LUCIDEZ INESPERADA

Há muito vovô Frederico andava meio esquecido. Piorou depois que vovó Ester morreu. Com o tempo confundia passado e presente passou a sujar tudo. Tais atitudes passaram a aborrecer Mamãe que, cansada propôs: “Vamos interná-lo num asilo. Demente como está, nem vai notar a diferença”. Tanto insistiu que papai concordou.

Chegou o dia. Papai preparou o carro e me pediu para ir junto. Vovô como sempre, ora sorria, ora chorava. Até que chegamos à casa pintada de branco “guardada” por muros altos. Papai parou o carro e disse secamente: “Vamos pai”; Vovô olhou desconfiado, mas obedeceu. Uma senhora nos esperava no portão. “Pronto, aqui está” disse papai; “Ok, seja bem vindo senhor Frederico”. Papai entregou uma bolsa com os poucos pertences e beijou vovô que surpreendentemente olhou nos olhos dele e respondeu: “Adeus filho, vou aprender a viver feliz o pouco tempo que me resta”; a resposta provocou um silêncio estranho em todos nós enquanto vovô caminhava em passos lentos para o interior da casa em que viveu por mais dois meses até se juntar a vovó.

Até hoje, quinze anos depois, papai chora quando lembra daquele momento.