O Último Conto

O papel está em branco, ela tenta, tenta, mas não consegue ter uma boa idéia. Então ela decide sair pra dar uma volta, o dia estava quase amanhecendo ela calçou seu tênis e colocou um moletom de cor sóbria. Imaginava que andar um pouco poderia despertar a sua criatividade que dormia há um bom tempo.

Seu prazo estava terminando, faltava apenas um conto para finalizar o livro e enviar pra editora, mas esse conto não vinha e ela estava começando a entrar em desespero. Ao descer as escadas de sua casa, tentou imaginar situações, lugares, pessoas, mas nem nomes pros personagens conseguiu.

Havia passado a noite em claro, olhando para seu caderno, ela detestava criar seus textos diretamente no computador, justamente por acreditava piamente, que um bom escritor é aquele que primeiro coloca suas idéias no papel. Mentira pura, ela tinha medo de roubarem suas idéias e o caderno, em sua mente criativa, serviria como prova.

Já na rua, ela começou a observar as pessoas passando, tentando imaginar como seria a rotina e a intimidade de cada uma. Tentou imaginar por quais problemas elas passavam e se elas eram felizes dentro de suas possibilidades. Foi quando começou a se questionar sobre sua própria felicidade.

Estava perto de completar 60 anos e nada de extraordinário tinha feito, trabalhou a vida inteira pra viver de uma aposentadoria medíocre. Ela não casou, mas se apaixonou muito, só que deixou os homens passarem em sua história como meras distrações. E por nenhum momento se arrependeu.

De magnífico em sua vida só tinha sua vasta coleção de aventuras sexuais. Ainda jovem pensou em publicá-las, depois desistiu. Foi quando recebeu o convite para publicar um livro de contos com tema livre. Depois de uma vida, seu sonho de se tornar escritora ia virar realidade.

Mas ela havia empacado no último conto, escolheu as melhores aventuras e só sobravam historinhas que não valiam a pena mencionar. Andou pelas ruas próximas a sua casa, buscando, desesperadamente, sua inspiração. O que ela não sabia é que o último conto estava o tempo todo ali, na frente dela.

Foi ao abrir a porta de sua casa, que num insight ela, em segundos, percebeu o que deveria escrever. Correu pro quarto, pegou a caneta, o caderno, folheando sua vida, acendeu um cigarro, deu a tragada do alívio e começou a escrever esse texto.

SHEL AHMAD
Enviado por SHEL AHMAD em 22/07/2009
Reeditado em 22/07/2009
Código do texto: T1712445
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