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Meninos de rua: o sorriso

Como caminham rápidos esses meninos. Estão espalhados pela cidade. Não parecem muito preocupados com a multidão em sua volta. Suas passadas são mil vezes mais rápidas pelas ruas do que as nossas em descompasso eterno. Há um choque no olhar. Embriagados pelo suor do dia, misturam-se rapidamente entre carros, coisas e multidão. Inesperadamente cruzam-se olhares, repentinos olhares. Milhares, milhões, insistem em não enxergá-los. Como são lindos seus olhares calmos, como preocupam seus olhares tristes. A verdadeira face de nossas crianças está escondida no rosto do outro. Daqueles que fitam seu olhar.

A atenção necessária é alimento, é vida. Não custa muito olhá-los, fazê-los felizes em meio à imensidão de miséria que demarcam seus territórios. De suas cabeças e capacidades, não sabemos muito. Culpa de nossa falta de curiosidade e inquietação. Sua ânsia em nos comunicar é óbvia. Pudera, nossa posição é cômoda, não nos incomoda o seu passar mal, suas necessidades mais fraternais.

Corro o olhar no horizonte de pequeninos no chão, no concreto fervendo da cidade e localizo-os em minha direção. A descoberta é fantástica, se não fosse o meu leigo olhar por sobre meus ombros. Eles têm coração, eles têm alma, não vagam no vazio. Seu caminhar tem sentido e direção. Buscam algo, almejam algo, querem algo, algo para comer, saciar sua fome companheira. Fome que não conhecemos ou conhecemos pouco demais para fazer paralelos entre os seus e os nossos vazios. Sim o olhar. Falava do olhar. Um olhar úmido, vermelho, mas um olhar. Carregam vidas aqueles olhares infantis, carregam dores aqueles olhares juvenis e infantis num só tempo.

Mas nem tudo é sofrível. Como crianças que são, reservam momentos de descontração, de cuidar bem um do outro, de fazer cafuné e catar piolho. Fazer cócegas nos pés cinzentos e mostrar um sorriso simples e gostoso para seus parceiros, para o bando todo, numa comunhão única, numa sociedade pobre de dinheiro, mas com valores que só os mais atentos poderiam registrar.  Como são belos os momentos de rir. O sorriso deixa limpinhas as rugas da vida. Suas gargalhadas transcendem nossa compreensão. São centenas de dentes, cariados ou não, que juntos formam uma grande boca a gargalhar de nós, seres incompreensíveis. Como são lindos os sorrisos dos nossos meninos. Olhem.


Zé Beto
Enviado por Zé Beto em 30/01/2007
Código do texto: T363494
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Zé Beto
Jaboatão dos Guararapes - Pernambuco - Brasil, 49 anos
56 textos (3398 leituras)
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Zé Beto