O MUNDO DE CADA UM

O MUNDO DE CADA UM

Aquela janela vivia fechada. Enxergava-a atrás do muro que separava a sua casa daquela. E sempre saía um carro dali, pelo portão grande da garagem.

Se passeasse mais pelo quintal, um pouco batido de terra ainda, um pretenso jardim para florescer – pelas mãos dadivosas da ainda jovem mamãe – veria, subindo um montinho, do outro lado, pelo qual nunca olhava, a ponta de um morro. Um morro agudo e triste que tinha um barraco mais ou menos cor de chumbo – devia ser de latão ou zinco – e que no teto deste barraco sustentava-se um estandarte que parecia ser, e era mesmo um pano velho e encardido.

Mas aquela janela vivia fechada, e o carro que saia pelo portão grande da garagem tinha insul film o que protegia o motorista e o possível carona. E nunca eram vistos. Não eram de ficar a calçada. O portão hermeticamente fechado; o muro alto, e só aquela janela que se podia ver, mas sempre fechada.

Na retaguarda o cume do morro com o barraco de zinco ou de latão, sempre com o estandarte encardido a hastear sobre seu teto como um símbolo de um mundo encardido e esquecido. Seria aquilo que dizia? Cotovelos em algumas janelas de edifícios mais austeros e altos podiam perguntar-se isto, vendo mesmo carreirinhas descendo-o em trilhas como formiguinhas de cabeças baixas a carregar folhas.

Aquela janela fechada! Mesmo domingo, sábado, sol, pancadão de musica no feriado, e aquela janela fechada, o carro de vidros escuros saindo pelo portão da garagem. Portão grande.

Um dia, destes cotovelos surgiram mãos indo direto a bocas que eram como cavernas se abrindo, mas se abriam de pavor. Do cume do morro despencava-se uma das formiguinhas, tão pequeninas, que as outras em desesperos sem nada poder fazer, levantaram os bracinhos as cabeças e iam e voltavam, cruzando-se uma com a outra. Mas aquela formiguinha tão minúscula já devia ter sumido no vácuo imenso debaixo do agudo e triste morro. As cavernas-bocas permaneceram abertas , tentando buscar informações naquela dança louca das formiguinhas. Os cotovelos já se esqueciam do batente das janelas, e as janelas eram como carapaças onde tatus ou tartarugas desprendiam sua cabeça com coragem para olhar o mundo.

Aquela janela fechada. Um som bem alto. Nem assim manifestava-se. Eram como se enterrados ali. Mas nem para ir aos fundos do seu quintal, que apesar – do que ele desconhecia – o estandarte encardido continuava hasteado, sempre não muito soberbo, sobre o barraco de latão ou zinco, nem vergando a vento forte que soprou afastando a dança desesperada das formiguinhas, devolvendo os tatus ou tartarugas de volta as suas carapaças.

E aquela janela fechada.

Rodney Aragão ( 17 de março 2011)