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Tempo perdido

 

 

Queria contar a história de uma mocinha apaixonada que se encontrasse todos os dias com o seu amado sob uma mesma árvore frondosa à beira de uma estrada e que essa estrada fosse pouco usada, cortada por pequenos caminhos por onde se pudesse caminhar e que esses caminhos tivessem bancos  para sentar, conversar, namorar...

Gostaria que seu namorado fosse rapaz de grande valentia, com olhos voltados para horizontes longínquos e vontade de vencer, e que se essa história fosse só minha, apesar de tanta galhardia, ele não resolvesse assim de repente mudar de cidade para outra bem maior em busca de oportunidade e fortuna, prometendo à mocinha tão ingênua e apaixonada, um dia voltar para buscá-la, pois assim essa história não pareceria banal, nem teria esse ar de foto-novela antiga. Mas, ao começar uma história, ela cria vontade própria e assim como a vida os destinos aparecem marcados e, portanto, já que o mocinho iria embora a mocinha choraria e diria:

“Você vai partir, mas todos os dias virei aqui te esperar, serei para sempre sua namorada.”

Seria aquela espécie de amor infinito e por isso mesmo maldito, não esvanecendo com o tempo, atravessando o verão assim como o outono, o inverno, a primavera, muitos anos passariam e aquela que havia sido uma moça em flor se transformaria numa velhinha que todos os dias naquela mesma hora da tarde esperaria debaixo da mesma árvore a volta do seu amado.

Se eu escrevesse essa história, o galante namorado, para sempre ficaria sozinho, preocupado em ajuntar dinheiro e ser muito poderoso, até que um belo dia já bastante idoso e doentio lembraria daquela namorada de vestido florido debaixo da árvore que por ele aguardaria a vida todinha.

Chamaria o motorista e para lá partiria com um sorriso incrédulo e esperançoso nos lábios e ao chegar, procuraria o antigo lugar de encontro. Lá estaria a velhinha de vestido de florzinha, sentada, nas raízes enormes e retorcidas da árvore, olhando o horizonte, sem nada enxergar ao seu redor. O velho se aproximaria e perguntaria:

_“Posso me sentar?”

Ela diria:

_“Bem, este lugar está guardado. Espero meu namorado.” Mas, depois de alguns segundos diria: “pode sentar, senhor, acho que meu namorado não vem mais, mesmo” - e ali ficariam a olhar o horizonte. Juntos. Sem dizer nada, pois mais nada haveria a dizer.

 

 

                                              Célia R. Marinangelo

 

                                                               1º/11/2007

 

célia regina marinangelo
Enviado por célia regina marinangelo em 07/11/2007
Código do texto: T727613

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Sobre a autora
célia regina marinangelo
São Paulo - São Paulo - Brasil
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