Aconteceu comigo

 

Dezembro de 1976

Esta é uma história verdadeira. Antes, porém gostaria de esclarecer que não sou espírita, membro ou freqüentador de nenhuma seita, igreja evangélica, ou  coisa que o valha.

Não vai aqui nenhuma crítica negativa ou desmerecimento por isso. Sou católico por opção, freqüento um grupo de oração e estudos da Bíblia ás terças feiras na igreja do meu bairro. Acredito em Cristo ressuscitado e na Eucaristia.

 

Sou o quinto filho de uma “reca” de oito irmãos.

Minha relação com meu pai foi de poucas palavras, muito respeito e admiração. De todos os irmãos fui o que mais interagiu com ele. Tínhamos uma comunicação não verbal muito forte, gostávamos das mesmas músicas, mas éramos parceiros de verdade nas viagens e na hora de ir para o sítio.

Era quase sempre eu que o acompanhava nas viagens de Jeep, para abrir as porteiras das precárias  estradas em que viajávamos. Meu pai era fiscal de rendas e visitava periodicamente os municípios vizinhos para fazer o controle da arrecadação das antigas coletorias estaduais.

O tempo passou, chegou a hora de trabalhar e eu fui para Brasília.

Ainda guardo as cartas contando as novidades do sítio, de incentivo e conselhos que recebi de meu pai.

Pouco tempo depois ele se aposentou e passou a se dedicar ao sítio, até que recebeu um convite para “entrar na política” e se candidatar a prefeito daquela pequena cidade do interior mineiro.

Foi uma campanha duríssima, mas que culminou com a sua vitória. Emocionado, ainda dentro do fórum, quando soube que fora eleito, sentiu-se mal e foi levado para o hospital, onde foi constatada uma isquemia do miocárdio.

Levado para Belo Horizonte de avião, foi internado na UTI cardiológica.

Naquela época eu estava em Brasília e quando soube do ocorrido, viajei imediatamente para BH para visitá-lo.

Quando cheguei ao hospital fui avisado pelo médico do CTI que ele estava falando muito num filho que morava distante. Preveniu-me que avisaria a ele da minha chegada e que conforme a sua reação eu não poderia vê-lo.

Foi a última vez que vi o seu rosto sorrir. De longe ele levantou o braço e me saudou, quando me aproximei senti que algo errado estava acontecendo, o médico me fez voltar dizendo que ele se emocionara  e devido a isso houve  alteração da pressão e que eu teria que me retirar.

Logo depois recebemos a noticia de sua morte por parada cardíaca. Foi muito triste para todos nós pois ele tinha somente 59 anos e estava cheio de planos para a prefeitura que iria assumir.

Durante o velório, notei que havia morrido com uma expressão facial de paz, seu semblante deixava perceber um discreto sorriso.

Voltei a Brasília e continuei a minha vida, era o que me restava. Naquela época em plena ditadura militar o país atravessava muitas dificuldades e uma inflação alarmante.

Morávamos em um pequeno apartamento de dois quartos quando soubemos que teríamos nossa terceira filha. A solução seria vender o apto e comprar um de três quartos. Minha mulher havia feito um concurso e esperava ansiosa pelo resultado.

Anunciamos e vendemos o nosso apto, aplicamos o dinheiro, esperávamos ganhar algum rendimento com a aplicação.

Foi aí que o pior aconteceu, o banco em que aplicamos faliu (coroa brastel) e perdemos tudo.

Ficamos desesperados, aquele apto era tudo que tínhamos  e a quitação nos custara várias férias e décimos terceiros salários.

Voltamos a morar em apto alugado, foi um retrocesso que nos custou muitas dores de cabeça e noites de sono.

Quando chegou o período de férias escolares, viajamos para interior, porque ficaríamos na casa de meus sogros e não teríamos despesas com hospedagem.

Recebi do meu cunhado um convite para ir à praia, respondi que estava sem condições e agradeci. Mas ele insistiu e disse que alugara um apto e um quarto estava reservado para mim e minha esposa.

Era uma praia numa pequena cidade do Espírito Santo, quando chegamos e acabávamos de nos instalar, resolvi comprar umas frutas. Entrei no carro, engatei a marcha ré e quando ia sair escutei uma voz em alto e bom tom:

- Renato.

- Renato.

Fiquei atônito, olhei para trás, para os lados e não vi nada, ia saindo de novo quando ouvi novamente forte e claro:

- Renato.

 Reconheci aquela voz.

Quando olhei para cima, vi o rosto do meu pai com aquele mesmo sorriso discreto, dizendo: “eu vim aqui para lhe avisar que a sua mulher foi aprovada no concurso” e sumiu entre as nuvens.

Desliguei o carro, voltei ao apto, subi correndo as escadas  e relatei a minha irmã, minha mulher e ao meu cunhado o que havia ocorrido, todos ficaram incrédulos.

A noite resolvemos ligar para casa dos meus sogros para saber noticias e fomos informados que várias pessoas tinham ligado nos procurando para avisar que ela fora aprovado no concurso.

Até hoje fico me perguntando qual o motivo teria para ter aparecido uma única vez. Não encontrei a resposta, mas imagino que era uma maneira de me fazer perceber que eu não estava só, que ele estava atento, sabendo da situação difícil que nós estávamos atravessando e aquela seria uma ótima noticia. E como foi.

Em pouco tempo conseguimos comprar outro imóvel e refazer nossas vidas.

Nunca mais esse episódio voltou a acontecer, fiquei todos esses anos sem relatar para ninguém, hoje resolvi contar para os amigos do Recanto das Letras.

 

Renato Paes

Jan/08

Renato César Nunes Paes
Enviado por Renato César Nunes Paes em 20/01/2008
Reeditado em 20/01/2008
Código do texto: T825839
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