O preconceito.

Havia saído do serviço por contratada, isto é, trabalhava para engenharias que prestavam serviços dentro de órgãos públicos, um desses órgãos onde prestei serviço foi a então SAEC, era o antigo nome da conhecida SABESP, decidi arranjar serviço em uma outra empresa, já era boa datilógrafa em máquinas elétricas e, achei que seria melhor mudar, além de aprender mais, teria mais chances de progresso, assim, fui trabalhar em uma empresa alemã na Av Europa, nos jardins, bairro nobre de São Paulo, era datilógrafa especializada do departamento de vendas, tinha uma outra colega que exercia a mesma função, seu nome, Reni, e nossa chefe era mulher também, comecei com todo o gás, estava gostando do trabalho e tudo era muito tranquilo e organizado, e todos eram muito bons e urbanos, a chefe, D. Rose, era ainda jovem e muito entusiasta, cada vez que o departamento de vendas batia a meta, convidavam-nos para participar das comemorações que geralmente era um almoço grátis num restaurante badalado dos jardins, estava gostando bastante, e lá tinha um alemão o Sr To, que sempre vinha perguntar como estava me sentindo trabalhando na empresa, achava o máximo, eles se preocuparem em quanto estava gostando, parecia tudo perfeito, nesta época meu pai era zelador na Alameda Casabranca, assim, tanto serviço quanto habitat ficavam bem perto um do outro, tudo estava perfeito até demais, porém, as coisas mudariam bruscamente, por causa de um acontecido na empresa o qual achei o cúmulo do absurdo e decidi não mais vender minha mão de obra para os alemães, fiquei tão indignada que até pensei: "Que desaforo esses gringos duma figa, estar no meu país e agir dessa forma, quem pensam que eles são???..." . Acontece, que precisavam de um universitário para o departamento e um dos candidatos era negro, ele foi o melhor em tudo, passou nos testes com louvor segundo o Sr To, mas, não iriam empregá-lo só pelo fato dele ser negro, achei o cúmulo, ao ouvir esses alemãos cochicharem e dizer que apesar dele ter sido o melhor, ficariam com o outro candidato que não foi nem de longe a metade do que ele foi, mas, por norma da empresa, eles não iriam admitir um negro no quadro de funcionários, gente, eu fiquei por conta, virei para a Reni e disse: - Amanhã não virei trabalhar, vou comprar um jornal e vou prestar teste em outra empresa, se eu passar, só volto aqui pra pedir minha conta, não trabalho mais com esses gringos disgramados, que eles fiquem na mão! Ao que, virando para ela disse: - Como é, você vem ou não comigo?! Ela balançou a cabeça e disse que não podia largar o serviço sem mais e sem menos, retruquei: - Ô Reni, tanto eu quanto você somos morenas jambo, com os pés quase dentro da senzala, o mínimo que a gente pode fazer é dar uma banana pra esses gringos desaforados?! Eles estão em nosso país, não podem fazer uma injustiça dessas? Você viu o candidato, caramba, que pessoa fina, decentemente trajado, segundo eles o melhor candidato, parecia um doutor e esses gringos dizerem que não contratariam ele só por causa da cor da pele?! Que horror, está bem, mas você já sabe eu não venho amanhã e quero ser um mico de circo se continuar a trabalhar neste lugar?! Minha saída é um protesto!...

Assim, na manhã seguinte coloquei o jornal debaixo do braço e lá fui eu, arrumar outro serviço, no final do dia estava já praticamente colocada, voltei a trabalhar com as engenharias por medição e desta vez só faltava saber aonde iria trabalhar, mas, não via a hora de chegar na firma e pedir as contas, e foi o que fiz!... Ainda bem que naquela época não havia o tal desemprego que assola os dias de hoje, mas quer saber, eu faria o mesmo, ainda que ficasse parada, o que não dá pra aguentar é injustiça, não é?!... Acho que sou uma rebelde mesmo!... Assim, só voltei lá pra pedir as contas e comecei trabalhar adivinhem onde? Voltei novamente para a SAEC, só que desta vez prestei exame para um cargo acima do que ocupava antes e voltei promovida, era a que ganhava mais por lá, agora eu era escriturária especializada, que chique não? A moça do relógio, voltou por cima, isto é, cai, levantei, sacudi a poeira e dei a volta por cima?! Caramba, é nas voltas que a vida dá que a gente mais festeja, parace um sonho, mas, a vida reserva surpresas e nada melhor que um dia após o outro, ah como é bom qualquer recomeçar, como é bom retornar e retornar em grande estilo, todos queriam saber como eu consegui e que tipo de teste me submeti para alcançar um cargo melhor, e assim fiquei famosa por uns tempos, mas, as responsabilidades do serviço também aumentaram, passei a ter outras ocupações mais complicadas e que necessitavam mais atenção e cuidado, porém, não tive maiores problemas. E assim a vida seguia, estávamos para mudar da Av Cásper Líbero para o centro da cidade, e, não me arrependi de ter deixado os gringos na mão, além do que, sai ganhando, pois meu salário estava ainda melhor que o que eu ganhava lá. Outra coisa que desejo, tenha acontecido o mesmo para o rapaz que foi preterido pela empresa alemã, tomara tenha ele achado um lugar melhor ainda e com um salário mais significativo ainda do que eles pudessem estar oferecendo lá, afinal quando alguém nos fecha uma porta Deus abre uma porteira e sendo ele tão qualificado quanto eles diziam, então tenho a plena certeza de que deve ter se saído muito bem vida afora.