Os Meninos da Bernaldo Couto

Ao por do sol daquele dia assentados no meio fio a maquinar, Júnior e Abelardo começaram a dar o retoque final ao sonho de descer a Bernaldo Couto sobre um carrinho de rolimã, enquanto Betinho e Higino tentavam descobrir, qual era o segredo.

Marteladas pra cá, cerradas pra lá, pregos e madeiras caindo e o tempo passando. Com toda essa zueira na garagem da casa do Abelardo, algo realmente estava acontecendo, que atraiu a curiosidade de Betinho e Higino. E sem terem como esconder, a altura daquelas vinte e uma horas, o jeito era apresentar o carrinho de rolimã, que servia a cinco pessoas. Uma tabua de compensado, bem grande, com seis rolinhos de aço, sendo duas atrás, duas a frente e mais duas no comando. Estava ali no salão de exposição, sendo exibido a convidá-los a experimentar. O entrave, no entanto entre eles, se dava pelo o avançar das horas, por temerem serem repreendidos por seus pais. Com tudo a insistência em conjunto com a impetuosidade pulsavam a ritmá-los num convite a desobedecer os padrões pré estabelecidos. Tomados de ansiedade para testar o carro resolveram votar, mas aquela altura, quem iria se opor e a rua estava silenciosa, poucos carros descendo a oferecer qualquer perigo aos olhos deles, enquanto a maioria das famílias, incluindo seus pais estavam, entretidos, escravizados e hipnotizados, servidos pela novela da televisão, num momento crucial pra se fazer arte.

Padrões vencidos e eles começaram a subir ladeira a cima sob a égide da escuridão. Sorrateiramente, sem esboçar palavras, foram passando pela vila ao pegado da casa da Catatau, em frente a casa da dona Lina, ao lado da casa de dona Leonilde, parelha com a do Camarão e do Miguel com o Paulinho Japona. Subindo passavam pela casa da dona Jacimar, que ficava de frente com a do Getúlio, fazedor de rabiolas e papagaios.

Mais um pouco, aproveitando a sombra das castanholas a frente da casa do Gilberto, irmão da Monstrinho da cara Preta, que ficava certo no caminho que levava ao morrinho, onde se jogava bola contra o time do Tadeu, eles foram avançando. Passaram e passaram em frente ao casarão do seu tira dama, cortaram a rua Dom Romualdo Coelho e chegaram em frente a padaria cinco de outubro. Mais um pouco e estavam no ponto, bem no cruzamento da rua Bernaldo Couto com a rua Dom Romualdo de Seixas.

O tempo já urgia, quando Abelardo preocupado perguntou a um transeunte o horário:

- Moço, por favor, que horas são?

Sem demora o homem olhou o seu relógio de corda todo prateado e respondeu:

- São vinte e uma horas e quarenta e três minutos.

Apreensivos e ansiosos, se olhavam, se fortificavam, porque estavam juntos e sem dizer uma única palavra a não ser ri, ficaram no já estamos aqui e agora vamos até o fim. Usaram desse lema, normalmente abordado pelos os incautos e seguiram pra cabeceira, onde olhavam a Doca com as suas luzes a confundir , aquela noite vestida só de estrelas a bailar com o vento frio, que descia na frente deles. Por testemunha aquelas casas lado a lado, caladas e já agasalhadas, sem delatar apenas acusavam o entardecer do horário.

Olharam de um lado e outro e não subia e nem descia ninguém, os carros tutores daquela área, estacionados já dormiam e os que ainda se moviam, o faziam por outra rota.

Entendido como tudo a favor, colocaram o carrinho de rolimã no asfalto, onde o Abelardo ficou na direção, Higino bem atrás com o Betinho e Júnior o maior no final se preparando para dar o impulso. Dois passos, mais dois e acelerando começaram a descer numa velocidade, que os fez gritar de alegria e prazer, expondo toda aquela adrenalina.

A velocidade imprimida nem chegava a competir com um automóvel, mas o sonho realizado açambarcava aquela invenção e todos os seus direitos.

Desciam a Bernaldo Couto, cortando a Dom Romualdo Coelho, passando pela vila, quando de repente, dona Dina, mãe de Júnior e Higino, tia de Betinho e vizinha do Abelardo, abriu a porta como a procurar, a dar falta de algo, no caso seus filhos e sobrinho. E investindo seus passos a frente da casa, se deparou com aquela visão, de quatro meninos aquela hora da noite a surfar sobre o asfalto, a cruzar perigosamente a Almirante Wandenkolk, como se ali fosse o fim da linha daquele feito, que eles, sem saber protagonizariam no futuro próximo o ápice da travessura, que marcaria o natal daquele ano.

Quando os quatro estavam chegando felizes em casa, certos da emoção, como astronautas a desembarcar na terra, oriundos de sua missão receberam os louros, em forma de grilhões. Betinho recebeu seu quinhão numa boa palmada, com a ordem de despejo apontada pra ele procurar o rumo da sua casa. Sem esperar congratulações Júnior correu pulou o muro e se escafedeu; Higino, na sua vez recebeu umas palmadas, com a ordem de ir direto ao banheiro tomar banho, enquanto Abelardo com o carrinho em baixo do braço, meio que desorientado, com recompensa recebeu o aviso de ir pra sua casa, onde posteriormente ela iria fazer queixa a sua mãe.

Os argilosos ainda, que avisados, de couro quente foram dormir lembrando da sua façanha, que ficou pra posteridade.