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VESTIDA DE NUVEM

Chovia. E a noiva seguia, empertigada e impecavelmente alva, acomodada no banco traseiro do carro nupcial, em pleno dia da solene legitimação. Durante toda a sua vida sonhara com aquele momento, e agora se encontrava a poucos quilômetros da consumação. Torcia as mãos, nervosa, apertando o cabo do buquê de rosas brancas sobre o tecido diáfano e farfalhante do vestido rendado e bordado, o pano preenchendo estrategicamente todo o espaço de trás do carro. Gotas cristalinas se chocavam contra o vidro da janela, depois escorriam, chorosas, feito lágrimas soltas ao relento de um vento minuano. Quando o automóvel passou pela praia, seu coração tremulou. Na verdade, seu peito palpitara havia tempo, mas aquela foi uma palpitação diferente. Um sinal. Forte. Incontido. Quase um presságio. O suor febril espalhou-se por sua pele reluzente. A imesidão do horizonte a chamando. Pare o carro, pediu. O chofer prosseguiu indiferente, incorrompível. Ela se debruçou em sua direção, próxima do ouvido dele, reforçando a ordem num tom audível. Pare agora, por favor. Com um olhar reprovador através do retrovisor, ele freou no acostamento da praia. Está se sentindo bem? Sua resposta foi a porta aberta, deixando a gélida rajada de ar invadir o carro. E saiu. A cauda branca do vestido arrastando-se atrás dela, pelo asfalto molhado, entre as poças. Os saltos lascando nas retagulares pedras molhadas. Precisava. Devia. Tinha que. A chuva despencava imperdoável enquanto a noiva caminhou pela areia, ostentando o buquê desmanchado, rumo ao altar das águas. Os argênteos sapatos afundando-se na superfície areenta. A chuva caindo em uma melodia nupcial. Em criança, ela sempre sonhara ser o mar. Queria ser água ao descobrir que o oceano avolumava a existência dos sonhos. Na olra, acocorou-se na margem espumante, ajoelhada diante do grande templo aberto das águas. Sua brancura matrimonial se misturando ao branco das espumas. A barra do vestido lambendo as ondas. O véu salpicado de lágrimas celestes. E lá, na beira do mundo, ela apanhou um pouco da água salgada com a concha das mãos e encostou em seus lábios, a língua sugando o mar, dizendo sim ao infinfito, cercada por ondas revoltas que a abençoavam. Noiva e mar juntos na plena comunhão de uma silenciosa cerimônia. Por fim, ergueu-se, a amante realizada no rito da celebração divina. A pele enriçada de frio. Cabelos e roupas encharcados. Levantou uma parte do vestido enlameado e andou novamente pela areia úmida rumo ao automóvel que aguardava. O vestido respingava murcho e sujo. A guirlanda dos cabelos desfeita. Recolheu a cauda manchada de areia e barro e entrou, batendo a porta. Agora podemos continuar, pediu, acomodando-se no assento. O veículo então partiu, debaixo do céu que derretia, desaguando uma doce vigília sobre a noiva deflorada pelas águas.... Ela havia se casado com a vida. Na praia, as ondas carregaram para o fundo o buquê de rosas esquecido.

Para Franci. Escrito no dia do seu casamento.
Fábio Fabrício Fabretti
Enviado por Fábio Fabrício Fabretti em 02/11/2007
Código do texto: T720840

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Sobre o autor
Fábio Fabrício Fabretti
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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