edimilson Eufrásio
Mineiros do Tietê - São Paulo - Brasil
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Edimilson Eufrásio