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Pequenos, mas grandes amigos.

Zeca, Pedro e Luizinho, garotos bronzeados, freqüentadores das areias escaldantes da orla. O primeiro, com bermuda em três cores desbotadas; o segundo, de calção muito usado, por isso leva um elástico preso na cintura e o terceiro, porta uma tanga azul, bem atual.

“Zeca”- Parece calcinha- ironizando o formato da vestimenta.
“Luizinho”- “Ocê” fala assim porque tem inveja da minha tanga.

Garotos de favela, folgam de dia e trabalham ao entardecer. Adolescentes de visual exagerado, de brincos nas orelhas e olhar distante, peritos na cidade grande; agora, estão na praia e passeiam entre os banhistas.
“Luizinho” - Que “dona boa!” (A uma garota que passa)
“Pedro” - Leva ela pra casa!
“Zeca” – Lá na sua casa não tem espaço...
“Pedro” – Compre outra maior, de dois andares...
“Zeca” – É uma boa idéia. A sua tá quase caindo; o zinco está solto, as tábuas da parede tão podres.
“Luizinho” – Vire essa boca pra lá!...falando mal do meu barraco; o seu também é uma porcaria.
“Zeca” – Eu sei; eu sei disso. Um dia eu vou ter uma casa de tijolo, “teia” vermelha, cômodos espaçosos, muros e portão de ferro.
“Luizinho” - ...é de medo dos ladrões? Deixa de ser sonhador, Zeca. Naquele morro em que você mora, tem que ser casa de laje; “teia” naquelas alturas o vento tira todas e, se você por banheiro dentro dela, vê se limpa e não deixa aquela catinga...
“Zeca” – Quanto a você, compre um armário em vez de usar aquele jirau para pôr louças.
“Luizinho” – Nem isso você tem! As “traias” que sua mãe usa ainda são os presentes que ela ganhou em seu casamento.

Alheio às discussões dos amigos, Pedro, o mais sensível, traça na areia qual seria sua morada. Atento a cada detalhe de sua obra, ignorava os que passavam ou o que diziam.

“Zeca” – Aquele bairro em que a gente mora parece uma “zona”.

O jovem arquiteto pontuava cada detalhe transmitindo-lhe toda a sua emoção e esperança.

“Luizinho” – E quando você mudar, troque aquele fogão velho em que sua mãe cozinha!

A casa desenhada era rústica, mas, aos olhos de Pedro, era linda. Próxima ao mar, cercada de muros altos e escondidos nas trepadeiras. Havia duas entradas, ambas discretas e providas de portão automático. No térreo, uma garagem ampla abriga três carros novos sendo um deles, uma pick-up 4/4 prateada. Imensos arvoredos cercam toda a construção, ficando visível apenas um dos lados e nota-se que a parte interna também é bem cuidada. Os jardins regularmente podados, obras da Antiga Grécia ladeiam as passagens pelo interior do terreno. A garagem se liga à residência, sendo divididas por grossas portas de vidro. As paredes são de tijolos à vista e envernizados com fachadas de destaques em todas as janelas. Já no segundo andar, podem-se ver áreas e corredores ladeando vários cômodos; no telhado, apenas em destaque a caixa d’água no centro, num dos lados, uma antena solar e no outro, uma parabólica. Nos fundos, há uma piscina em forma de lago, devidamente calçada de lajotas e sombreadas por árvores de médio porte. Em volta da piscina, mesas e cadeiras com logotipo de refrigerantes e sobre um dos assentos, um garoto maltrapilho de tanga com elástico na cintura, sozinho e o olhando no vazio enquanto os transeuntes reparam com desdém o trio reunido.

“Zeca” Quer saber de uma coisa?...Cale essa boca, já falou demais!
“Luizinho” - Eu não suporto esse seu jeito arrogante. Seu “boboca” convencido!
“Pedro” – Ainda “tão” brigando? Venham pra minha casa!
“Zeca” – Sua casa! Aquele lixo onde você se esconde?...mais parece um ninho de rato!

Instantaneamente, mais dois personagens aparecem próximo ao trampolim e a escada da saída da piscina, com fisionomia mal-encarada e agressiva. São seus melhores amigos.

“Pedro” – Não! Eu “tou” falando dessa aqui! (Mostra o desenho e todos olham)
“Luizinho” – Então é aqui que você vai morar?...Casa com pátio, piscina, “tá” faltando a quadra de esporte.
“Pedro” – Ela “tá” escondida atrás da casa.
“Luizinho” então você quer morar numa prisão? Olha as antenas da delegacia; (Solar e parabólica) e essa aqui (caixa d’água) é a guarita do vigia e os muros são para ninguém sair.
“Zeca” – Você já conhece o seu futuro.
“Pedro” – O que é isso gente? É apenas um sonho.
“Luizinho” - Morar numa prisão? E por falar nisso, olha quem vem vindo lá!
“Zeca” – A polícia! Vamos cair fora daqui!

E os três garotos se dispersam na multidão. Cada um com suas esperanças, seus temores e angústias.
Da mansão de Pedro, ninguém se lembrou e ela, passo a passo, foi sendo pisoteada pelos banhistas. Os “batedores de carteiras” se refugiaram em seus barracos encarando a fria realidade. Na praia, as ondas levaram o que restava da casa grande e arborizada, com jardins e entradas e uma piscina com três garotos suspeitos ao seu redor. Onde existia um sonho, só resta agora a areia branca.

Ciro do Valle
Enviado por Ciro do Valle em 02/12/2006
Código do texto: T307729
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Ciro do Valle
Salesópolis - São Paulo - Brasil
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