Ciúme



Ela andava diferente. Olhos mais vivos, pele corada.
De manhã acordava inquieta. Dava-lhe um beijo rápido de bom dia e saía em busca da roupa, das meias, da bijuteria.
Observou quando ela saiu do banheiro já maquiada.
Maquiagem discreta, menos a boca.
A boca estava vermelha.
Sobressaía no rosto branco como um convite indecente.
Uma bola se formou no estômago e ele teve dificuldades para engolir.
Boca vermelha.
Em segundos além da boca, ela mostrava a renda preta da lingerie.
Ele quis perguntar, mas ela sorriu com lábios vermelhos tão provocantes que ele não teve forças para continuar.
O vestido caiu rapidamente e ela partiu em busca dos saltos.
Ele via os cabelos presos em um coque solto e imaginou se alguma mão ávida e forte logo mais os despentearia.
A boca vermelha sorriu mais uma vez e ele engoliu a bola que estava na garganta.
Ela não notou a apreensão dele enquanto olhava no espelho.
Arrumou a meia fina que circulava a coxa bem feita e ele viu outra renda preta.
Indecente! Sem-vergonha! 
Com um suspiro de raiva quis saber quem era o cara, desde quando era e por que era?
Ela nem notou. Colocou os brincos que ele gostava. Brincos que ele lhe dera. Brincos que ele beijava junto com as orelhas que ela exibia quando se insinuava.
Ela sorriu maliciosamente com aqueles olhos de desejo como se escarnecesse dele.
A bile amarga subiu pela garganta e ele teve vontade de estrangulá-la ali mesmo.
O sangue gelou quando ele imaginou a cena: o sujeito a abraçando e apertando. Sentindo o hálito quente dela enquanto a beijava e ela, lânguida, manchando aquela boca vermelha e escandalosa sabe-se lá onde e de quantas maneiras.
Sentiu ódio daquela estranha que se produzia e se perfumava para o amante.
O corpo tenso não conseguia sair da cama e ele, extático e consumido pela raiva se via matando a mulher que indecentemente mostrava o que já era de outro. Para outro.
Mas ela teria o troco! Ah, se teria!
Também a trairia.
E trairia com todas.
De todas as formas possíveis.
E faria questão que ela soubesse. Que sentisse na pele que tinha sido trocada, humilhada, rejeitada.
Ah, sim. Ela merecia!
Era uma dissimulada. Uma prostituta disfarçada que descaradamente repetia dia após dia que o amava.
Mas agora ele sabia.
O ciúme o cegava e se perguntou a quanto tempo ela o fazia de trouxa.
Ela terminou de se arrumar e sentou muito séria ao lado dele.
Na mão direita trazia um lenço de papel e silenciosamente como se soubesse o que ele pensava, limpou a boca vermelha e indecente.
Com um sorriso claro, lembrou que o batizado seria em meia hora e que ele ainda não estava vestido.
Em meio a uma vertigem ele ainda a ouviu dizendo inocentemente que batom vermelho não era apropriado para a igreja.
Enquanto ela pintava os lábios de rosa, ele envergonhado, saía da cama.



 
Edeni Mendes da Rocha
Enviado por Edeni Mendes da Rocha em 17/06/2013
Reeditado em 04/07/2013
Código do texto: T4346012
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