RETRATO DA FAMÍLIA

Naquele dia a gente fez um retrato, que uma graça tinha sido alcançada. O milagre na vida se dá no meio do desejo, quando ainda a sede do novo faz a gente prometer, faz a gente acreditar que tem as asas e os ventos a nosso favor apesar da adversidade. Saímos de Rifaina vestidos do que mamãe cozera, do que mamãe nos revestira. As mãos grávidas dela sonhavam fazendas de seda em chita, sonhavam tijolos e andaimes, sonhava enxoval de madame em brim para a Denise que ainda era semente no colo da virgem Maria.

Retrato no papel de fotografia, naquele tempo era arte para uma vez na vida. E que dia foi esse, meu deus! A lembrança da gente faz uma bola de ar revirar no estômago, de euforia e contentamento, uma ansiedade contida de quem espera nunca acabar o doce.

Viemos à Franca por conta de tirar foto no estúdio, um acontecimento. Promessa a ser cumprida se a poliomielite que teimava atormentar meu irmão se esquecesse dele e o deixasse bom para correr no campo atrás da bola, correr atrás do trabalho e das salas de aula. Tínhamos um rádio onde a voz do padre Donizete fazia dueto com as lágrimas de mamãe. Em Aparecida a foto da família ia lembrar a virgem que pobre sofre já muito pra deixar farta a mesa pequena.

Perto da igreja São Sebastião tinha dois estúdios, foi no estúdio Francano que fizemos pose. Rosana recém nascida, a Denise no útero, Nicinha pequena e Toninho com os braços tortos na frente. Donizete, eu e a Joana D’arc. Mãmãe de cabelos longos do lado do papai vestido de terno.

Apesar da solenidade e do clima de devoção eu achei que o vestido novo estava muito comprido, se era pra apresentar-nos bonitos aos olhos da padroeira pensei que devia ficar melhor. Valorizei minha juventude e os outros anseios contidos no peito adolescente: levantei um pouco o vestido e fiz dobra de quatro dedos secretamente. Nem curto nem longo, se passasse um pouco pra cima do joelho a mãe veia – vó querida! mandava encompridar, desmanchava tudo e refazia.

O Senhor, penso eu, demora o quanto for preciso pra gente aprender no sofrer da lição. Muitas águas e muitas pontes sobre elas ainda seriam vistas pelos olhos do meu irmão, muitos jogos de futebol perderia por causa da dor, e no íntimo a vontade secreta de perguntar pra virgem Maria se a foto não tinha ficado do seu agrado.

Talvez que devêssemos ter feito como a outra que prometeu a mesma coisa mas pagou fazendo a hégira até Aparecida muda – só falando diretamente para o Senhor.

Baltazar Gonçalves
Enviado por Baltazar Gonçalves em 06/07/2013
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