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HELENA

Eu passava por aquela rua quase todos os dias. Gostava de sair à noite, caminhar, sem rumo, depois voltava para casa, para dormir. Saía todas as noites por volta das oito horas e retornava sempre lá pelas onze horas, e invariavelmente passava por ali. Não era uma rua muito extensa, constava apenas de alguns quarteirões, cinco, para ser mais preciso, e também não era muito iluminada. Era ladeada de ambos os lados por árvores antigas, diria até que seculares. Quase que em toda sua extensão as árvores se encontravam por sobre a rua, formando um teto abobadado de galhos e folhas, impedindo quase que a total passagem da luz, fosse proveniente dos postes ou da lua, quando esta se elevava, altiva, totalmente cheia em sua fase mais plena. O ar, úmido a essas horas da noite devido ao orvalho, era impregnado por um odor de madeira, misturado com o cheiro verde das copas das árvores. Toda essa obscuridade conferia ao local um ar sinistro, sombrio, despertando em quem por ali passasse, um misto de medo e excitação.
Mas não foi todo esse cenário que, há pouco mais de um mês, estava chamando minha atenção, e sim, a luz, fraca, tremeluzente, talvez de uma vela, que atravessava os limites da janela de uma das casas daquela rua. Não seria tão estranho assim, se fosse uma das casas que eram habitadas, mas naquela já não morava mais ninguém havia muito tempo. A casa estava abandonada, diziam, há mais de trinta anos. Fora de uma família rica e tradicional da cidade, mas que tinham mudado em meados dos anos sessenta, e nunca mais se interessaram pela casa. Nas janelas pouco restava dos vidros desenhados, que outrora formavam belos vitrais. O jardim, em toda sua volta, era agora dominado pelo mato, nem uma flor mais para dar um colorido alegre.
Decidi, então, certa noite, descobrir a fonte daquela luz. Fui obrigado a pular o muro, pois o portão, enferrujado, estava trancado com um cadeado, que me foi impossível abri-lo, apesar de muitas tentativas. Já do outro lado, atravessei todo o terreno – a casa se achava há mais ou menos uns vinte metros do portão, jardim adentro – abrindo caminho por entre o mato. Alcancei o alpendre, quase enfiei meu pé num buraco, enorme, causado pelo apodrecimento da madeira do assoalho. A luz vinha da janela à direita da porta de entrada. Pensei comigo mesmo, “Não pode ser verdade o que estou ouvindo”.  Caminhei em direção à janela, aproximei-me silenciosamente. Espiei janela adentro. Fiquei estático ante à cena que presenciei. A sala, ampla, desnuda de mobília – a não ser por uma poltrona coberta por um lençol empoeirado – estava iluminada pela luz de quatro velas pousadas em um candelabro, que se achava sobre um piano, majestosamente instalado no centro da sala, decorada não somente pelas cortinas de veludo vinho que ainda insistiam em permanecer no local, mesmo que rotas e sujas, mas também, por cortinas de teias de aranha que pendiam do teto, obrigando a se abaixar quem por ali quisesse andar. Ao piano, sentada em um banquinho, dedilhando o teclado, ora rápido, ora lentamente, de acordo com o ritmo da música, estava uma senhora, que não pude ver sua face, pois estava de costas para a janela na qual eu me achava a espiar aquela cena impressionante. Tocava agora a nona sinfonia de Beethoven. Tocava maravilhosamente bem.
Decidi entrar na casa, precisava conversar com aquela mulher, saber quem era ela, o que fazia ali, sozinha, naquele lugar abandonado, acompanhada somente de um piano. Fui até a porta, tentei abri-la, estava trancada. Pensei em bater, mas logo em seguida imaginei que ela poderia querer não me atender. Resolvi então, entrar pela janela. Não era alta e estava aberta. Não foi difícil, em alguns segundos me achava dentro da sala. Ela não percebera nada, estava absorta, parecia hipnotizada pela música. Fiquei ainda alguns minutos ali parado, perto da janela, apenas ouvindo. Pegou o livro de músicas, folheou-o, procurando, depois colocou-o novamente em frente a si, sobre o piano e recomeçou a tocar. Não reconheci de imediato a música, mas depois de alguns acordes vi que tocava “All I ask of you”.
Não sabia como me aproximar, qual seria sua reação ao me ver ali. Tomei coragem e fui até ela. Parei atrás dela, “Boa noite”, disse-lhe. Num sobressalto ela levantou do piano e virou-se para mim, assustada, sem dizer nada. “Não se assuste, quero apenas conversar”, quis segurar-lhe a mão, mas ela afastou-se. “Quem é você? O que faz aqui? Como entrou?” – sua voz tremia, estava assustada. “Passo por aqui quase todas as noites”, disse-lhe, “e tenho visto a luz na janela. Hoje decidi ver o que era, e então a vi, sentada ao piano. Quero apenas conversar, posso? Se não quiser, tudo bem, eu vou embora”. Dei-lhe as costas e comecei a andar em direção à porta. “Não, espere!”, veio até mim, segurou-me pelo braço, “sente-se ali”, apontou-me a poltrona que estava coberta pelo lençol. Tirei o lençol – a poltrona, xadrez, em tons de vinho, azul e caramelo, ainda estava em bom estado de conservação, a não ser por um pequeno rasgo na parte superior do encosto. Ela sentou-se no banquinho, ao piano.
Agora que estava ali, sentada, mais calma depois do susto que levara com minha presença inesperada, pude olhar bem para ela. Era uma bela mulher, rosto quadrado, traços fortes, bem marcados, mas, ao mesmo tempo, suaves. Olhos verdes, grandes, emoldurados por óculos de armação dourada. Os cabelos, já começando a ficar grisalhos, estavam presos no alto da cabeça por um coque, algumas mechas caídas por sobre o rosto. Trajava um vestido longo, desses que se usa à noite, em festas de gala, preto, bem sóbrio e discreto, mas nem por isso deixava de ser elegante, e de tornar elegante a dama que o vestia. “Como a senhora se chama?”, perguntei-lhe. “Helena”, respondeu-me, folheando seu livro de músicas, “não precisa me chamar de senhora. Sinto-me muito velha assim”. Colocou o livro sobre o piano, começou a tocar. “Gosta de piano?”, perguntou-me – sua voz era forte, sonora. “Adoro”, respondi-lhe. Observava seus pés – calçados por um modelo estilo chanel, preto, salto fino, alto –, com que precisão de movimentos que impulsionavam os pedais do piano. Tocava agora “Memory”, magnificamente. Levantei-me da poltrona, fiquei em pé, à sua frente, do outro lado do piano. “Mas por que vem aqui, sozinha, nesta casa abandonada”, debrucei-me sobre o piano, “afinal, quem é a senhora?”. Tocou a última nota da música, olhou para mim, “Venho aqui, por que é o único lugar onde sempre pude, e agora posso, novamente, fazer o que realmente gosto de fazer, que é o que você está me vendo fazer agora”. Voltei a sentar-me na poltrona. “Como assim, pôde, e agora pode novamente. Por acaso não pôde alguma vez tocar piano?”, indaguei-lhe. Levantou-se, foi até a janela, tinha um porte elegante ao caminhar, debruçou-se no peitoril, olhou para fora, a perquirir a noite, como que buscando por lembranças, deu um longo e profundo suspiro, depois virou-se para mim. “Sim”, correu a mão pelos olhos, pareceu-me enxugar uma lágrima, “passei anos sem poder tocar uma nota, sem ouvir o som de uma única nota”. Voltou e sentou-se outra vez ao piano. “Mas por que, o que aconteceu, e por que está aqui nesta casa, e de quem é esse piano?”. Baixou a cabeça, recostou a testa no piano. Ficou assim, imóvel, por alguns segundos, então ergueu a cabeça, colocou o cotovelo no teclado, produzindo alguns sons, e apoiou o queixo sobre as mãos, entrelaçadas. Olhou-me com uma serenidade que eu nunca tinha visto antes em outra pessoa. “Esta casa é minha, e o piano também”. Tentei falar alguma coisa, mas ela interrompeu-me, “Não, não precisa perguntar mais nada, vou contar-lhe tudo”. Levantou-se novamente e começou a andar pela sala. “Moramos aqui até o ano de mil novecentos e sessenta e seis. Papai, mamãe e eu. Sou filha única. Eu tinha então quinze anos. Tocava piano desde os sete. Meu sonho era me tornar uma pianista famosa. Papai tinha muito dinheiro e era uma pessoa muito influente na cidade. Tudo era uma maravilha até aquele fatídico dia em que os dois, papai e mamãe, foram viajar juntos, e então...”. tornou a passar a mão pelos olhos, enxugando outra lágrima. “Acidente?”, interrompi-a perguntando. “Sim, foi horrível”. Estávamos agora os dois juntos da janela. “E com quem a senhora, desculpe, você ficou depois? Morou sozinha?”, perguntei. “Não, fui morar com um tio, que ficou sendo meu tutor, e responsável por todos os bens de papai, que depois viriam a ser meus. Mas não fiquei com nada, meu tio perdeu tudo, inclusive meu piano, pois não soube administrar direito os negócios. A única coisa que sobrou foi esta casa. Então, alguns anos mais tarde, casei-me, com um amigo de meu tio, não porque gostava de meu marido, mas para me livrar de meu tio, não suportava mais viver com ele. Mudamos, eu e Heitor, meu marido, para outra cidade. Ficamos mais de vinte anos casados. Ele não me deixava trabalhar, dizia que eu tinha que ficar cuidando da casa. Tocar piano então, nem pensar, para ele era coisa de madame fútil, que não tinha o que fazer, e também, não tinha dinheiro para comprar outro piano.  Foram os piores anos da minha vida. Não tivemos filhos, ele nunca quis”. Interrompi-a mais uma vez, “E onde está ele agora? Separou-se dele?”. Voltou a andar pela sala. “Morreu, faz um ano. Então decidi vender tudo que tinha lá e voltar para cá”. Voltei a sentar-me outra vez na poltrona, ela estava novamente ao piano, folheando seu livro de músicas. “E onde está morando agora, aqui?”. Começou a tocar uma música, bem suave. “Não, claro que não. Estou morando no asilo. Com o dinheiro que consegui com a venda das minhas coisas, comprei este piano, foi a melhor coisa que fiz em toda minha vida. Vivo somente com o dinheiro da minha aposentadoria”. Mais uma vez, cortei-lhe a fala, “Tem vindo aqui todas as noites?”. “Sim, desde que voltei para a cidade, há mais ou menos dois meses. Agora me sinto realizada, pois estou na minha casa, e fazendo o que mais gosto de fazer, e que sempre quis fazer na vida, tocar piano. Bem, preciso ir, já está tarde”. Levantei-me e fui até ela, “Posso pedir-lhe que toque uma música para mim?”. Sorriu-me, antes de responder, “Claro, que música quer ouvir?”. Rapidamente respondi-lhe, “Ave Maria de Schubert”. Folheou seu livro de músicas, ajeitou-se no banco e começou, não somente a tocar, mas também a cantá-la, em latim, com uma voz lírica, maravilhosa. Terminada a música, levantou-se, baixou o tampo do piano, estendeu-me o braço, “Vamos, acompanha-me?”. Tomei-a pelo braço, apaguei as velas – a sala agora ficara iluminada apenas por um parco raio de luz vindo de fora –, saímos, fechando a porta atrás de nós. Acompanhei-a até o portão do asilo. Antes de entrar, disse-me, “Espero-o lá, amanhã, novamente”. Beijei-lhe a mão para despedir-me, “Estará lá?”. Entrou pelo portão, fechou-o, olhou-me pelas grades, “Sim, doravante estarei lá, todas as noites, até o último dia de minha vida. Quero recuperar todos esses anos perdidos...”
Erik McArthedain
Enviado por Erik McArthedain em 08/03/2007
Código do texto: T405179

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Sobre o autor
Erik McArthedain
Bariri - São Paulo - Brasil, 51 anos
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Erik McArthedain