O GATO

Faz um tempo desde que seu Guido observava atentamente aquele movimento, aquela potência dos pulsos elétricos. Não dormia, nem sequer banhava sem sentir-se observado e dependente do gato.

Era o gato que acordava seu Guido e dona Mercedes, sua esposa. Era o gato que fazia seu Guido e dona Mercedes dormirem de enxaqueca. Era o gato que estava lá quando seu Guido e dona Mercedes iam assistir televisão.

Seu Guido não olhava para dentro de sua residência sem imaginá-la sem o gato. Já estava quase para chamá-lo de membro da família, pois o apego crescia no interior daquele casal de senhores. Ninguém, nem a menor sombra humana, imaginava o que haviam aprontado aqueles velhinhos!

Fazia menos de um ano desde que Seu Guido decidiu não mais gastar como gastava em sua juventude, afinal, já estava idoso e nem fazia mais o que quer que seja como antigamente- segundo ele, é claro! Vale ressaltar que Dona Mercedes discordava daquela afirmação, pois estava mais inquieto que nunca para ela.

Os filhos não moravam mais em casa. Não se via mais aspirador de pó ou computadores. Ele estava disposto a economizar para que deixasse um dinheiro a mais, visando uma viagem internacional com a mulher. Dentro desse contexto, surgiu uma ideia: gato! Como num passe de mágicas, seu Guido estava decidido a adotar um gato, e assim fez. Conversou com um antigo conhecido, especialista em gatos, e rapidinho consumou o desejo.

Chegou para Mercedes e disse:

-Teremos um gato, Cedinha!!!

Eis que Mercedes descobre que o tal gato não era peludo, não era fofinho, não era "olhudo" e não era parecido com o Garfield. O gato era na rede elétrica!

Lá estava, numa manhã de quarta-feira, os filhos de Seu Guido e Dona Mercedes indo resolver a parafernalha encrencada em que os velhinhos tinham se metido. Há de imaginar-se que Seu Guido amou a aventura e ainda disse que não se arrependia. Aquele dia, para ele, foi o segundo melhor da sua vida, depois da tão esperada viagem do casal para a Itália!