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O Iluminado

          A mãe não atinava, por mais que pensasse a razão para Deus lhe oferecer tamanho castigo! Era menino de ficar quieto e acertar perguntas difíceis, porém era um grande problema. Apesar dos seis anos desnutridos e da barriga abrigando parasitas, o menino se aprumava quando o assunto era adivinhar. Das moedinhas postas na mão do irmão mais velho ele acertava o número exato e a quantia em dinheiro! Era um espanto para os bêbados da vendinha que apostavam em cada resposta correta. Houve vez de o menino ser raptado de casa para servir de atração esdrúxula na noite do morro.
          As pipas eram a coisa que o menino mais gostava, quando as via voar corria gritando: "Viva!!!" Qualquer um que prometesse um bom papagaio colorido levava o menininho pela mão. Não estudava, o nariz escorria, a comida era pouca, os irmãos eram muitos, a mãe era doente, mas de tudo, parecia que nada desagradava o pequeno.
          Uma mãe de santo profetizou a santidade do menino, uma vizinha sugeriu exibir o milagre em um programa de televisão, o pastor ofereceu-lhe a Igreja, mas a mãe calava maldizendo o dia em que pariu a aberração. Para todos os efeitos, ter um filho diferente é aborrecimento. Apontavam para ela na rua como se fosse de outro planeta. Até um possível pretendente desistiu quando soube da popularidade exagerada em torno da cria daquela mulher. Ela mesma tinha certo receio quando o guri fitava seus olhos lá no fundo, como se fosse catar os pensamentos mais escondidos, as idéias mais inconfessáveis.
          O começo do tormento maior veio com a profecia do menino para a morte do sapateiro. Disse em alto e bom som na porta da vendinha: “seu Severiano sapateiro vai ver papai do céu semana que vem”. Foi uma confusão! A mulher do sapateiro veio correndo e quis dar uma surra no profeta, a mãe quase deixou para ver se o menino sossegava daquilo, mas o povo em volta ameaçou linchar as duas. Um camarada mais temido puxou a arma e ordenou: ninguém toca no santo! Vamos ver no que dá! Mandou cada um para as suas casas.
         Semana seguinte falhou o coração do sapateiro! Foi ao meio-dia, num domingo, muito sol, todo o mundo esperando. A mãe perdeu a força nas pernas, passou mal, chorou, estendeu as mãos para o céu em desespero. O pequeno brincava inocente no beco imundo e foi cercado por um monte de gente querendo saber o futuro, o irmão mais velho acudiu, pegou o moleque e sumiu no morro. Quando já era madrugada, voltou para a casa com ele dormindo nos braços. A mãe precisava dar cabo daquilo. Pegou o dinheirinho que havia guardado para o natal, enrolou o filho em uma coberta e saiu pela madrugada como fugitiva. Ao raiar o dia já estava em um ônibus para o interior do estado. O menino sorria doce ao aconchegar no colo da mãe. Não reclamava de nada, nem fome tinha.
         Desceram do ônibus em uma cidadezinha qualquer. Ela largou o menino em um banheiro público, tomou condução de volta ao Rio. Sozinho no banheiro ele sentiu apertar o pequeno coração, viu despencar um ônibus no abismo. Foi a única vez em que a criança chorou.
betina moraes
Enviado por betina moraes em 19/10/2007
Reeditado em 20/08/2008
Código do texto: T700776

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Sobre a autora
betina moraes
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 48 anos
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betina moraes