Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Corrida De Bicicleta

Manhã cedinho o porteiro faz soar rapidamente a sineta do apartamento: o jornal está sobre o capacho. Henry abre a porta, pega os cadernos. Olhar sobre o desfocado, lê na manchete da 1ª página da Folha: FHC favoreceu um dos grupos no leilão da Telebrás. Está nu no frio matinal. Daqui a pouco o banho vai ajudá-lo a despertar. Apressa-se em pegar o jornal antes que algum esperto vizinho lance mão. Não seria a primeira vez. Fecha a porta, os óculos sobre a mesa, posiciona as lentes e mete a mão no bolso. Está nu, nu com a mão no bolso. Vê se pode, o presidente sociólogo dando o exemplo para o resto do país.

Numa manchete menor, novo laudo da Unicamp sobre os assassinatos de PC Farias e da namorada Suzana Marcolino. No texto, a instituição rejeita o laudo anterior, da própria universidade, feito por Fortunato Bandalhares, neologismo para bandalheira com aética do levar vantagem. A comprovação da altura de Suzana: 1,57; não 1,67. Henry havia tirado a mão do bolso inexistente para sentar-se na poltrona.

Aconchega-se, ainda não desperto o suficiente, faz gesto de quem vai nele meter a mão outra vez. Gostaria de estar vestido, sair numa volta, instigado, a adrenalina dos problemas sociais inquieta. Abre o jornal na página dois. O primeiro editorial reafirma não ignorar a gravidade de levar a público o teor das gravações que ampliam a já muito ampla zona cinzenta do governo FHC. A crônica de Clóvis Rossi mostra que o cassino globalizado do capital está sempre a fazer rodar a gira do infortúnio para os países ditos emergentes.

O apetite dos megaespeculadores nunca está satisfeito. Na roleta russa da macroeconomia planetária, nenhum economista, com ou sem bola de cristal, arrisca dizer qual país vai ser a bola da vez. Pode, inclusive, vir a ser o próprio Estados Unidos. Desta vez Henry ameaça meter a mão no bolso, está nu. Sem bolso para apoiar a hesitação e a perplexidade. Sim, que merda de globalização, modelo câmbiocanibal, dolarização globalizada, o escambau. O sistema macroeconômico, jogatina de megamilionários, certamente não pensa em caras como ele, nus, com frio, o estômago roncando, apelando para o café da manhã, expectativa de desemprego, o mercado em baixa, a despertar de madrugada para mais um dia de trabalho, como se fosse mero operário do salário mínimo.

Aqui, travez, querendo apoiar-se nesse costume, nessa agitação motora maníaco-depressiva, de meter a mão no bolso, mesmo estando nu. Nu com a mão no bolso, onde já se viu? Logo abaixo, o cronista Carlos Eduardo Lins e Silva, a substituir Eliane Cantanhêde ou Fernando Rodrigues, não sabe ao certo, fala da ridícula falsidade do debate entre economistas monetaristas e desenvolvimentistas, depois da canalização do BC, tipo “Festa de Babete”, de bilhões de reais do dinheiro dos impostos pagos pelos eleitores, para socorrer os pobrezinhos dos banqueiros, no escândalo financeiro do dia: Marka-FonteCindam.

Enquanto isso, os investimentos na saúde, na educação, em habitação, segurança, transporte e emprego, mais que estagnaram, regrediram. O desemprego e a insegurança grassam como uma peste negra fimdeséculo, sem vacina à vista, nas megalópoles proletarizadas de “uma sociedade escandalosamente iníqua”, palavras do cronista. Não adianta mesmo, por mais que ele esqueça estar sem calça, sente-se, minuto a minuto, mais e mais nu, tentando em vão meter a mão no bolso inexistente.

Mais embaixo, Carlos Heitor Cony satiriza a farra dos ministros turistas que usam e abusam de aeronaves da FAB para curtirem mordomias na ilha de Caras do governo em que se transformou Fernando de Noronha. Ariano Suassuna, por sua vez, repete Machado de Assis ao afirmar: “O Brasil oficial é americanizante, caricato e burlesco”. Garante que os EUA estão longe de ser o “país digno” que o então ex-ministro Ciro Gomes insinuava que seria, ao dizer, em dezembro de 1994, quando de mudança para Harvard com a mulher e os filhos: “Preciso morar num país digno”.

Suassuna lembra que Paulo Nogueira Batista Jr. no livro Contrastes e Confrontos, em 1907, mostrava a denúncia de Euclides da Cunha ao escrever sobre o cosmopolitismo das elites brasileiras: a atitude imitativa e servil, caracterizava e caracteriza, uma espécie de regime colonial do espírito. Tal atitude servil e imitativa, evidencia, transforma os filhos do país em imigrantes  virtuais, a viver a esterilidade de um ambiente fictício numa civilização de empréstimo.

Henry sente-se ainda mais nu, como se fosse possível. Só agora atinou para o fato: até seu nome é made in USA, até a nudez importada. Mesmo a calça, se estivesse usando uma, teria uma etiqueta de outro país, oriental talvez, made in Hong-Kong do bairro da Liberdade. Sentiu-se mais que nunca, como nunca, nu. Mão no bolso. Droga de mania. Esse transtorno de querer enfiar a mão no bolso estando nu, pode ser devido a essa excitação mórbida, causa da exaltação eufórica do humor. Maldita febrilidade.

Talvez todos esses pensamentos tenham-se aglutinado de uma vez, a provocar certa revolta contra a boçalização da juventude, como se essa imbecilização deliberada de uma geração, pelos poderes constituídos, gozasse de todos os privilégios institucionais para se expandir, transformando a classe, dita média, numa vasta Senzala cultural de comercialização da pornografia, da ultraviolência via tv, da jogatina promovida pelo campeonato nacional das chuteiras e do consumo de entorpecentes: A disseminação da cultura da baixaria, numa nação-Senzala submissa à política, à natureza incondicional, bestial, da tirania do mercado.

Refletiu sobre a raridade de um gesto de afeto familiar. Cisma: se prossigo lendo este jornal, daqui a pouco, quando estiver vestido, a sensação de que estou pelado poderá ser substituída pela realidade de que sou invisível. Sem nem sequer um nome que indique minha pátria e nacionalidade. Talvez seja essa despersonalização ampla, geral e irrestrita, a melhor definição para globalização. No banheiro liga o chuveiro na água quente. Que merda, não consegue ajustar a torneira de modo a fazer coincidir a quantidade de água mínima que faça funcionar a contento essa coisa. Água fria ou escaldante, maldito inferno de Dante.

Desse jeito a careca vai sair cozida de debaixo do chuveiro. Não é fácil inaugurar esse novo prato: massa cinzenta ao vapor matinal. Sai do banho com a pele avermelhada, depois de uma sauna involuntária à finlandesa. Pô, resmunga entre incômodo e conformado, após dois ou três espirros, o último dos quais uma expiração violenta e estrepitosa: Preciso, attchin, vacinar, ATCHIN, contra pneumonia. Frente ao espelho, HARRETCHIN, remove a prótese, torce do tubo o último esguicho ralo da pasta (a hepatite faz com que use uma só pra ele). Começa a malhar para os lados da gengiva. Sente-se rejeitado: até o ônus do tubo de pasta tem de lembrar substituir.

A mulher, meio “juruna”, apesar do antedepressivo. Aqui e ali a escova pega um e outro dente solitário. No quarto veste a camisa social com a gravata adquirida nas lojas Pelicano, onde o pessoal da igreja faz compras de roupas e costuma fantasiar-se de pastor. Pronto para mais um dia de combate, pulveriza, apressado, talco Vinólia, gestos bruscos, no odor fétido das bocas abertas dos sapatos, transformadas em dormidas chaminés de chulé.

A barba e as unhas por fazer. Precisa espantar com mais fé, a modorra. Sai pra lá preguiça, Xô Satanás. Passa a margarina no pão adormecido, corta em fatias o outro. O café reaviva a fé, as idéias diante do prato de torradas recém assadas. Pensa, por brevíssimo momento, se o todo poderoso não está fazendo pouco diante de tanta injustiça social. Quem fez esse presidente mudar de atitude e idéias tão radicalmente? O poder, sim! O pessoal do poder econômico, quer mostrar que não adianta o cara ser PhD, sociólogo, ter escrito livros sobre a infame dominação cultural, ter ganho diplomas das velhas e corroídas instituições universitárias européias, à “honoris causa”.

O presidente mulatinho trabalhando para elas, sempre vassalo delas, das poucas famílias e instituições que concentram e controlam o usufruto das mordomias da corrupção política globalizada. Sistêmica. que na virada do século vai comemorar meio milênio neste país. FHC vai ter de prosseguir bancando a tiazinha dos banqueiros do FMI.

Henry não gosta de pensar nem de falar em política, mas as vezes ela está tão próxima como a manteiga no pão: torna-se inevitável não associá-la ao dia a dia. É a lei, “dura lex”. Para as elites econômicas é fácil gerenciar a vontade dos atos e fatos executivos desse sociólogo a serviço da política do integralismo que se presumia extinto das “elites” nacionais desde 1937. Com uma vaidade mais ampla que os descampados do Planalto Central, o “rei Mulatinho” desgovernou à vontade, sempre com aquele sorriso de tubarão alegre para a imprensa.

Uma grife provisória da política, mas que quer voltar a governar o país sob a chancela da opulência de recursos do “Opus-Dei”. A soberba presunção e frivolidade do presidente e “rei Mulatinho”, eram cordões fáceis para manejá-lo, espécie de títere da hora das manifestações de apreço da pomposidade anacrônica das velharias sinistras que o Simbolismo de Poe criticava em seus contos no segundo quartel do século XIX.

E lá estava ele recebendo seus diplomas de doutor “honoris-causa” das assombradas instituições universitárias e de seus fantasmas que, pessoalmente, entregavam-lhe os manuscritos honoríficos, com a afetação dos mestres de cerimônia que, orgulhosamente, ainda denominam canudos de papel de palimpsestos.

Henry pensa nas dificuldades homéricas que tem tido para manter um nível mínimo na educação dos filhos. A nova geração banha e se veste com a roupa de raios catódicos, eletromagnetismo do inconsciente tvvisivo. Que posso fazer para impedir que meus filhos se empapucem de trivialidades da cultura xuxalizada da globalização ? A família mergulha diariamente na tempestade de luxúria, drogas e ultraviolência dos programas e comerciais da telinha da sala de jantar e da Internet. Que fazer ? Quem é responsável por essa decomposição física e mental, pessoal e coletiva?

As emissoras de tv não são concessões do Estado ? Não têm de ter, obrigatória e constitucionalmente, um mínimo de qualidade em suas programações ? Na década de setenta sentia-se repugnante ao saber-se uma pessoa da sala de jantar. E hoje? Ainda não se conformou em ser uma pessoa da sala de jantar. Outra pessoa da sala de jantar. Mas as pessoas da sala de jantar. São as pessoas da sala de jantar.

É dose saber que os responsáveis pela ordem são os primeiros a criar as condições para a desordem permanente da sociedade, que os ignocratas do BC estão a doar bilhões de reais do dinheiro público, aos coitadinhos, sem eira nem beira, dos banqueiros. Amigos íntimos das doações de campanha presidencial. Henry aos poucos substitui as ondas hertzianas da realidade globalizada por um otimismo fabricado e repetido baixinho, autoconfessional, de si para consigo: “A vida vai... (como se fosse uma oração diária, mais que necessária): ... Melhorar”. Desce no elevador, parceiro dessas mesmas caras de “de manhã”, com bocas de “bom dia”.

Bom dia.
Bom dia.

No sinal vermelho, ainda tão cedo, sente-se ameaçado com a aproximação de uma criança que estende as mãos com oferta de drops de hortelã. “Compra, tio, dois, um real”. Dá graças ao bom Deus o sinal abrir. Acelera. Justifica a paranóia: o pivete poderia estar a esconder uma arma. Antes de começar o expediente vai mostrar um imóvel para um cliente da corretora. É o jeitinho brasileirinho de tentar manter a geladeira com comestíveis. Os filhos estão em fase de crescimento. As prestações do carro e as contas a pagar aumentaram. Tudo aumentou com a valorização do dólar, como se todos os preços estivessem atrelados à moeda do tio Sam.

Está melhor agora, com essa sensação de que as ruas da sociedade capitalista foram asfaltadas para ele. Quando divaga sente-se menos nu com a mão no bolso. Gostaria de trafegar horas sem parar, só olhando o movimento diverso da metrópole. Talvez estivesse vivendo um processo de regressão às sensações vivenciadas na década de 70, quando costumava circular sem rumo certo nas ruas, alamedas, praças e avenidas da metrópole. A mente traz à tona o “rock progressivo” das bandas influenciadas pelos seriados de ficção científica, com cenas de inspiração fantástica.

Children of the future, Steve Miller Band, From the Mars Hotel, Dark Star, Anthem Of The Sun, Future Games e Aoxomoxoa do Grateful Dead. Frank Zappa, Yes; The Doors (Unknown Soldier, Absolutely Live); Mothers of Invention, Pink Floyd, The Dark Side of the Moon. The Wall. Aqui está novamente, fugindo para aquelas inesquecíveis sensações juvenis, como se estivesse em plena viagem dos Stones a 2000 Light Years From Home.

Há 2000 Anos-Luz da Sala de Jantar, das pessoas da sala de jantar. Tão longe, tão dentro dela. Tão distante de si, ao mesmo tempo tão ele mesmo. Essa realidade insolente da sala de jantar, onde freqüentemente sente-se nu com a mão no bolso. A sensação de ser pai de família e ao mesmo tempo parte de uma coletividade juvenil uterina, utópica, longínqua. Acha-se um privilegiado por saber e poder se despir dessa camisa-de-força da realidade juvenil e adulta dos dias de hoje, onde tudo e todas as coisas não passam de extensões globalizadas do todo poderoso mercado.

Ele é vário e um ao mesmo tempo. Sem crise. A neurose do gesto de levar a mão ao bolso, mesmo estando nu, justifica-se por outros motivos. Não por gostar do som “new wave” do Voivod, Dream Theater, Shadow Gallery, Nektar, Tangerine Dream, Ozric Tentacles. Os sentidos parapsicológicos despertam esses sons. Eles não se conflitam com a ingenuidade gospel dos evangélicos e canções tipo Vencendo Vem Jesus.

O bicho pega é a partir desse medo subliminar da mulher perder o emprego, dele desempregado na cruz do mercado: é essa coisa de sentir-se um imbecil coletivo nas mãos das mutretas desses frankensteins da política. Da dominação sistêmica, globalizada, do planeta. Estar sendo roubado pelas instituições que deveriam incentivar e proteger a família, garantir o mercado de trabalho, fazê-lo sentir-se seguro quando nas ruas, acreditar que nas escolas e no lar, os filhos não estarão sendo chamados aos vícios, por influência da pior de todas as drogas: a tvvisão da sala de jantar, onipresente nas mentes.

Os bens materiais coletivos de cidadão eleitor: vê-los seqüestrados oficialmente em decorrência da ação desses respeitáveis assaltantes dos ativos financeiros da população, para suas contas numeradas nos paraísos fiscais. É a insegurança social aumentando com a marginalidade promovida por esses bundões do colarinho branco. Barões doutorados em levar vantagem, diplomados em Harvard e academias quejandas. A filosofia muito cara de grandes nomes de universidades com cultura de quitanda.

A USP, por exemplo, tão decantada como exemplo de universidade, está, em pesquisa atual, no 185° lugar entre as instituições de ensino superior das américas. A aldeia global transformada nos continentes das chuteiras. A galera dorme nas arquibancadas, por isso faz muita zuada para encobrir a cultura popular de quem é sistematicamente assaltada, pela diplomacia “pralamentar” dos discursos de palanque dos políticos interessados em tornar particular as verbas públicas.

Saber que em cada cinco pessoas, uma está desempregada em decorrência da incompetência social dessa política. Que torcedor não votou nos cinco dedos abertos em campanha pelo “rei Mulatinho”, que fazia a propaganda subliminar da ideologia de Margareth Thatcher e do presidente Reagan ? “Tudo pelo social”, a mão direita aberta em promessas de palanque. Ele agora é candidato, fazedor de campanha do representante político do “Opus Dei”. As oligarquias mais antigas reunidas para promover o atraso social de um país culturalmente na idade da pedra. Ao ser re-eleito revelou-se o presidente de uma quadrilha de bucaneiros PhDs. O “estadista de Ibiúna” não passava de um reles falso brilhante. Seu brilho de bomba atômica social penhorou a economia das pequenas e médias empresas, das estatais, da agricultura, da saúde, da educação, do transporte. E entregou de mão beijada, por preços módicos, toda a infra-estrutura industrial do país construída com o trabalho e os sacrifícios de sangue de várias gerações de brasileiros brasileiros.

Ele dizia ter acabado com a inflação, mas a inflação da insegurança e do medo está, mais do que nunca, disseminada em todos os lugares, não apenas nos semáforos. Não apenas em sua política de apagão das empresas nacionais entregues quase que gratuitamente aos barões do capital financeiro internacional representados pelos laranjas “made in Brazil”. Pensar em política dá nisso: A incômoda mania de levar a mão ao bolso, mesmo estando nu. Este é um país de nudistas: de adeptos da nudez com a mão no bolso.

O mercado de procura de imóveis em baixa. A poupança zerou mês passado. Que pode fazer? Não pode parar. Por isso o mundo é redondo: pra não acumular poeira nos cantos. As notícias do jornal continuam fazendo sangrar: FHC congelou o salário de funcionários público federal há cinco anos. O Alvorada era, nos tempos do “rei Mulatinho”, o Palácio do Bananal fisiológico de cargos, verbas, improbidade. Ao invés de um presidente líder, um prisioneiro vegetativo de uma biografia que, para lhe fazer justiça, deverá ser escrita em papel higiênico. Quem sabe terá por título “A Arte da Política”.

As solicitações de uma vida com influências tão diversas. Henry vai ter de conciliar-se consigo mesmo, com os paradoxos de ser também o outro: a juventude, a idade adulta, o idoso que será, se um dia for, apenas cronologicamente. O melhor das vivências, das emoções, do ontem, do hoje e do amanhã. “Este sou quem está nu com a mão no bolso”. A percepção privilegiada dos sentidos, nenhuma política poderá roubar. Sua verdade, as verdades que a viagem ao centro da “Terra do Id”, à consciência, sua história pessoal... Nenhum calhorda PhD tem poderes para envelhecer percepções e idéias.

Tudo indica que o salário vai continuar congelado até o próximo milênio. Ele não. O pulso, nu com a mão no bolso, ainda pulsa. E acredita na vida coletiva, acredita por acreditar, nos versos da mpb do Martinho da Vila, ou será Paulinho da Viola ? De que a vida vai melhorar, a vida vai melhorar. A vida vai melhorar, a vida vai melhorar... Apesar de gente como FHC, amanhã há de ser outro dia. Hoje, é apenas outro 7. De setembro.
Corrida De Bicicleta


Aqui estou entre as suaves sombras da vegetação. As folhas e flores das árvores como se também em movimento, apostam corrida lado a lado. Lá o bangalô da Luciana, mais adiante o sítio da Dalma. Há dois quilômetros estou a pedalar nesta alameda de Pinheiros, chão poroso de floresta, crepúsculo: pássaros e insetos. Mais mil metros, pego o atalho, volto para casa.

Tempo, tempo, agora sei melhor essa coisa da 4ª dimensão. Manifestas oscilações dos poros, suprema beatitude, quando não, as sensações triviais da normalidade ou as menos ocasionais da danação. Querer que o passar não passe e passa. A suavidade das asas nuas, flana fluente no módulo compasso. Acompanha esse coçar e trair com que se abrem e retraem joelhos quase trêmulos de graça. Querer parar este instante para nele abrigar-me de tudo o mais da matéria mais densa de que é feita a fugacidade.

Fazer parte dessa transparência lunar. A tranqüilidade da paisagem passando através da tênue imaterialidade dos pensamentos. A pomba-gira Terra girando comigo, filho da mãe privilegiado, a vestir roupas tecidas com fios de nuvens. Minha calça de poeira, não conheço mais ninguém com roupas desse tecido. Os cabelos longos, a barba por fazer. Metáforas de teias, submarino amarelo navega em direção à calcinha verde-rosa da bendita vadia ao lado. Um pedaço do céu desenha-se na pracinha à beira-mar, o muro baixinho caiado de branco e blue.

Nenhuma cor distoa de toda esta natureza lentamente branda, grave muitas vezes, ainda agora tão suave molto-presto. Pedalo, dédalo, essa profusão de sensações orgíacas, harmônicamente dissonantes. Desejo incluir-me para sempre nesta paisagem. O pé sobe e desce dos pedais, ritmo de sinfonia mozarteana, pleno andamento allegro vivace. Tempero os músculos das coxas em sol menor. Ao lado, o Adagio Albinoni aquece a batata das pernas dessa fada. Vontade de malhar o cravo nos poros porosos de seus pêlos, pele tecida de papel.

Destruição de lenços de seda pela tempestade de pó, como diria Kerouac. A sensação de estar livre das trapaças, manhas, mentiras e dissimulações dos que se sentem felizes. Apenas estou passageiro da dimensão poética da sensibilidade extrasensorial. Um profeta ambulante da raça, quem acreditaria nisso em sendo passageiro da normalidade? Andante cantabile, estrada polifônica. A selva eriça-se no impulso instintivo, supostamente amável.

Minha vadia segura a batuta adolescente em dó maior, KV-457. Não querida, não é nenhuma rodovia. Sim, isso mesmo, aquela sonata em dó menor, aberta em meio à estrada dessa carne de acne. O cravo a penetrar menos lento. A batuta destra, inefável, delícia com que sopras a flauta de Pan. O opus dessa sonoridade a pulsar através dos grandes lábios chuviscados, planta carnívora, oráculo, ora da refeição. Já agora abrem-se supostamente incontidos, minueto andante, multimídia de recursos, a ferramenta sensual roça persuasiva a infinita orquestra celular no lar de células dessa sardenta manhosa.

A vernácula emite expressão aglutinante, em ritmo mais lento agora. Ainda não é hora de transtornar-se em uivo. Temos todo tempo do mundo. Não vês? Assunta esse sair/entrar, fidelidade antropofágica, movimentos em seqüência polifônica. Esse roçar de pêlos neste selim intencional. Ah, componho, com ponho entrepentelhos. O pomo de Adão eriça-se nesse quadro arqueado do corpo, o músculo salta da boca, passeia serpenteando o rosto, penetra ouvidos, narinas, traz um pedaço abençoado de meleca a grudar-se na ponta da língua.

O raio da roda do tempo orquestra romanescas novilíneas: night, night, night. Bendita obsessão paradisíaca, a entrar e a sair, pudesse nunca cessar ir e vir, neste vinco, a fosfórea fosforescência do obelisco banhado de sol ao amanhecer. Bodhisattva, Brahmã, Enky, Hanuman, Trismegistos, Lao-zi, Quetzalcoati, Vidyãdhara. Filha d’África, divindade dos bagos, obra de Zeus e de Hera, neta de Cronos e Réia, metáfora de todas as vacas do mundo. Rabo de Ra, Pavão Perez abrindo-se ânima, andrógenos testosterona, ancoragem fera. Eva troglô, avoenga pornô, amante existencial, musa ficcional, delícia de tato sentir os ossos de sua bunda. Desejo atual, carência de paraíso, bendita cloaca existencial do mundo globalizado pelo CO2: sem sentimentos de culpa, satisfação, prazer, suavidade, euforia, otimismo.

Inconsciente coletivo da libido. Vida anima condicionada, “irmã bendita, santa mãe, espírito da fonte, do jardim. Não nos deixeis zombar de nós próprios com falsidade. Ensinai-nos a cuidar e a não cuidar. Ensinai-nos ficar sentados, quietos, mesmo em meio a estas rochas. Seja a nossa paz Sua vontade. Mãe, irmã, espírito do rio, espírito do mar, não deixeis que eu seja apartado. Fazei com que meu grito chegue a vós” através dos pêlos, cromossomos e gônadas. Vamp neo-pós-moderna de todas as experiências pornôs, fêmea neo-pósantropóide, modelo anorexa.

Animismo, realismo artificial, espelho andrófago primata. Personagem informatizada de tempos demais anteriores ao milênio. Coração da Gira antecipando o pânico do século XXI. Ahh, o amor. Amar, eterno tesão de testículos empedernidos. Infinitos, enquanto duros de moer, a buscar e rebuscar madonas cavernas telúricas. Ah, o Amor:

Cemitério populoso da podridão
A carícia dos heróis vendados prisioneiros dos postes
Vítimas dos assassinatos aceitas nesta vida
Esqueletos cambiando dedos e juntas
A carne trêmula dos elefantes da gentileza
Sendo despedaçada pelos abutres.

Medo dos ratos espalhando bactérias
A fria esperança do gólgota pela esperança do ouro
As delicada imagens de cola dos cavalos marinhos

Ah, o amor:
Seres assustadores, encantadores, ocultando o sexo
Os pedaços da essência de Buda congelados
E fatiados mecroscopicamente nas morgues do norte
Destruição de lenços de seda pela tempestade de pó
Os pomos do pênis a ponto de semear
Mais gargantas cortadas que grãos de areia.

Beijar minha gata na barriga
A suavidade de nossa compensação.

Sentiu, ontem, ao transar com ela, essa desatinação harmônica de Sinfonia dodecafônica. Talvez a libido esteja em melhor momento. O pênis canta a canção da Terra. A batuta rege incansável, a filarmônica de espermas. Não quer antecipar o que vai rolar hoje na cama. Por vontade própria, um molto maestoso, semelhante às noites homéricas dessas últimas cinco semanas, quando o vivace orgasmo pianíssimo fez implodir o coração do casal a pulsar uníssono no clímax da paixão.

II

Salviano diminui o ritmo nos pedais na bicicleta ergométrica recém comprada. Não sabe ao certo a coisa que motivou toda esta incrível seqüência de insights. Terá sido o arranca rabo com Angélica? Ela não se conformava com o local escolhido por ele, próximo à janela da sala. Tão desejada ergométrica, agora conflito.

O lugar mais apropriado para esta bicicleta é o quarto. A opinião granítica dela não mudou.

Ele gosta de pedalar enquanto olha as luzes da cidade do décimo andar. A paisagem cinza do Jardim América, a atmosfera poluída, o ar de partículas luminárias de néon à “Blade Runner”, provocam nele uma certa melancolia acompanhada de provisória euforia muscular. Como se estivesse usando anabolizantes para estimular continuamente a força dos músculos.

Até lembrou surpreendentemente, do nome de várias divindades do conhecimento e da escrita. Citou versos de Kerouac. Mas ele, um filho da mãe orgulhoso, não dava o braço a torcer. A bicicleta, ficaria aqui, próxima ao janelão da sala. Agora, depois desse desdobramento perceptivo, que não sabe ao certo como aconteceu, todas essas sensações em seqüência inusitada, deseja apenas que possa acontecer de novo.

Talvez tenha sido efeito da dose dupla, após a sauna, deste uísque comprado por importado, mas bem que poderia ser made in Paraguai. Quer acreditar: todas as pessoas têm momentos em que a onda, a deitar e rolar pela praia, é o oceano inteiro:: delícias e abismos.

—Angélica, querida, sussurra, enquanto desliza a toalha pelos braços a enxugar a salinidade da transpiração. Aumenta a tonalidade da voz: “Se for para o bem de todos e felicidade geral do tesão, a ergométrica fica aonde você bem quiser”.

—No quarto, querido, no quarto.

—Isso mesmo, garota, isto mesmo. E pensou de si para consigo: é emocionante saber como as mulheres se esforçam na criação de conflitos. Talvez seja um atavismo. Preciso aprender a lidar melhor com isso.

—Que você disse?

O coração bateu selvagem: tcham tcham tcham tcham tcham! As pernas haviam, provisoriamente, saído da inexigibilidade mecânica dos movimentos, e começaram, não mais que de repente, a pulsar na dimensão do ritmo harmonioso, infantil e supostamente selvagem do rebolado incontido do clone de Ellis Regina, da Daniela Mercury, da Rita Lee Mutante.

—Te amo amor, replicou interativamente, enquanto ideoplasmizava a imagem tvvisiva das garotas de programa dançando can-can nos palcos dos programas de tvvisão.
Decio Goodnews
Enviado por Decio Goodnews em 01/04/2010
Código do texto: T2170709
Classificação de conteúdo: seguro

Comentários

Sobre o autor
Decio Goodnews
São Paulo - São Paulo - Brasil
2462 textos (520970 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 01/08/21 23:21)

Site do Escritor