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UMA VIDA SEM GRAÇA, SEM PROPÓSITO, MAS UMA VIDA

   Jorge era para os outros como os outros eram para ele, nada. Filho de mãe solteira jamais conheceu seu pai ou algum outro familiar além de sua mãe. Morou até os onze anos num barraquinho frente a um córrego fedorento da periferia de São Paulo, junto com dona Lindalva, sua mãe. Lindalva trabalhava como lavadeira num hotelzinho humilde na rua Cruzeiro e veio a falecer um mês depois do décimo primeiro aniversário de seu filho, o motivo? Doença, qual? ninguém sabe.
    A dificuldade de Jorge era igual a de qualquer outro menino pobre numa cidade grande, porém sua mente trabalhava diferente das demais crianças. Enquanto uns queriam jogar bola, outros brincar de pega-pega, Jorge queria ficar sentado na calçada esperando o tempo passar, pelomenos era o que diziam os vizinhos:
  - Esse menino vê o tempo passar demais, um dia é o tempo que passa ele".
    Jorge dos seus onze anos aos dezessete morou sozinho no mesmo barraco, porém sem mais nem menos arrumou uma pequena trouxa de roupas e simplesmente saiu da favelinha onde morava.
    O garoto que até então se sustentara ajudando como servente de pedreiro, largou do emprego no mesmo instante que deixou para trás o seu barraco. Conheceu a noite e seus perigos logo nas primeiras semanas de convívio direto com as ruas, digo convívio direto, pois Jorge morou na rua em suas primeiras semanas. Jamais se envolveu em brigas ou confusões, gostava da rua pela sua atmosféra livre, Jorge era sonhador, era misterioso, foi embora daquelas vielas do centro paulistano quando acabou seu dinheiro, dinheiro este que era pouco, resolveu morar em praças, o ruim era quando a polícia o acordava xingando e batendo mandando ir embora, porém bastava andar um pouco mais e encontrava uma outra praça e voltava a dormir
    Para se sustentar resolveu fazer algo que sabia bem, moldava pequenos bonequinhos em gesso, passa tempo que aprendeu a fazer nos horários de almoço na obra, e depois vendia nas calçadas, o gesso conseguia arranjado com um ex-colega de trabalho que sempre deixava um pouco com Jorge no final de seu expediente.
    Todo dia fazia uma porção de peças diferentes, desde personagens de desenho á imagens de santos , e todo dia à primeira chamava de imagem de Deus, normalmente estas nunca pareciam algo claro, eram tortas, com grandes emaranhados de formas. Jorge nunca vendia estas peças "Deus", eram suas, fazia por necessidade interior, não adiantava perguntar pra que ou para o que fazia, ele não respondia.
    Jorge morreu de velho largado numa praça, com uma sacola cheia de "Deuses", sua vida foi solitária e misteriosa, à quem diga que o homem era uma criatura perturbada, prefiro acreditar que era um homem atormentado pelo incerto, como todo mundo é, mais Jorge encontrava-se em sí e nos seus Deuses, por isso viveu para sí.
 
Felipe Rariz
Enviado por Felipe Rariz em 22/11/2007
Reeditado em 22/11/2007
Código do texto: T747743

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Sobre o autor
Felipe Rariz
São Paulo - São Paulo - Brasil, 30 anos
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Felipe Rariz