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A Morte do Tempo

Era um dia quente de verão, e o céu começava a evidenciar futura chuva. Cecília absorvia o vento úmido que vinha da janela, esvoaçando seus cabelos lisos, refrescando seu rosto, forçando-a a semicerrar os olhos. Já Euclides, seu marido, segurando com firmeza a bolsa da sua esposa, um pouco incomodado com a poltrona do ônibus, observava a paisagem, pensando sobre o filho, a nora e o neto que deixava para trás. Já se havia passado 25 anos desde que deixara Alagoas, com sua esposa grávida, para buscar as oportunidades que São Paulo oferecia, encontrando uma realidade ainda mais árdua do que a anterior. Aos seus 44 anos, Euclides aparentava ter 60, tinha olhos brutalmente escuros, traços indígenas combinados com lábios de negro, cabelos grisalhos, baixa estatura, corpo forte, por causa das décadas de trabalhos braçais.
Chegada a última parada do ônibus no Estado de São Paulo, em um grande restaurante à beira da estrada, Euclides desceu, levando consigo a bolsa de Cecília. Ao descer do veículo, sentiu-se bem por estar em pé. Rumou ao banheiro masculino para lavar o rosto, antes de tomar um pingado. Viu três sujeitos parados à porta, todos com aparência nordestina. Agarrou-se com mais força à bolsa. Entrou no banheiro, lavou o rosto vagarosamente, quando viu pelo espelho os três rapazes entrando. O que aparentava ser o mais jovem dos três se aproximou dele.
-Aê irmão, sabe que horas são?
Euclides pegou seu celular, informou o horário, e ensaiou colocar o celular de volta no bolso, mas teve sua mão interceptada.
-Me passa o celular e fique quietinho, que o esquema aqui é louco.
Qualquer cogitação sobre reagir acabou quando o assaltante mostrou uma faca, que devido ao pânico, aparentava ser três vezes maior do que realmente era. Euclides entregou o celular.
-O que você tem dentro dessa bolsa?
Suando frio, agarrou-se lunáticamente à bolsa, esquadrinhando possibilidades de fuga, mas não encontrando nenhuma.
-Me dá essa bolsa A-GO-RA!
Tomado pelo desespero, Euclides não moveu um músculo, mantendo o olhar fixo na bolsa que segurava com força exagerada.
-Não vai me dar por bem? Vai dar por mal então.
Vendo o malfeitor empunhando a faca, se preparando para atacar, Euclides foi invadido por desesperada fúria, segurando os dois braços do atacante, e mordendo sua bochecha direita com força descomunal. Em frações de segundo, o assaltante se encontrava com uma cavidade enorme no rosto. Euclides babava sangue, enquanto tentava com todas as suas forças tirar a faca do rapaz, enquanto os outros dois, perplexos, se esforçavam para quebrar a inércia. Menos de dez segundos depois do começo da peleja, o sujeito mais novo urrava pedidos de ajuda, e a tardia ajuda chegou: os dois comparsas esfaquearam um Euclides cego pela fúria e armado com a faca que retirara do rapaz. Houve tempo o bastante para penetrar o abdômem de dois dos sujeitos. Mas a força de Euclides foi rapidamente sucumbindo diante da hemorragia, os rapazes pegaram a bolsa que estava pendurada em seu pescoço e saíram às pressas, dois deles sangrando muito. O pobre pedreiro não acreditava no que havia acabado de acontecer. Dentro da bolsa, estava todo o dinheiro que ele tinha conseguido juntar em 25 anos de trabalho. Dinheiro o bastante para comprar uma casa confortável em Alagoas, para passar sua velhice com Cecília, vivendo da pequena aposentadoria que por direito conquistara. Não pensou um segundo sequer no filho ou no neto, só pensava no tempo que havia perdido. 25 anos de privações, suor e lágrimas. Euclides reuniu forças o bastante para se mover para debaixo de um chuveiro, ligá-lo, sentar-se sob a água corrente, e pensar no prejuízo da morte, não da sua própria morte, mas a morte de 25 anos da sua vida.
Percebendo a demora de Euclides para voltar ao ônibus, que já estava ligado, Cecília quis sair para procurá-lo. O motorista não permitiu.
-Já estou atrasado dez minutos. A senhora vai me desculpar, mas ele vai ter que pegar outro ônibus.
Sem créditos para ligar para o celular de seu marido, ela consentiu, aflita. Voltou ao seu lugar, e viu pela janela a paisagem começar a se movimentar novamente.
Euclides morreu no banheiro de um restaurante, deixando Cecília sem uma casa para morar, sem um companheiro, e sem uma explicação para seu desaparecimento.
Nuss
Enviado por Nuss em 19/10/2008
Código do texto: T1237162

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Sobre o autor
Nuss
Ribeirão Preto - São Paulo - Brasil, 31 anos
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Nuss