SURPRESA SEM SABOR

Há dias vinha assim caminhando todo fim de tarde, encantada com cada crepúsculo em que um temporal ameaçava por sobre o horizonte e, de repente nem vento nem poeira, apenas se via o céu limpo, a noite estrelada, a lua encoberta por tênue bruma.

Então se sentava num banco de praça qualquer assistindo mães passeando com seus filhinhos, brincando nos brinquedinhos do parque, lia mais uma vez o recado da placa gigantesca abrindo a praça “GOVERNO DO ESTADO: TRABALHANDO PARA VOCÊ”. Ria encolhendo o rosto contra o ombro, embora não rira disso, da placa. Rira de si mesma e continuou rindo sem se importar que a achassem louca.

“Ora que vão para o diabo”, mas aquilo dissera pela mente, apenas esboçara um gesto leve de enfado com uma das mãos voltando ao gesto tolhido de riso, escondendo o rosto amarfanhado entre os ombros.

Ter-na-iam como uma louca, uma mendiga? Não. Estava tão limpinha, e passou as mãos pelos cabelos sentindo-os sedosos. Cruzou as pernas, procurou ficar mais a vontade. A praça se enchia, aqui e ali rapazes conversavam animados, os pés nos bancos, coçando os dedos encardidos; uma e outra mãe descuidava do filho conversando, rindo, mãos na cintura, bandana entre os cabelos; velhos passavam resmungando e tossindo, enquanto uma moto escorava pelo meio-fio sob a lâmpada azulada do poste. Uma das mães interrompia a conversa e dirigia-se até o homem na moto. Que não é feio – pensou ela, levantando um pouco a barra do vestido, notando suas pernas muito brancas cheias de veiazinhas azuis.

Como estava só. E só agora só é que sabia como aquela praça funcionava, talvez assim diariamente. Agora viria ali sempre. Fecharia a porta do seu cubículo nos fundos da casa dos avós muquiranas e arrastando os pés em chinelos velhos, sentaria ali no mesmo banco, e para seu quase nenhum espanto notava que todo dia se repetiam certas “cenas” como a da mãe que conversava com outra e largava os filhos e dirigia-se até o rapaz que parava com a moto junto à calçada. E ela voltava mais aprumada, rebolando na lycra bem apertada, chamando as crianças – que brincavam no parquinho – de uma forma quase histérica, mas se virando para sua interlocutora com um riso pleno.

E os rapazes lá estavam sentados no banco defronte, tumultuados um entre o outro, coçando-se entre os dedos dos pés encardidos.

Acontecia de um dia só dois deles estar ali, ou de súbito aparecer uma menina meio desavontade que chupava um picolé sem vontade também.

Tudo era tão insípido como a risada que davam em comum ao mesmo tempo.

Um dia as duas mães não vieram, veio o rapaz da moto, parou ao meio fio, ficou ali estacionado, olhando para o local onde “Elas” sempre ficavam. Talvez esperasse. Em seu banco, ela, sujeita, olhando para seus pés tortos em chinelos maltratados e velhos, mas desviando os olhos oblíquos para o lado do rapaz na moto ali parado, com certeza confiando na chegada daquela de bermuda de lycra.

Não resistia notando que o rapaz era moreno, tinha braços musculosos numa camisa regata, e mesmo podia ostentar uma bela tatuagem no outro braço que ela não conseguia ver. Ergueu-se, espreguiçando, magrela, desengonçada num vestido amarfanhado, e arrastando os chinelos podres foi se aproximando nada assustada.

Os rapazes lá estavam amontoados sobre o mesmo banco, com certeza coçando os dedos dos pés encardidos. Pareciam cochichar, mas ela não prestou atenção nas vozes deles, só intentava o cara na moto. Pretextaria um cigarro. Se ele tinha um cigarro...

Ao chegar bem próximo, alisou o braço do rapaz com uma familiaridade que o fez rir, e alisando a mecha dos longos cabelos com a outra mão foi dizendo inclinando a cabeça para o lado esquerdo do ombro:

_ Posso dar uma volta nesta motoooca?

O cara riu um riso cheio de cuspe, um riso tremulo.

_ Ora some da minha frente espantalho. Coisa ridícula, não se enxerga, vai assombrar em outro cemitério – e empertigando-se na moto arrancou a toda jogando fumaça do cano de descarga ao rosto dela que ficou nem tanto aparvalhada, mas um pouco aérea, e mexendo para lá e para cá o pescoço, evitou olhar para trás porque ouvia a gargalhada grossa dos rapazes de pés encardidos, e sentiu enrubescer, quente, mas quente de vergonha que no dia que aceitou um pontapé do marido que disse:

“Some da minha vista e volta para casa dos seus avós, retardada”, e talvez mais ainda ruborizada quando ouviu a avó avisar com voz catarrada:

“Aqui nesta casa se trabalha para comer”.

E disse com voz tremula e gaguejante, mas disse para si mesma, com medo até de voltar o caminho para casa:

_ Eu... eu só queria pedir um cigarro...mas...mas lembrei que não fumo – como se desculpasse com alguém.

Rodney Aragão.