Promessa cumprida

O ônibus chegou com muito atraso, perfurando uma nuvem de poeira que cobria toda a pequena cidade. Era velho e de cor desconhecida, já que o cinza tomara conta da sua carcaça.

A cena era uma tristeza sem fim. Eu chegara na rodoviária naquela manhã, proveniente de Recife, onde passava curtas férias com amigos. Sentada em um banco de madeira desfalecido pelo tempo, fiquei aguardando e pensando como deveriam estar os passageiros pois, pelos meus cálculos, a viagem fora longa, cerca de nove horas partindo de João Pessoa.

Quando a porta se abriu um amontoado de gente pulou para fora, uns pisoteando os outros, como se o mundo fosse acabar naquele fim de mundo.

Eu alí aguardando, atônita com o que via, com aquela cena absolutamente inversa ao que eu vivia, ao que eu pensava existir, por pior que fossem os meus devaneios.

Em pouco tempo, quando tudo pareceu serenar, vislumbrei Affonso dependurado na sua bengala. O mesmo Affonso de cabelos brancos e olhar terno que eu encontrara pela última vez na casa dos meus pais no Rio de Janeiro, quando eles ainda eram vivos e o tinham como mordomo por vinte anos. Era de confiança, considerado da família.

Passaram-se dois anos e era chegada a hora de fazer cumprir o que constava no testamento de meus pais: acomodar Affonso em um pequeno sítio naquela cidade empoeirada, contratar uma pessoa para cuidá-lo e rezar para que a felicidade no final da sua vida residisse alí, já que sempre fora o seu pedido.

29/11/2021

Rosalva
Enviado por Rosalva em 12/12/2021
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