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o grito

De olhos fechados eu podia sentir aquele grito. O mais forte que meus ouvidos já captaram. Ela gritava como quem não tem braços e precisa seguir sem eles. Talvez por isso eu ainda lembre tão bem. Talvez por não ter conseguido gritar junto, o dela se bastou.

Um grito. As mãos no rosto. Olhos boiando pelos campos e o som da alma a espalhar terror e pena em ondas, repetidas ondas no sem-fim do tempo. Essa substância destilada que feriu meus tímpanos, estranhamente, guia meus passos até hoje e se pudesse escolher entre o silêncio e meus passos, definitivamente, escolheria o silêncio. Mil vezes o silêncio, o silêncio protetor.

Então fecho os olhos e, agora, o grito, o rosto dela. Gotas e sonhos despencam no vão da realidade e, acuada no canto do quarto, tece novamente os sonhos e é das lágrimas que ela faz a fonte.

Não bastaria o silêncio para que meus passos percorressem outro caminho. Todo aquele quadro teria que nunca ter existido. A lembrança do rosto desfigurado me forçava a entender tudo de uma só vez. Então tento apagar de minha memória fraca para o ontem, o rosto em linhas fortes mirado há mais de década.

O grito e o rosto formam apenas a base do quadro que agora exala o cheiro de todos aqueles dias e que permearia muitas de minhas escolhas, entre elas, a noite que escolhi para viver. À noite, à beira de um rio sujo, entregue ao fartum de peixe, posso recompor todo aquele velho quadro e penso que poderia ter doído menos. Se tudo não passasse de sonho, e eu pudesse ter gritado e pedido socorro, alguém teria vindo ao meu encontro e me abraçado.

O que aconteceu foi pior que o contrário. O que aconteceu foi hoje. Hoje, sem verde que me mova ou branco que me prenda. Hoje durmo olhando o mesmo pedaço de céu que ela, sabendo que eu não seria eu se nunca tivesse sentido aquele quadro.

Mesmo privando meus olhos de ver e meus ouvidos de ouvir, ainda sentiria o cheiro. E mesmo que não mais sentisse o cheiro ainda restariam os vultos mais vivos que qualquer imagem ou movimento furtivo a persistir na lembrança. Viver com os vultos seria o fim.

Eu não tenho uma história pra contar. Quem tem uma história pra contar é mais vivo do que quem cala por opção e faz do silêncio companhia? Eu não tenho uma história bonita pra contar. Cuido em esquecer o que aconteceu ontem e semana passada. Minha primeira vida vive em mim em preto e branco.
She Rocha
Enviado por She Rocha em 17/11/2007
Código do texto: T741140

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Sobre a autora
She Rocha
Teresina - Piauí - Brasil, 34 anos
14 textos (724 leituras)
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She Rocha