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O dia dos namorados e a vovó


– Hoje é o dia dos namorados, 12 de junho. Quantos dias dos namorados a senhora comemorou? – perguntou carinhosamente a adolescente a sua avó que lia um livro na varanda da casa.
Tirando os óculos do rosto a velhinha sorriu e respondeu ternamente:
– Ah querida, vários!
– Mas, quantos mais ou menos vó?
– Humm, deixa ver, dezenas ... centenas ... milhares de vezes!
– Ih vovó a senhora exagerou, não venha me dizer que a senhora tem mais de mil anos!?
– Não, nem cem, mas pretendo chegar lá!
– Pois é, e como a senhora diz que comemorou milhares de dias dos namorados?
E aquela senhora, olhando para o vazio, como quem imediatamente atravessa o túnel do tempo e ingressa no mundo fantástico do passado, das boas recordações, das melhores lembranças, na região especial da saudade, fez um sinal e colocou a menina em seu colo e começou a falar porque dizia que comemorara milhares de dias dos namorados.
– Bem, no início eu pensava de maneira diferente, não aceitava o que o meu primeiro marido, o seu avô, que você não conheceu, dizia e repetia.
E continuando em suas explicações a sua doce neta.
– Seu avô, quase vinte anos mais velho que eu, era avesso aos dias disso e daquilo, dizendo ele que aquelas datas foram inventadas pelos industriais e comerciantes para venderem seus produtos nos determinados dias comemorativos a alguma classe de pessoas. E as invenções prosseguiram com o dia do professor, do médico, do engenheiro e por aí afora.
E assim, cada dia do ano algúem é compelido a comprar presentes, programar e realizar viagens, almoços, jantares, telefonemas interurbanos, mensagens, cartas e cartões estes predominando até o surgimento da internet. Enfim, uma série de ações que significam dinheiro gasto pelos homenageantes e ganho por aqueles que estimulam o consumismo.
– Seu avô – prosseguiu a velhinha – dizia que todos os dias eram das mães, dias dos pais, dias das crianças e dias dos namorados, pois todo dia era dia de se homenagear as pessoas queridas.
- Sendo ele o último filho a casar – continuou a avó, – foi quem mais morou com a mãe. Num determinado dia das mães, faltara ao restaurante onde ocorreria o almoço que os demais irmãos e irmãs tinham programado. Uma de suas irmãs ao telefonar perguntou acintosamente se ele iria faltar ao almoço, tendo ele respondido que sim, mas que com certeza não faltaria ao jantar com a mãe em casa. Quando os irmãos retornaram a casa da mãe para deixá-la, havia um cartão ostensivamente aberto sobre a mesa, deixado para a mãe propositalmente para ser lido por todos eles: “Mamãe querida, todos os dias são santos. Todos os dias são das santas mães. Um beijo de seu filho de todos os dias”. Evidentemente que não é com presentes, cartões, festas surpresas, mas, com carinho, amor, ternura, respeito, tolerância e outros atributos que se demonstra o apreço que alguém pode sentir por outrem.
– Seu avô - continuou a avó - se foi mais cedo do que eu esperava e algum tempo depois eu voltei a me casar!
– Puxa vovó, a senhora se casou mais duas vezes não foi?
– Foi, foi sim, e os meus dois outros maridos foram totalmente diferentes de seu avô nesse quesito. E todo dia das mães, dos namorados, no meu aniversário, infalivelmente lá chegavam flores, mensagens e telefonemas, começando com o previsível, após algum tempo, café da manhã. E a coisa acabou se tornando mecânica, chegando a ser exaustiva e chata. E lá eu tinha que fingir surpresa para não ser desagradável, descortês. Tinha que sorrir e agradecer a “surpresa” e ao mesmo tempo com o peso da obrigação de retribuir na mesma moeda, para não parecer ingrata.
– E nessas ocasiões – prosseguia a avó, – eu lembrava seu avô. Parecia que ele estava ali rindo de mim, sacudindo a mão direita, com o dedo indicador batendo sobre o polegar unido ao médio, gesto a significar “bem feito, não querias assim? Agora agüenta!”. Era para eu sentir raiva, mas eu ria intimamente com saudade, e ninguém sabia por que, talvez sua mãe e seus tios que o conheciam bem, desconfiassem, mas nunca disseram nada.
– Seu avô dizia: “Meu bem, todos os dias são dias dos namorados. Todo dia é seu dia meu amor, mesmo que eu não te dê uma flor, um presente, uma mensagem, não te leve para almoçar fora, mas fora dessas datas eu faço isso. Eu não preciso provar que eu te amo querida, tu sabes disso. Um dia você vai entender”!
– E ele – continuou a avó, – repetidamente dizia que um dia, quando não mais estivesse eu iria entender e quem sabe lamentar não entender antes essa concepção dele quando ele queria.
– Parece que eu o ouço dizendo essas coisas. E hoje pela manhã, quando eu acordei e lembrei que meus dois últimos maridos me faziam a previsível homenagem do café na cama, com uma dúzia de rosas, o cartão eu voltei a sentir saudades daquele que apenas me dava um beijo e dizia que me amava, me fazia poesias e músicas a qualquer tempo, quando ninguém estava homenageando sua namorada, sua noiva ou sua mulher. Mas, eu não atinava ainda para aquilo, queria ser igual a todo mundo. Igual as minhas irmãs, primas, colegas, amigas, vizinhas, que davam publicidade a essas homenagens de época.
– “Meu bem, suas flores estão deitadas no quarto ao lado ou um já acordou”, se referindo aos nossos filhos!
– Às vezes ele mandava um dos meninos, aquele que já acordara, inclusive sua mãe, me entregar um bilhetinho, dizendo que me amava e que aquele era mais um dia dos namorados dos muitos que tínhamos tido durante os meses passados.
E a neta continuava ouvindo calada e atentamente a avó.
– E ele prosseguia me lembrando que em determinado dia, na semana tal, tínhamos comemorado num jantar, num passeio, mais um dia dos namorados daquele ano. Mas, eu não concordava. Dizia também que muitos dos homenageantes passavam os meses, os dias que antecediam o 12 de junho, esquecidos da mulher, brigando, saindo mais com os amigos, se ocupando mais fora de casa, até traindo a mulher, mas que naquele dia eles caprichavam na homenagem deixando suas bobas mulheres eufóricas. “Eu mesmo que não vou cair no senso comum. Eu sou diferente, único, mas amante de minha mulher”, vivia ele repetindo quando eu reclamava e buscava um paralelo nas homenagens dos outros. Só que eu fui entender isso quando ela já se fora. Mas, ele tinha certeza que isso iria acontecer.
– Assim querida – concluiu a velhinha, – é por isso que te digo que ao vivermos vários anos, eu e seu avô, quando ultrapassamos a casa de milhares de dias juntos, afirmo convicta de que já comemorei milhares de dias dos namorados, sem contar alguns com os demais.
A neta riu satisfeita, levantando o polegar da mão direita, num gesto de aprovação, e beijando o rosto da avó saiu dando um breve tchau, enquanto a velha voltou a sua leitura e as suas doces lembranças.

Roberto Pimentel
Enviado por Roberto Pimentel em 12/06/2009
Reeditado em 18/06/2009
Código do texto: T1645161
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Roberto Pimentel
Belém - Pará - Brasil, 68 anos
45 textos (7304 leituras)
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