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Terra dos Sonhos 7

Ela apareceu no portão, assim de repente. Sempre me olhava de lado, sempre sem ninguém perceber. Ela me amava às escondidas. Eu a amava profundamente, mas ninguém sabia, nem ela sabia.
Um dia chovia muito, ela vinha correndo na chuva, mas havia esquecido as chaves de casa, que estava vazia. Então ela me viu. Olhou-me como nunca tinha olhado, diretamente nos olhos, aquele olhar apaixonado. Sorriu o sorriso mais lindo que já havia visto e era pra mim, não havia mais ninguém, só eu, ela finalmente havia declarado seu amor com aquele sorriso.
Veio correndo ao meu portão, explicou-me a situação e perguntou-me se podia ficar na minha casa até alguém chegar na dela. Abri o portão sem palavras, não acreditava que ela estava ali, na minha casa, minha amada.
Ofereci-lhe um chá e ela aceitou, depois perguntou se podia pegar uma toalha no banheiro para secar o cabelo. Parecia que fazíamos aquilo à anos e eu via nos olhos dela que estava tão confortável e feliz como eu. Fiz seu chá, botei bastante açúcar, ela gosta de coisas doces. Ao chegar na sala lá estava ela, com aqueles cabelos vermelhos que havia pintado só porque sabia que era minha cor favorita. Ela dizia pra todos que era para o namorado motoqueiro, mas eu sabia que era pra mim, era um amor escondido.
Ela sorriu quando lhe dei o chá e me deu um beijo no rosto, dizendo que eu era muito educado.Fiquei paralizado, era uma boca tão macia e seria o primeiro beijo de muitos, mal podia acreditar. Ela tomava o chá de olhos fechados, apenas esperando meu beijo de retorno, os lábios fumegantes. Tirei meus óculos e reclinei-me, beijando seus lábios. Ela deu um salto, derramando chá por todo o carpete. Aquela mancha marrom no carpete cinza, como sonhos quebrados, aquela mancha com o formato do mapa do Brasil, aquela mancha da cor dos meus dias. Ela pegava as coisas e eu segurei sua mão e lhe pedi perdão, disse que devia ter esperado ela ter terminado o chá, que a assustei sem querer. Ela soltou-se, disse que tinha namorado, que não devia fazer aquilo. Eu lhe disse que sabia que ela me amava, que não precisava mais esconder, que ninguém estava olhando. Ela chamou-me de louco, pervertido e doente. Ela xingava-me como ninguém, uma deusa de tanto poder, e eu sabia que na verdade ela queria me elogiar, mas tinha medo de que alguém descobrisse. Eu lhe dizia que estava tudo bem, que ela não precisava mais esconder, que podíamos fugir, e viver apenas os dois, juntos para sempre. Ela disse que preferia morrer e correu.Eu entendi no mesmo instante, éramos Romeu e Julieta, deveríamos ficar juntos para sempre na morte. Peguei um dos cacos da xícara quebrada e fui atrás dela. Faria tudo por ela, até matá-la e ir junto, aquele destino doce, a eternidade lado a lado.
A alcancei na porta da sua casa, me olhando com aqueles olhos desesperados de tanto amor, me xingando querendo elogiar, sempre tão confusa, seu cabelos vermelhos balançando, ensopados de chuva, seus cabelos vermelhos ainda mais vermelhos, ensopados de sangue, do belo colar de sangue que o caco da xícara abriu, não gritava mais, seus lábios vermelhos, seus cabelos vermelhos escorrendo pela calçada, seu rosto vermelho, no exato instante que nossas mães chegavam e gritavam, no exato instante em que me agarraram e me bateram e me levaram. Olhei seu rosto pela última vez, todo repleto e sangue, apenas seus olhos limpos, seus olhos feitos de céu, me encarando de lado, sem ninguém perceber.
Daniel Cavalcanti
Enviado por Daniel Cavalcanti em 17/11/2007
Código do texto: T741192

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Sobre o autor
Daniel Cavalcanti
Teresópolis - Rio de Janeiro - Brasil, 31 anos
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Daniel Cavalcanti