Sem prazo de validade

SEM PRAZO DE VALIDADE

Quando acordei... é..., acordei? Sei lá se acordei! Só sei que sentia aquele... corpo... nem sei como posso dizer. Bem, era um... ser humano... Era. Um ser humano colado, juntinho ao meu corpo. E eu fiquei ali. Deixei. Era numa madrugada de inverno. Eu estava sem cobertor e aquele corpo me aquecia. Eu até tentei me aproximar mais, me aquecer, mas sem resultado. O corpo já estava tão junto, tão grudado que seria impossível. Eu ali. Respirava devagar, para não esquecer aquele momento. Depois de algum tempo, comecei a observar o ambiente. Estava uma garoa fina, o frio aumentando... Comecei a ouvir vozes, passos apressados, o barulho dos carros. Os ônibus começavam a circular com maior freqüência. O dia estava amanhecendo.

Comecei a tossir e a tosse cada vez aumentava mais. A pessoa que me aquecia, tentou me aquecer mais ainda e eu tossindo... tossindo...

Com a pouca claridade, pude observar ao virar o rosto. Era um homem que estava ali, agarrado ao meu corpo, me aquecendo. Ele ainda dormia. A tosse aumentou, senti medo e, num impulso de tosse, tive coragem e tentei me soltar, mas foi inútil. Olhei em volta com dificuldade e vi outras pessoas amontoadas, em volta de nossos corpos, dividindo parte de um viaduto. Fiquei atormentado e me senti melhor quando uma senhora de trajes simples, mas muito simpática, ao se aproximar, jogou um pacote, acenou e saiu rapidamente. Não entendeu meus gestos de socorro. Eu não quis falar para não acordar os outros. As pessoas que passavam nos observavam. Uns com cara de gozação, outros de espanto, de horror... Fui tentando me soltar aos poucos e a outra pessoa se acordou. Viu o pacote e juntou. Olhei para aquela figura. Era um negro. Todo sujo, rasgado. A roupa tinha tantos furos que dava para ver quase corpo inteiro pelos buracos. Olhei em volta e os outros estavam quase nas mesmas condições. Nem todos eram negros, mas as vestes, as mãos sujas...

Ele abriu lentamente o pacote, retirou alguns pães, dividiu entre o grupo e todos comiam famintos. Ele se aproximou de mim e eu recuei como se ele fosse um animal feroz. Com um olhar triste, penetrante, falou com aquele bafo insuportável:

- Coma!

Assustado, fiz um gesto negativo com a cabeça. Gentilmente ele falou:

- Você está fraco, coma!

Olhei atentamente para ele e estirei a mão para pegar o pão Me deti ao perceber a minha suja, imunda. Hesitei, dei uma olhada para o corpo e, para meu espanto, eu estava nas mesmas condições: todo rasgado, todo sujo, de pés descalços. Abaixei a cabeça, pus entre as pernas e comecei a chorar baixinho. Senti uma mão tocando carinhosamente a minha cabeça. Levantei o rosto envergonhado. Todos tinham saído, só estava ele a me observar. Ele botou um pedaço de pão sobre meu corpo, me deu um beijo no rosto e saiu lentamente sem dizer nada. Depois de andar alguns passos, olhou para trás com um olhar triste e solitário. Baixei novamente a cabeça e comecei a chora desesperado.

Já estava dia claro e milhões de perguntas surgiram como um relâmpago: Quem sou? Por que estou aqui? Como me chamo?

Me levantei e tive vontade de sair correndo dali, mas minhas pernas doíam. Andava com dificuldade. Aquele cheiro horrível, a roupa, a sujeira, me incomodavam.

Fiquei surpreso e saí andando, cambaleando, sentindo nojo de minhas mãos, do meu corpo, de minha roupa... roupa?

As pessoas que por mim passavam, rodavam, mantendo distância. Ao chegar na esquina, havia um bar, sujo, de péssimas condições de higiene mas, num ímpeto, tive coragem de pedir um como d’água para matar a sede infernal que sentia, sem contar com a fome. O balconista, depois de um olhar autoritário, pegou um copo de plástico, usado, todo sujo, abriu a torneira, encheu, pôs sobre o balcão e disse:

- Dá o fora!

Olhei para os lados e vi que as pessoas me observavam como se eu fosse um leproso. Tive vontade de sair correndo. Tive vontade de morrer. Tomei a água envergonhado e, com meu corpo trêmulo, saí a passos lentos para não cair, me apoiando nas paredes.

Na rua, pude ver o negro passando devagarzinho com um pacote e alguns pedaços de papelão. Ele me olhou triste e falou:

- Não vai trabalhar hoje? Olha o que eu já consegui para nós. Vou vender!

Abaixei a cabeça sem resposta, atordoado, sem saber o que estava acontecendo e sem entender nada. Fiquei pensando: será que eu fuçava latões de lixo, catava e vendia jornal daquele jeito? Andei mais um pouco em sentido contrário e aquela idéia de remexer o lixo, catar jornais, de andar daquele jeito, de estar debaixo do viaduto... Estava tão cansado que não conseguia mais andar, mas eu não queria mais ficar ali. Queria fugir, mas minhas pernas não obedeciam. Na tentativa de andar mais rápido e fugir daquela situação, meu corpo foi atirado chão. Fiquei ali por algum tempo, sem reação e, aos poucos, consegui me sentar. Olhei em volta, minha vista começou a estremecer e eu desmaiei.

Foi um sonho!!!