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RELÓGIO

Acordara cedo, sem saber o porquê estava diante de si mesmo nas primeiras horas da manhã nublada que se apresentara sem motivo aparente, como se a imagem que refletia no espelho se expandisse pra realidade do enfim, abatera-se de imediato, constatara que ainda tinha longas horas até que seu próximo compromisso lhe atasse as mãos e sentira uma vontade irrealizável de voltar a cama, o que não foi possível posto não haver nenhuma cama pois a mesma se retirara logo após o seu levantar movida por algum outro anfitrião que ocupava sua sala de estar, pensara estar delirando no seu quarto vazio e abriu a janela afim de deixar o céu entrar na sua fechada existência, mas ao passo em que abrir significava aquiescer com o universo  o mesmo não poderia ser para dentro de si mesmo; acontecera de que ao encontrar-se ali, e faltando tantas horas, o ainda, as reticências, o não acontecido passara a ter uma importância insuperável e quanto mais pensava assim ainda mais a hora achava em estender-se, como se pudesse o presente surrupiar tempo do futuro, procurara na mesa de escritório onde mantinha os papeis do seu divórcio algum contrato onde regulasse o poder que aquelas horas vazias pudesse exercer sobre ele porém viu-se sem nenhum tipo de papel então restara esquecer aquela vontade e infantil e dedicar-se em preparar-se para as horas que ainda viriam, despira suas vestimentas e tomara um longo banho quente, uma parte deste longo banho foi dedicada a reflexões, não queria demorar-se pouco e ao sair, constatar que ainda restava muito tempo pra ser gasto tampouco queria delongar demais tal aplicação e perder-se desnecessariamente no tempo que gastava, acabara sem perceber quando saiu do banheiro e acordara novamente já com seu termo e gravata, olhara o relógio e por algum tempo não conseguira acreditar nos próprios olhos: o tempo não passara; limpou as lentes dos óculos com um produto próprio que comprara a pouco tempo, não adiantava, tudo estava lá, sem troca entre os ponteiros, tudo aquilo se resumia em horas ainda a serem gastas, logo viu-se todo vestido e tentou lembrar quando acontecera de estar em pé, com uma xícara de café quente sentado numa cadeira distante, resultara um desespero que estava oculto dentro de si mesmo: não lembrava-se de nada daquilo, todo o momento era um instante de “estar” dentro de um verbo que nada realizava, que na verdade nada significava, tudo que lhe era importante, seus afazeres, seu bom nome estava ligado com aquelas horas que tinha de honrar e cumprir, com o relógio parado não poderia fazer nada, não era nada, seu compromisso nunca chegaria e não poderia dar ordens e remeter os ofícios, estava tudo acabado; tirara os óculos e pusera perto da xícara já vazia, pegara da sua adega um vinho, queria doce mas só tinha amargo, pôs-se a sorver grandes quantidades de maneira avulsa, já não queria mais pensar em nada daquilo, queria somente “estar” de novo nas coisas que fazia, deixar levar-se pela correnteza do obvio e dilacerar-se entre as mil coisas sem aparência que compunham sua normalidade , seu caráter, seu modo de existir já que assim sentia-se invadido por uma ideia sem nome, algo que crescia sem controle dentro dele e que devia, urgentemente, afogar em vinho ou em qualquer outra coisa forte, queimar de dentro pra fora com seu um cigarro importado ou seu cachimbo da Tailândia, qualquer coisa que o fizesse retornar deste caminho réprobo anuviado nas sem horas que ainda restavam e ali, com a casa toda nublada, seu ser nublado e ainda restando horas e horas pra serem gastas resolvera sair pra rua pra andar, o destino seus pés saberiam pois sua cabeça ainda estava naquelas nuvens mas saíra na hora exata; não percebera que ao atravessar o portão J. chegava com uma sacola de pão e as pilhas pro relógio...

Do Livro “Contos do Acaso”
Diego Duarte
Enviado por Diego Duarte em 01/07/2013
Reeditado em 01/07/2013
Código do texto: T4366487
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Diego Duarte
Ananindeua - Pará - Brasil
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Diego Duarte