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Santo e Diana

 No tempo da inquisição, frei Henrique, apelidado de Santo, era o cavaleiro da fé que por devoção desejava ser o tapete da cristandade. No alvorecer de velhos tempos, seu coração e sua igreja fundiam-se em um amálgama de plena convicção. Representava o modelo de santo a ser seguido, era o objeto, ímpar de admiração por todos que o rodeava, até o dia que encontrou sua cruz,em um calvário desconhecido e tenebroso.
 Sua vida ocilava entre a tranquilidade e a melancolia de abraçar a solidão que só a ele pertencia, optou por consolar aflitos, por renunciar a si mesmo, para amar e viver pelos outros. E pelos outros ele disse adeus a felicidade e aos sonhos, sua família e amigos eram o seu grande amor. acreditando ter traçado seu destino ele pensou que iria viver assim por toda a vida.
 Mas um dia (sempre tem um dia!) passeando por uma estrada, ele avistou um menino, que olhando para ele com semblante sereno, deixou escapar algumas lágrimas. e Santo se aproximando perguntou quem ele era e porque estava chorando. E o menino respondeu: - Eu sou Eros menino e estou chorando por você, eu estava lhe esperando...
 Admirado com a revelação, Santo perguntou a ele se era anjo! E o menino Eros, o fitando com ternura sorriu e lhe respondeu: - Depende. Para alguns represento o paraíso, para outros o pesadelo.
 - E porque me espera? O frei aflito esperou do mesmo uma explicação.
 Eros segurou as mãos de Santo e lhe disse: - A dama das rosas pediu que lhe contemplace. Eu vim para lhe ajudar a carregar sua cruz.
 O jovem clérigo não compreendeu e resolveu partir, seguindo seu caminho. Cada passo que ele dava, uma pedra na estrada despertava nele um desafio. Queria compreender o que se passava, uma vez que se julgava quase feliz. Sua cruz ainda não pesava tanto. Até que avistou em uma pequena mata a rainha dos bosques.
 Sem dizer uma palavra seus olhos se encontraram no olhar da grande deusa. Diana a grande dama feiticeira, que a inquisição perseguia junto aos seus adeptos. E dali não conseguiu fugir, Eros por detrás o abraçou e ele sentiu uma flechada doer em seu peito. E ele se lembrou de alguns sonhos reprimidos e uma antiga recordação voltou.
 Quando criança o maior sonho de Henrique era se casar e ter filhos. Porém seus pais queriam que fosse frei e como os amava e temia, principalmente seu pai, mutilou seu sonho. E durante muitos anos aquele antigo sonho foi amordaçado no lado mais oculto do seu ser. Santo maquiava desejos, era um personagem criado para agradar os outros.
 De tanto atuar ele acreditou na mentira que ele mesmo criara. De tanto enganar espelhos, seus olhos o confundiram e ele via rascunhos de si mesmo. Enterrou o Henrique verdadeiro, na face oculta do espelho e fez viver essa ficção. De início seu sorriso lhe feria, pois estrangulava desejos e ele se sentia sem face.
 Mas com o tempo o artificial passou a ser natural e atuar foi ficando cada vez mais fácil. Todos o amavam, claro! Ele foi um modelo construído para agradar aos outros. Agradava a todos, menos a si mesmo, quantas vezes pensou em se matar... Quantas vezes quase conseguiu... Mas percebeu que a loucura e o abismo eram muito mais profundos, pois o inferno seduz os fracos.
 Ás vezes a dor de não ser ele mesmo fazia com que a insanidade batesse em sua porta todos os dias. E ele não a deixava entrar, embora a fraqueza e o cansaço o fizessem querer fugir para um outro mundo dia-a-dia. Ninguém percebia, só viam nele uma felicidade falsa e ele tinha medo de falar. Um cavaleiro solitário! Ninguém podia saber das suas dores, seu confidente era si mesmo.
 E voltando aos olhos de Diana, algo dentro dele quis lhe expulsar de si mesmo. ela o fez querer reviver seu antigo sonho, tão puro quanto o sono de uma criança. Ele olhava para Eros, indignado e aflito querendo fugir da situação, mas Eros o olhou e lhe disse que era tarde demais, o amor já havia se instalado em seu coração.
 Em desespero Santo fugiu, chorou, se sentiu o pior dos seres. Tentou esquecer a rainha dos bosques, mas não conseguia, ela era invencível para ele... lutando contra si mesmo, seu corpo e o seu cérebro começaram a se desentenderem, ele implorava a Eros que o livrasse da tentação e do pecado, ele não queria ir para o inferno apesar de conviver tão perto dele.
 O menino Eros mais uma vez lhe estendeu a mão e disse nada mais poder fazer, estava escrito. Santo sentia pena de si mesmo, a cruz já estava dilacerando sua carne e gritar já não adiantava mais...Latejava de dor, toda vez que ele a via e seus pais e o orgulho que sua família tinha dele... Qualquer um poderia errar ele jamais... O que fazer? Se ele amava Diana mais do que a si mesmo tal qual seus pais?
 Diante do altar ele pediu perdão ao Criador! e o implorou ajuda desesperado. Mais uma vez o menino Eros o abraçou por trás o que Santo considerava traição. E Eros já conhecendo às respostas, perguntou o que de fato ele sentia por Diana. - É uma ilusão passageira? Ou é amor? Santo rendido, aos prantos respondeu:
 - Há um momento quando olho para Diana, que é como eu reencontrasse o verdadeiro e amado sonho de felicidade! Porque ela representa para mim mais do que as palavras possam expressar. É algo que se parece com o desabrochar das flores mais lindas do mais encantado jardim. Depois da chuva o céu se abre alaranjado pelo pôr-do-sol, quando a noite cai salpicada de estrelas e contemplamos com serenidade este espetáculo, a sensação que chega ao coração é ainda menor do que o que sinto por ela...
 Com ela eu construiria castelos ou casebres, não importa, contanto que ela estivesse comigo. E me amasse a vida toda, eternamente, unicamente, ou simplesmente me abraçasse, porque para mim ela é única. Me casaria com ela e seria o príncipe encantado dos tolos contos, na alegria e na dor, no bálsamo ou na tortura. Naqueles momentos solitários eu seria o abraço caloroso, a companhia eterna. Quando eu a vejo, desejo envelhecer ao seu lado! Nem que fosse como uma sombra, perto e distante ao mesmo instante. A beleza para mim rima com ela. Transcende o corpo e a matéria. A cada dia que passa esse desejo cresce e meu desespero não me faz encontrar saídas, nem respostas... O que fazer? Diante dessa situação que me transforma em osso?. Amigo alado que se compadece com minhas lágrimas?
 Se o que sinto por ela é a pureza de um verdadeiro amor? Não posso viver sem ela, mas também não posso viver com ela... Será que somente nas chuvas de novembro encontrarei a paz? É este o caminho?
 A cruz pesa a cada minuto, o tempo sorri de minha fraqueza e chora por meu desespero...
 E nesse momento por não consegui, mais nada dizer Santo fitou Eros com angústia e sem esperança. O menino alado nada disse, o abraçou e deixou que o destino guiasse os passos dessa triste história.
 E o que aconteceu? Ninguém sabe sequer se ele sobreviveu, a tempestade chega junto aos trovões e relâmpagos contra as nuvens, tentando acreditar que existe uma porta em algum lugar em uma ponte, talvez ninguém consiga compreender o que é se autoflagelar em solidão permanente e ouvir o ranger dos próprios dentes e gemidos cada vez mais companheiros de jornada. A lua triste já não brilha mais o brilho da esperança de melhores dias, a luz dos afogados... Alguns dizem que sua mortalidade se foi com as lágrimas do seu choro inacabado e partiu com a expressão da imensa dor em sua face, de tanto chorar, outros dizem que se transformou em uma lenda que degela o sacrifício em lágrimas de renúncia, porque quando a noite cai ainda se ouvem os gemidos do seu coração, mas o mais provável que tenha ocorrido é que ele...


 Foi escrito no dia 18/03/06

Daniela Moura Rocha de Souza
Enviado por Daniela Moura Rocha de Souza em 25/02/2007
Reeditado em 14/10/2010
Código do texto: T393536

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Sobre a autora
Daniela Moura Rocha de Souza
Vitória da Conquista - Bahia - Brasil, 38 anos
10 textos (485 leituras)
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Daniela Moura Rocha de Souza