A Muçulmana


Chegaram ao hotel de madrugada. Dormiram um pouco e desceram para o café da manhã já nos últimos minutos. Não foram os únicos a acordar tarde: havia vários outros hóspedes servindo-se nas fartas mesas expostas. Numa delas, viram uma bela mulher servindo-se e um cutucou o outro, animado:
- Esse carnaval promete!
Quando ela virou-se, porém, que decepção. Era muito feia de rosto. Parecia o Macaulay Culkin depois de adulto e das drogas. Tinhas lábios carnudos e lindos olhos azuis, mas essas características pareciam enfeá-la ainda mais, dentro do conjunto de nariz adunco, queixo saliente e bochechas muito proeminentes, excessivamente coradas.
- Nossa! Passaram a cara da mulher num rolo de pastel! - sussurrou Cabeção.
- Esta daí, só com uma bandeira do Brasil na cara!
Os outros complementaram, às gargalhadas:
- Tudo pela pátria!!
A moça, que havia se sentado próxima a eles, acabou percebendo-se o tema da conversa. Magoada, recolheu-se a uma mesa mais ao canto e de lá não mais se levantou, até que eles foram embora.
À tarde, esquecidos do episódio, saíram em um dos muitos blocos de Carnaval que pululavam pela cidade e à noite, ficaram no próprio hotel, que prometia oferecer um animadíssimo baile de máscaras. E a promessa foi cumprida. A decoração perfeita, música da melhor qualidade, o atendimento excelente, bebidas e comidas à vontade... Os oito amigos estavam adorando tudo aquilo. Principalmente porque no salão havia belas mulheres, todas muito simpáticas e sorridentes, sob o império de Momo ou o efeito do álcool. Logo cada um estava com alguém. Edivânio encantou-se com uma muçulmana. Ela usava uma burca, estilizada, toda em malha de lantejoulas. Do pescoço para cima, mal era possível ver-lhe os lindos olhos azuis e os lábios carnudos. Do pescoço para baixo, um corpo bastante atraente vestido apenas por um biquini purpurinado transparecia sob a malha mais esparsa. Fascinado pela criatividade e por aquele corpo voluptuoso que se balançava frenético ao som de um samba enredo, aproximou-se. Dançaram um pouco juntos e quando ela alegou cansaço, convidou-a para um volta pelo deck da praia. Ela aceitou. Ela era divertidíssima, muito espirituosa, sempre pronta para fazê-lo rir. Num determinado momento, ele aproximou-se e a beijou. Ela correspondeu ao seu avanço e ficaram assim, trocando carícias durante alguns instantes:
- Vamos para o meu quarto? - chamou ele, já bastante excitado.
Ela concordou. Com uma condição: não tiraria a parte superior da fantasia, queria preservar sua identidade. Na mesma hora ele lembrou-se da mulher horrorosa do café da manhã. Se nunca tivesse visto seu rosto, a idéia até pareceria atraente. Mas agora que já tinha tido esse dissabor, já imaginava-se brochando, aquela imagem horrenda como uma assombração a ocupar todo o seu pensamento. Deu um jeito de escafeder-se no salão, indo refugiar-se atrás de uma colunas. Ainda pode vê-la retornar e buscá-lo entre os foliões. Ele permaneceu escondido até aproximar-se dela o galego que viera com ele e os amigos na Van do aeroporto. Viu quando os dois dançaram um pouco juntos e depois saíram para o deck. Pensou em avisá-lo, mas preferiu deixar o novo amigo descobrir a roubada em que estava se metendo sozinho.
Aliviado, voltou a se divertir, mas não conseguiu mais nada. Nem naquele baile, nem nos outros três dias do carnaval. Lamentou-se: praga de baranga pega! Por mais que estivesse se divertindo e em todo lugar que fosse encontrassem as mais belas e, aparentemente, fáceis mulheres, não conseguiu ficar com ninguém durante todo o feriado. Por outro lado, não viram mais a feiosa e, na única vez que encontraram o galego, ele  passou por eles sorridente, murmurando:
- É a melhor transa da minha vida. Ela parece mulher feia...
E eles ao mesmo tempo que riam, pois sabiam que ela realmente era muito feia, invejavam o outro. Afinal, é fama corrida entre os homens que as mulheres feias costumam ser as melhores amantes, pela forma como se entregam e esforçam durante o sexo.
Depois do café da manhã na quarta-feira dirigiram-se ao saguão do hotel para aguardarem o traslado até o aeroporto. De repente viram sentada a um canto, ninguém menos que a Fabiana, a garota mais bonita do colégio onde eles haviam estudado, por quem Edivânio sempre fora apaixonado, mas que nunca havia tido coragem de se aproximar. Agora, mais velha, ela era uma sósia quase perfeita da modelo Karina Bacchi, por quem todos eles suspiravam. Depois de tantos foras, um a mais um a menos não ia fazer diferença e ele aproximou-se:
- Fabiana!?
Ela virou-se, sorriu para ele.
- Você é a Fabiana do Santa Clara?
- Sim. Sou eu. Você é o...
- Edivânio.
- Ah! Lembro. Puxa! Quanto tempo? Tudo bom?
- Tudo ótimo. E vc?
- Agora está... Estava meio triste, acabei de me separar...
- Chato!
- Não sou muito de carnaval... Mas precisava espairecer.
- Os bailes estavam ótimos. Pena que você não veio.
- Eu vim. De muçulmana...
E, dando uma piscadinha, levantou-se, caminhando ao encontro do galego, que a aguardava na direção de um carrinho alugado.



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Este texto faz parte do Exercício Criativo - Pena Que Você Não Veio
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