FOI O VENTO

 

POR: Sônia Machado

 

Capítulo 13

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QUANDO SR. LOPES SAIU DO ESCRITÓRIO, ARTHUR, enfurecido, esmurrou a mesa derrubando os papéis no chão ante os olhares questionadores de seus funcionários. Ele jamais havia feito isso antes. Aliás, Arthur andava diferente nos últimos dias e, tanto Mário, seu assessor e melhor amigo, quanto seus funcionários haviam percebido essa mudança.  Ele saia todas as tardes sempre à mesma hora, e voltava às vezes pensativo, às vezes com um sorriso no rosto e ficava muito tempo parado pensando. E quando Mário tentava questionar esse comportamento, ele desconversava.

—Ei... A mesa não tem culpa cara. —Mário ousou brincar, mas Arthur o olhou de um jeito nada amistoso.

—Melhor ficar quieto Mário. —disse apontando o dedo para o amigo.

—Devia ter esmurrado o Sr. Lopes. — Mário cutucou Arthur ainda mais, rindo com gosto.

—Confesso que eu tive vontade. Nunca vi alguém mais arrogante. —Arthur apertava as mãos que era quase possível ouvir o barulho das juntas contraídas.

—Ia ser uma luta e tanto. Você no tapa e Sr. Lopes com a bengala. Desconfio que você fosse apanhar— Mário riu ainda mais. Dessa vez todos no escritório riram. Com certeza imaginando a cena.

Arthur olhou com ar severo para Mário, tentando esconder um riso no canto da boca.

—Você não tem jeito Mário... Vou esmurrar é você se continuar a dar seus palpites. —E dessa vez até Arthur conseguiu rir. Mário sempre se metia na sua vida, mas também ajudava ele a espairecer com suas brincadeiras.

—Vou caminhar... —anunciou.

—Mas ainda não são quinze horas... —Mário consultou o relógio.

Arthur simplesmente revirou os olhos e sem responder apanhou o sobretudo e saiu.

 De fato ainda não era a hora costumeira que ele saia para caminhar, mas tudo que precisava naquele exato momento era sentir o vento batendo em seu rosto, ouvir a voz doce de Lívia e caminhar de mãos dadas com ela pela rua sem tempo e sem hora. Queria beijá-la de novo. Sentir aqueles lábios entreabertos como a “Moça com brinco de pérola”

 

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Arthur caminhou até à padaria Laika, aonde ia todos os dias acompanhando Lívia.  Como não era a hora exata em que eles se encontravam, ele havia tomado a iniciativa de comprar o leite e o pão de milho e levar para ela. Ele sabia que estava sendo ousado, afinal Lívia nunca o havia convidado para entrar em sua casa. Mas a lembrança do beijo lhe dera coragem.

Quando Arthur entrou na padaria e pediu o leite e o pão, Madalena, a balconista que sempre atendia Lívia, estranhou que ele estivesse sozinho já que na última semana os dois estavam sempre juntos.

—Porque Lívia não veio hoje? —A balconista se dirigiu a Arthur. —Aconteceu alguma coisa com a mãe dela?

—Na verdade Lívia nem sabe que vim fazer as compras. Sai mais cedo e resolvi levar para ela.

—Ah! Tá... — A balconista admirou-se da gentileza de Arthur. Embora visse ele e Lívia sempre juntos, não notara ainda nada de mais íntimo entre os dois, mas tinha certeza que um sentimento maior os unia.

—Lívia é uma boa menina. —A balconista falou enquanto colocava as compras de Arthur numa sacola.—Não está sendo fácil para ela nos últimos tempos por causa da mãe doente.— falou com uma voz sentida. Depois deixando que a curiosidade falasse mais alto, perguntou de súbito:

—Vocês estão namorando?

Arthur a olhou um instante, mas simplesmente pegou a sacola de compras e saiu sem responder.

Madalena, a balconista riu e falou para si mesma:

— Quem cala consente.

 

 

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 E assim, naquela tarde, Arthur estava lá diante da casa de Lívia. Com uma das mãos segurava a sacola de compras e com a outra abria decidido o portãozinho

Ele subiu apressado os oito degraus da escada, entrou no alpendre e bateu na porta. Ninguém atendeu. Mais duas ou três tentativas e nada. Decepcionado, ele desceu as escadas e esperou por um tempo encostado no portão.

—Será que nos desencontramos?— Arthur consultou o relógio. .

Mas Lívia não apareceu mesmo depois de uma hora.

—Será que foram à seção de quimioterapia e Lívia se esqueceu de me contar?

Não tinha como Arthur saber, porque, apesar de se encontrarem todos os dias, Lívia e ele não haviam trocado número de telefone. Eles nem se preocuparam com isso. Viviam apenas o momento das caminhadas de todos os dias.

Enfim, Arthur desistiu de esperar e com passos arrastados foi andando pela rua. O sol morno de inverno quase na linha do horizonte formava pinceladas cor de âmbar e o frio da tarde trazia certa melancolia. Arthur sentiu-se vazio por não ter visto Lívia naquela tarde.

No outro dia Arthur voltou à antiga casa e naquele dia também, esperou por Lívia em vão.  A sensação que Arthur sentia era insuportável e fazia com que a esperança de rever Lívia fosse se dissipando mais e mais. Mas ele tinha a intuição de que estavam no hospital. Só podia ser isso. Temeu o pior.

—Será que a mãe de Lívia piorou? — Arthur parecia preocupado. Ele poderia procurar pelos hospitais até encontrá-las. Então decidiu que, se no dia seguinte Lívia ainda não estivesse em casa, ele faria isso. Contudo, no terceiro dia, Arthur percebeu que a janela de frente da casa onde Lívia morava estava aberta.

—Finalmente... — Arthur não pode conter a alegria e se sentiu aliviado.

Contrariando todos os princípios que poderia ter, Arthur abriu às pressas o portãozinho e correu escada acima segurando a sacola de pão e leite.

Quando ia bater na porta, esta se abriu e Lívia apareceu como se já pressentisse sua presença.

— Oi... — disse Lívia com uma voz tímida e o coração batendo mais rápido que o normal.

—Vim trazer seu lanche. Adiantei suas compras. Importa-se? — Arthur estendeu a sacola de compras para Lívia sentindo-se meio tolo.

—Ah!  Não... Mas não precisava... — disse Lívia, ao mesmo tempo em que recebia as compras. Ela também se sentia meio tola.  Mas agora que Arthur estava ali, tudo parecia tão natural. O fato de ele ter comprado o lanche e levado. O lanche, na verdade, parecia ser e, talvez, sempre fora, a desculpa entre eles.

—Na verdade, hoje eu nem ia à padaria. Não queria deixar mamãe sozinha. — disse Lívia afastando-se um pouco para que ele entrasse. — E já que veio farei um café.— E seguiu para cozinha deixando Arthur na saleta acomodado na poltrona xadrez em tons de azul e bege que contrastava com um gasto sofá bege de linhas arredondadas e encosto alto.

Quando Lívia voltou trazia nas mãos uma bandeja com um bule de café, uma jarra de leite, duas xicaras com florzinhas azuis e os pães de milho que havia recheado com uma fina fatia de presunto.  Arthur levantou-se para ajudá-la tomando de suas mãos a bandeja e acomodando-a na mesinha de centro ao lado do vaso de rosas. 

Lívia serviu o café a Arthur e depois se serviu. Comeram em silêncio o lanche simples. Arthur tentando descobrir palavras para dizer. Ela também.  Arthur não lhe falou das visitas dos dias anteriores, da tensão que sentiu por não encontrá-la.  Mas Lívia parecendo adivinhar os questionamentos no olhar de Arthur disse por fim:

— Minha mãe não passou muito bem e tivemos que ficar três dias no hospital. —Justificou sua ausência com o olhar triste.

— Sinto muito... — Artur ficou segurando a xícara de café no ar enquanto sorvia aquela realidade de Lívia. — Como ela está? Não veio tomar o lanche.

—Ela está dormindo agora e não quero acordá-la. Está muito fraca e precisa descansar. Lhe darei algo para comer assim que acordar. — Lívia justificou a ausência da mãe, ao mesmo tempo em que pousava a xícara na bandeja e ficava em silêncio por um tempo.

—Tudo vai ficar bem. —Arthur pousou também sua xícara na bandeja e tocou a mão de Lívia. Ele queria confortá-la de alguma forma.

Lívia o olhou nos olhos.

—Eu já não tenho tanta certeza. — confessou. Ela estava triste, mas, ao mesmo tempo alegre porque Arthur estava ali e de alguma forma ela se sentia segura. —Mas olhe... Não quero ficar lamentando. É pior né?

— Está certa. Fico tranquilo que você saiba lidar bem com essas situações difíceis. — Mas a partir de hoje quero o número de seu telefone pode ser? — E entregou-lhe também um cartão com seu contato. —Esse é o meu. Promete me ligar?

—Prometo. —E Lívia ficou imaginando como ele devia ter ficado preocupado durante aqueles três dias sem notícias.

—Agora preciso ir. — Relutante, Arthur levantou-se para ir embora e Lívia o acompanhou  até a porta. Ele tomou entre as suas, as mãos de Lívia e beijou-as com carinho para depois descer as escadas. Já no portão fez a sua costumeira reverência e Lívia sorriu. Um sorriso triste, contudo, que, machucou o coração de Arthur.

 

 

Continua....

 


 

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https://www.youtube.com/watch?v=4rPlOSRE9hg