Retratos da vida de alguém

Foi até o quarto para pegar a carteira. Não estava cheia de dinheiro, aliás, nunca estava, mas sempre havia um pouco para eventuais necessidades (como comprar cigarro quando o maço acabava em um momento crucial de reflexão sobre os problemas da vida, ou quando acabava a bala de menta que ajudava a disfarçar o cheiro do cigarro depois de uma reflexão).

Trancou a porta e dirigiu-se ao elevador. Passou em frente à porta do apartamento vizinho, onde morava a “escandalosa educadora”. Não havia sequer um dia no qual aquela mulher não esbravejasse com seus três filhos ( se bem que três filhos é um bom motivo para deixar uma pessoa um tanto apavorada). Os gritos continuavam, mas foram ficando cada vez mais fracos ao passo em que ele rumava ao elevador. Esperou um bom tempo até o elevador chegar(aquele elevador, sempre com problemas). Quando finalmente chegou o bendito elevador, a porta não queria abrir ( se é que porta tem vontade própria). Com muito esforço Humberto consegui puxar a porta, deixando um espaço para que ele pudesse passar.

Dentro do elevador, avistou uma velha senhora (e quando eu digo velha é porque era velha mesmo). Não lembrava de tê-la visto pelo prédio. Ela era gordinha, e usava uma bengala, com a qual acenava para ele, pedindo para esperar por ela, que segurasse a porta (mal sabia ela que aquela porta não fecharia até a próxima manutenção). Logo ela entrou naquele cubículo, onde cabiam umas quatro pessoas no máximo, com a ajuda de Humberto, que puxara a porta um pouco mais para que a velha pudesse passar. “Quando a gente chega numa certa idade meu filho, tudo fica difícil sabe?”, disse ela sem olhá-lo, como que pensando alto para alguém, “difícil é trabalhar naquele maldito escritório, agüentando aquele pé no saco do Gilmar, o tempo todo no meu pé!”, pensou ele em dizer, mas mediu a raiva com a qual aquelas palavras sairiam de sua boca, e resolveu desistir. Depois de um tempo parados, o elevador ainda não dava sinal de que iria trabalhar. “ Ih, acho que está com defeito”, disse a velha, “brilhante conclusão”, pensou Humberto. “ Vou apertar o botão de novo, quem sabe agora vai”. Depois de uns solavancos o elevador iniciou sua descida pelo medonho poço que estava à mostra, pois a porta não fechou mesmo. Logo, a luz que vinha do corredor desapareceu, e a iluminação se dava por conta de uma lampadazinha amarela, enfraquecida pelo tempo. De repente a velha derrubou uma pequena bolsa, e resolveu abaixar-se para apanhá-la. “Eu pego pra senhora!”, disse ele num ímpeto cavalheiresco. “ Nada disso, ninguém pega na minha ‘borsa’!”. Mas seria melhor que ela tivesse deixado ele pegar. Quando a velha se abaixou, com o traseiro virado pra porta aberta, seu vestido enroscou em um pedaço de metal da estrutura do prédio, e ela só se deu conta disso quando sentiu seu vestido se erguer. Humberto sequer se moveu, pois a velha parecia não gostar muito que tocassem em suas coisas, o que faria se ele tocasse em seu vestido? Ficou assistindo a cena: o vestido sendo puxado para cima, e a velha esbaforida tentando resgatá-lo. Tudo em vão. E somente as roupas de baixo lhe sobraram no corpo.

Continua...