Mariana morava na casa mais bonita da rua, com três andares, portões altos, jardim florido. Ela ficava sempre na janela, olhando para a rua; foi assim que conheceu Francisquinha, cor de café com leite, cabelinho afro e  um sorriso branco e aberto.  Morava no fim da rua, numa favela, onde havia muita pobreza.  Um dia  Mariana desceu e  decidiu que era hora de se conhecerem.  Ali, nasceu uma amizade imediata e passaram a trocar segredos e falar de sonhos.


Era uma quarta-feira quando Francisquinha disse  que faltaria luz na favela naquela noite. Mariana falou que em sua casa tinha gerador e que eles nunca ficavam um dia sem luz.         
-  Gerador? O que é isso? -  perguntou curiosa arregalando os olhos.        
- Não entendo bem, mas quando falta luz, meu pai liga um botão e  tudo se ilumina, parece que é algo que  transforma energia mecânica em elétrica, nao sei bem - respondeu.
A amiga olhou para ela admirada: como era boa a vida dos ricos! Convidou-a para ir à favela naquela noite. Mariana  nunca havia experimentado como era um dia ou uma noite sem luz. Deitadas na grama, de mãos dadas,  olhavam para o céu coberto de estrelas.     

  
Francisquinha pediu a amiga que ficasse sem piscar até que seus olhos se enchessem de lágrimas, e depois, olhasse para as estrelas do céu. Mariana obedeceu, e quando piscou, lágrimas rolaram em sua face; olhou para cima e as  estrelas pareciam formar pequenos rasgos de luz.  Naquele momento, passou pela sua cabeça que Francisquinha  deveria ter chorado muitas vezes naquelas noites escuras  para ter descoberto essa beleza no céu. Apertou sua mão numa cumplicidade amorosa e sorriram.

A partir daquele dia participou de muitas noites de breu na favela.  Percebeu o quanto o  gerador de seu pai trazia uma falsa alegria, porque o bom mesmo eram aquelas noites escuras, os vagalumes pousando em seu braço, e aquele céu de estrelas com rasgos de luz.

 

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Mary Fioratti
Enviado por Mary Fioratti em 09/08/2022
Reeditado em 09/08/2022
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