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Amarrilhos

Espero. A ansiedade é intensa, o mar índigo, as gaivotas sempre brancas e o amor enlouquecedor. Na pequena lancha onde estou não há nada, ela balança, peço pra ela não balançar assim; por que você é assim, balança? Mas ela é teimosa e Osvald não chega, não emerge do mar. Ligo o rádio; a maioria das canções agora falam o que sinto, é tudo muito banal, sou muito banal. Mas por que não aceito isso, por que não aceito que sou banal? Avisto uma tempestade no horizonte, acendo um cigarro (não, não!), o mar de súbito é um mar de rosas; Osvald emerge dentre as rosas, mas (não, não!) é tudo um delírio. Espero. Osvald também talvez me espere lá no fundo, mas não sou mergulhador nem um pouco provecto. Ontem estive em um templo (por que não falo logo igreja?), mas pra quê falar disso agora, estou mal, acho que estou mal, não tenho certeza. Procurei alcançar o Redentor pra pedir-lhe...bom, pra pedir-lhe que santifique em mim o que nunca parece ser santificado nos outros que como eu...Estava em silêncio até que o latido brabo de um cão destruiu esse silêncio. O cão não apareceu, o som parecia vir de um gravador...parti. Temo, SOU INSANO. Também ando ladrando como um cão, e até pior; não sou nada sutil, não é isso? E as admoestações têm aumentado. Espero. Terá sido Osvald devorado por tubarões-lixa? Esqueço por um momento Osvald, contemplo a lua, sim porque posso vê-la mesmo sendo dia. Dou a partida no motor e vou embora, quebrando o amarrilho, quebrando todos os amarrilhos que me ligam a qualquer coisa. Pois que fique aí, Osvald! Mas é mais um delírio. Espero. Osvald finalmente surge e sorri. Dou-lhe a mão (sou um senhor, e agora?), o braço e por fim a boca.

- Vamos, Osvald? Já está ficando tarde e olha o que vem lá.

- Sim, Eric, meu amor, a tempestade urge.

- Osvald, tenho uma coisa que quero lhe dizer. É que...bem, eu sou meio pobre e não possuo bens; talvez eu lhe arrume problemas, é melhor...

- Não se preocupe, Eric. Vejo que em você falte talvez a sensibilidade, sabe aquela sensibilidade?

- Não, não sei. A igreja não gosta que se escreva isto. Estamos dentro de um conto, você sabia?

- Dentro de um conto, Eric? Se for verdade, somos uns personagens meio infelizes, não acha? Ou será que o infeliz é o autor da nossa história?

- Nós, infelizes? Acho que o autor da nossa história pensa em trabalhar nos trabalhos dele, mas não consegue vender nada. Diz-se que ele é vendedor. De qualquer forma, se não fosse a preguiça dele, não estaríamos aqui. Vamos, então, amor...

- Deus rogai por Eduard.

- Amém.

Sigmund Blas
Enviado por Sigmund Blas em 30/10/2007
Reeditado em 28/06/2012
Código do texto: T716036

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Sobre o autor
Sigmund Blas
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Sigmund Blas