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César

Tio Lelei comprou uma televisão a cores.
A notícia se espalhou no cais. Os amigos, pescadores da Passagem, bairro de Cabo Frio, ao saírem da Boca da Barra, davam uma passadinha por lá para admirar a cor da tela.
De porta em porta uns vendedores empurravam uma proteção de listras coloridas que colocada na frente da TV nem de longe imitava a chamada transmissão em cores , mas tínhamos a ilusão do rosa , azul e verde daquele plástico grudado no vidro da televisão.A isto chamávamos, TV color.
Era época de copa do mundo. Zico jogava.
Os flamenguistas e vascaínos colegas do barco de pesca Monte Moriat em jogo de copa de mundo se uniam: sentimento era só Brasil.
O dia do primeiro jogo, cujo ano a memória esqueceu, a casa encheu.
Tia Hildinha preparou peixe assado.Uma anchova. Batatinhas circundavam o prato regado de azeite.Acompanhava o arroz branco e a salada de alface e agrião.A pimenta colorida colhida do quintal conservada em casa exalava seu cheiro forte e característico eternizado em minhas memórias.
O pirão bem temperado cujo caldo fora extraído de cabeça e rabo de peixe cozido com tomate, cebola e pimentão.Depois de cozidos, os rabos e cabeças eram dispensados. A parte, coado o tempero e reservado com um pouco de caldo onde se acrescia mais um pouco de pimenta.Na panela o alho era refogado, juntava-se mais cebola picadinha, tomates sem peles ,sal a gosto e um tanto de azeite de oliva. Ali se punha o caldo de peixe misturado a farinha de mandioca , fininha, comprada na feira local. O ritual era mexer o pirão até dar o ponto. Segredo que aprendi menina.
Estava preparando o pirão quando César chegou.
Meu cabelo preso por um lenço vermelho deixava meu rosto a mostra e caía como um véu negro pelas minhas brancas costas nuas. O vestido era uma frente única em crepe tingido com grandes manchas de batik também vermelhas. Com a mão na cintura e o pé encostado à outra perna , mexia distraída a mistura de caldo de peixe. O aroma era maravilhoso!Tinha acabado de colocar o coentro!
César era alto, moreno e musculoso.O cabelo longo de um loiro queimado de sol.Ele cheirava a sol.Sorria brilhoso como o sol.
Veio até a beira do fogão e senti a respiração dele no meu pescoço como quem saboreasse o perfume da comida.Senti , no entanto, o cheiro de mar que ele vestia.O roçar do peito de César em minhas costas  e o toque de suas mãos em minha cintura numa intimidade  que não me era costumeira , assustaram-me.Achei abusado, mas gostei. Desabrochou em mim um sentimento novo.
A vergonha não me deixou encara-lo, mas por toda a tarde em que fiquei ajudando a minha tia, furtivamente olhava para ele.O jogo distraiu quase todos, nós dois cúmplices de olhares, nos traíamos a olhar um para o outro.
A festa se estendeu pela noite. Depois de juntar os pratos e deixar a cozinha limpa do almoço tardio.Tive que voltar para casa,seguiu-me o olhar de Cesar, de soslaio, com um copo de cerveja na mão e aquele sorriso na boca.
Aceso o corpo naquela noite não consegui conciliar rapidamente o sono. Ri sozinha da minha cara de , zangada, fico vermelha e bicuda como dizia minha avó.Acabo por assumir uma feição engraçada.Pensava nele e meu corpo estremecia ao relembrar o toque e a sensação da presença daquele homem perto de mim.
A rua Almirante Barroso dá acesso ao cais. A casa de minha avó onde fui criada estava de frente para a rua. Era ali que na calçada das noite de verão se iniciavam os namoros sob os olhares dos velhos descendentes de portugueses da passagem.Não foi diferente para mim. César com desculpa de ir para o trabalho ou resolver algum assunto com o patrão,meu tio, mestre de pesca,passeava pela Almirante Barroso a espreita de nos encontrarmos.
Numa dessas tardes mornas nos vimos.O coração saltava do peito e meu rosto queimava avermelhado,no entanto nossos olhares magnetizados esqueceram o mundo ao redor.Sem uma palavra ele tomou minha mão entre as suas...
Minhas mãos eram pequenas e brancas naquela época.Senti a rusticidade das mãos calejadas de César.Penas veias azuis como um mapa foram perseguidas pelos dedos de César acariciando a pequena mão assustada e cheia de desejos.
Com a aproximação de minha tia, a magia daquele momento se dissipou, sem não antes ele ter me dito: _ Me encontra na praia!
As tardes de Cabo Frio são gostosas e mornas. Um vento suave se enovela em nosso cabelo. O céu de um azul puríssimo e o cheiro de mar e alegria penetrando na alma.Era assim que me lembro do momento em que cheguei à Praia da Barra, perto do Forte. Ele estava lá. Alto,moreno e sorrindo,estendeu seus braços e me puxou ao seu encontro. Foi meu primeiro beijo!Beijo com gosto de sal e paixão.
Alguns turistas admiravam o por do sol nos bares da orla da praia,mas nós conhecíamos a praia.Tomou, assim minhas mãos e subimos o Forte de São Mateus.Por um caminho conhecido dos moradores chegamos a um pedacinho de praia escondido no meio do burburinho da cidade.A areia branca beijada pelas ondas que deixava cair sobre si a força decadente do sol amarelecido. Um sol apaixonado admirando a lua altiva que se aproximava!
Deitamos na areia olhando um para o outro entre carícias e beijos.Senti a força de homem brotando sob as roupas de César. Senti seu desejo em minha pele.A lua refletida na água nos cobria de brilho.Não ofereci resistência quando ele me despiu.Meus seios se ofereceram fartos para a boca que os consumia desesperada.Ao longe o som da música se perdia com marulhar das ondas, o mundo era somente nós.
Lutar contra o corpo parecia naquele momento uma tortura.
César beijou minha boca com terno carinho, ajeito seu corpo sobre o meu e me fez mulher.O sangue de minha virgindade misturou-se as águas do mar como uma gigantesca grinalda de um vestido de noiva prateado.Amei e fui amada.
Aos poucos voltando a realidade, minha timidez e desespero o fizeram rir e se assenhorear de mim: _ Você é minha! Só minha!
Ergueu-me como a uma criança e rodopiando não pude deixar de me sentir a mulher mais feliz do mundo!
Nada importava.
Muitas tardes passamos juntos em nossa praia.Fizemos os planos do casamento, da casa e das viagens que faríamos. Discutimos sobre os padrinhos e sobre a igreja: ele queria se casar na matriz e eu na Igreja de São Benedito. E a virgindade perdida me pesava como um pecado.
César foi para o mar, alegre como sempre. O dia estava lindo. Contaríamos sobre nós dois no retorno daquela pescaria.
Ali do cais eu o vi partir sobre a popa da traineira acenando com seus braços fortes.Aos serviços fora chamado e começam a amarras,a preparação das redes.Eu fico ali observando o barco se distanciar da costa...
_ Mãe! Vamos?
_Espera ,filho! Deixa o barco chegar mais perto. Quero ver a pescaria!
_Vem, vó! To com fome!Quero ir pra casa!
Acariciei o rosto da minha neta.Olhei para meu filho e vi César nele.Meu filho também tinha os cabelos russos do pai e a pele morena.Trazia no rosto o sorriso que eu deixei num barco que jamais retornou.
Nas férias sempre estávamos de volta a Cabo Frio!
Eu queria tanto ter de volta o meu mar e minha praia...
Minhas mãos ainda guardavam a alvura da juventude, embora o mapa trilhado por César estava salpicado de manchas marrons, crescidas e azuladas na aridez da magreza de uma mão velha.
Uma tempestade de verão se armou no mar,engoliu o barco e meu amor com ele. Meu tio,meus amigos e César nunca mais voltaram.
Minha barriga carregava o fruto de meu pecado, dizia minha avó.Ela estava enganada, não era o fruto da vergonha ou do pecado, era o fruto de um amor.
Durante os meses que pude carregar comigo meu filho e meu segredo passava as tardes do inverno que chegou frio e crespo olhando o mar que me roubara a ventura.Sozinha na praia deserta, sem a música, sem os turistas, sem o sol e sem a lua.Por instantes senti o cheiro de mar de César, vi seu sorriso derradeiro e dormi...
Acordei entre minha mae e minha avó nas rezas empunhando o terço e com os olhos vermelhos de chorar.
No desmaio na praia, elas souberam do meu agravo: a gravidez.
_Vó, meu pai fica bonito no sol, não é?
A voz de Vivi me trouxe a realidade.
_ É bonito sim, como o vovô era!
Um vento gostoso e cálido soprou em minha nuca. Uma brincadeira de namorados. Era assim que César se aproximava, escondido e eu fingia que não percebia, para agradá-lo e senti-lo exultante a me abraçar por trás como a me assustar.Virei a cabeça em direção aquela presença irreal , nascida do meu coração.Confesso que o vi.Tão lindo como há  42 anos atrás e ele me sorriu como se eu fosse aquela noiva!
Meu filho percebeu minha ausência e tocando em meus braços aparou meu corpo para que não desfalecesse.Ainda ouvi pela última vez:_ Te amo!Você é minha!Só minha!
As lágrimas foram inevitáveis,mas de alegria!
_Meu filho, seu pai está aqui!
Os olhos enternecidos de meu filho me acalentaram desacreditando,apenas me amando!
Aquele menino conhecera as dores da infância de dificuldades, mas conhecera uma história de amor da qual se orgulhava.Sabia que o amor vale todas as lágrimas e todos os sorrisos.
_Vem ,mãe! Este sol está forte demais!
Custa me despedir da praia.Acompanho meu filho e minha neta que ri e dança em sua saída de praia que eu mesma fiz, matizes de rosa em batik.A que ela mais gostou de meu ateliê, o Netuno.Um misto de artesanato,roupas e acessórios para praia. Meu filho e minha nora que gerenciam o negócio agora.Eu fui morar em Petrópolis faz dois anos.Ainda desenho, porém não costuro, nem faço aplicações no tecido.
Estou terminando uma tela,mas não quero acabar... Não consigo desenhar o sorriso de César!As horas se enlaçam no pincel e no lápis,nas minhas memórias...
_Vó , vem!Olha meu tesouro: igualzinho o seu. Vê esta aqui, vó!
Diana carrega várias conchinhas na pequena mão.
Eu guardo as conchinhas que catei e o caracol que César me deu na noite em que me fizera a mulher mais feliz do mundo. Ele me deu um caracol para eu ouvir a voz do mar quando a saudade apertasse.
Meus tesouros estavam ali diante de mim: meu filho e minha neta.Toquei com carinho o caracol que carrego dentro de minha bolsa e segui rumo ao apartamento de meu filho.Parecia estar acompanhada do meu amor, ouvindo seu sussurrar... ou seriam as ondas quebrando na praia...




Cristina Ribeiro
Enviado por Cristina Ribeiro em 19/11/2007
Código do texto: T743918

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Sobre a autora
Cristina Ribeiro
Cabo Frio - Rio de Janeiro - Brasil, 51 anos
65 textos (6029 leituras)
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Cristina Ribeiro