Tenção

Tenção

Nada pode tornar o espírito de alguém mais equivocado do que agir contrariamente aos próprios sentimentos. Assim, de uma má vontade inicial de Wilson surgiu uma propositura pela qual vamos seguir relatando; um aparente benefício imediato trouxe-lhe uma nova perspectiva e um inusitado rumo para a sua vida.

Balançado pelo vento e junto a um poste de luz, havia um fio de alta tensão caído e ainda com energia elétrica; há pouco ocorreu um violenta tempestade de verão, assolando aquela cidade litorânea e causando destruições em algumas instalações urbanas, bem como na natureza. Com a diminuição das chuvas e ventos, as pessoas aos poucos retornavam aos passeios, pondo vida humana novamente à vista.

Wilson caminhava de retorno a sua casa; ele havia ido a um mercado próximo e lá ele teve de aguardar pelo fim da tempestade, em razão da intensidade das chuvas. Andava e lembrava-se da tarde ensolarada que antecedeu ao temporal. A paisagem com a qual ele deparava-se, após a rápida tormenta, era muito diferente daquela que havia pouco antes, quando ele saiu em busca de algumas cervejas.

Na casa de veraneio onde ele estava por aqueles dias, com o propósito de passar o feriado prolongado, – invenção brasileira para conseguir quatro dias de ócio habitualmente remunerado –, o pessoal ainda aguardava seu retorno com as bebidas que lhe pediram. Saíra só de calção e agora a temperatura já decaiu o bastante para ele sentir frio; um ligeiro arrepio percorria o seu corpo quando o vento, agora vindo do sul, soprava mais intenso.

Nas tardes ao final da primavera a temperatura é mais baixa, habitualmente, daquela que houve ao longo do dia e, naquele momento, após as chuvas intensas, o vento soprava do mar e um vento gelado chegava à cidade. Em razão do frio que sentia, seus passos eram agora mais rápidos. Ainda assim, ele conseguia observar os estragos do vendaval.

Algumas casas estavam destelhadas e viam-se árvores derrubadas; sacos de lixo caídos ao chão juntavam seu conteúdo à sujeira que havia na rua, enchendo as sarjetas com detritos. Onde havia pavimentação alguns buracos surgiram; neles se abrigava parte da sujeira urbana levada pela chuva. Nesses recantos onde a administração pública é desmazelada, as obras de pavimentação descuidam-se das águas pluviais; deixam de construir bueiros e redes de escoamento da água da chuva e, assim, surgem enormes poças d'águas nos cruzamentos das ruas. Por alguns instantes Wilson pensou na sua profissão – ou melhor, no exercício dela – e refletia rapidamente, lembrando-se da situação na qual obteve a casa de veraneio que ocupada pela primeira vez nesse fim de semana prolongado.

Wilson trabalhava como Auditor do Tribunal de Contas e, em tal serviço, fora há alguns dias antes designado para verificar as contas da Administração daquele municipio. No decorrer dos serviços chamou-lhe a atenção alguns gastos elevados da prefeitura com diversos particulares, destinados à coleta de lixo e contratados com valor abaixo do limite em que a Lei determinaria licitações para contratação. Tais gastos, desta forma, foram dispensados de licitação.

Examinando a documentação, notou que houve um rápido apanhado de preços e que, logo a seguir, contrataram algumas pequenas empresas da localidade para realizar, nos balneários mais populosos, coletas de lixo em ruas específicas. Alegando que o rápido aumento do volume de lixo nos fins de semana justificava tais contratações em caráter emergencial, a prefeitura assim procedia rotineiramente. Tais situações presumiam-se como dentro da legalidade e coube a ele verificar.

Em princípio ele emitiria um parecer favorável ao uso do dinheiro público praticado pela administração municipal. Porém, avançando em seus trabalhos examinou com mais atenção e percebeu que as empresas não praticaram tais serviços; após realizar pesquisas sobre as empresas, comprovou que algumas sequer existiam. As notas fiscais e contratos eram falsos, em razão da inexistência de tais empresas.

Enfim, soube ele que aquelas contratações eram fraudulentas. Após identificar o problema, pediu uma reunião com Diretor Administrativo e o Prefeito do município para apresentar o resultado do seu trabalho.

Reunido com o Prefeito do Município e com o Diretor Administrativo, Wilson expôs os problemas que encontrou. Eles ouviram a exposição de Wilson para em seguida lhe perguntar amistosamente:

— Wilson, o que podemos fazer por você? Geralmente nessa ocasiões podemos ajudar nossos amigos... e eles sempre nos ajudam, em retribuição! - disse o Prefeito, em meio a um cínico sorriso.

O Diretor Administrativo inteveio e também expressou a sua opinião.

— Gostaria que você soubesse que é importante chegarmos a um acordo. Até porque não desejamos usar das influências políticas do nosso partido para prejudicar a sua carreira. Então, se aceitar um agrado nosso, encerraremos essa questão num bom acerto.

Até àquele momento, Wilson escutava assustado o assédio dos dois corruptos. Ele ainda não havia presenciado uma situação onde uma proposta de corrupção lhe fosse tão direta. O prefeito seguiu na exposição para Wilson.

— Nós podemos nos ajudar mutuamente... Se concordar em mudar o parecer, desconsiderando essas pequenas irregularidades nos papéis, nós podemos lhe ajudar de uma forma muito especial...

Wilson relutava, meneando negativamente a cabeça. Novo na profissão, ainda não havia sentido o forte assédio da corrupção à sua frente. Seu propósito em ser correto no exercício da carreira junto ao Tribunal de Contas estava sendo questionado, após apenas um ano de serviço. Sentiu-se tentado a emitir o parecer em pronto, – e desfavorável aos administradores –, bem como procurar registrar de alguma forma aquela tentativa de corrupção. O Diretor continuou a amistosa conversa.

— Gostou da nossa cidade?

— Sim, claro! Essa cidade é linda... É a primeira vez que venho aqui e estou encantado. Pode ser que, no futuro, eu até mesmo tenha uma casa aqui, para nela ficar nos finais de semana...

— Então, meu amigo! Veja que bacana! Esse seu desejo pode realizar-se hoje mesmo! - Disse o Prefeito, sorrindo, enquanto manuseava uma caneta num bloco de rascunho sem que tampouco escrevesse algo de útil.

— Claro! Hoje mesmo poderemos fazer isso! - complementou o Diretor.

Wilson já tentara, sem sucesso, adquirir uma casa no litoral. Mas, na mesma equação em que a cidade apresentava-se como um local bonito aos seus olhos, também era custoso em demasia adquirir uma boa casa de praia naquela cidade. Em seu coração ainda havia uma tênue vontade em não colaborar com aquele vil propósito daqueles administradores corruptos. Mas, o forte desejo de ter uma casa naquele local era o tema recorrente entre ele e seus amigos mais próximos, havendo uma velada disputa em quem conseguiria primeiro tal intento. O Diretor voltou à carga com seus argumentos, enquanto levantava-se e colocava um dos braços, sutilmente, nos ombros de Wilson.

— Vamos, não seja tão exigente consigo mesmo... O que vai lhe custar aceitar o nosso presente?

Alguns minutos depois, Wilson abaixou a cabeça e assentiu.

— Tudo bem... aceito a proposta. - Wilson pensou na expressão de surpresa dos seus amigos ao saberem de sua conquista e um sentimento de satisfação lhe tomou. Assim, seus propósitos iniciais, em ter uma carreira honesta junto ao Tribunal de Contas, foram-se por água abaixo, ou melhor, por terra acima – trocou-os por um pequeno pedaço de terra onde havia uma casa.

Houve um largo sorriso no Diretor da Administração daquele município e, posteriormente, uma festiva queima de fogos – paga com recursos do município –, pelo alegre e corrupto Prefeito.

O Diretor mexeu na sua gaveta e retirou um molho de chaves, entregando-o ao Auditor. Os olhos de Wilson brilharam em notada satisfação. Ele pegou-a, enquanto ouvia o Diretor:

— Essas são as chaves da sua nova casa; fica num balneário aqui próximo e tenho certeza que irá gostar. É bem localizada, a duzentos metros da praia. Além disso, tem um bom comércio próximo. E agora ela é sua!

Vendo a nítida alegria de Wilson com as chaves na mão, o Diretor continuou:

— Mais tarde, vá à minha sala para retirar o contrato de compra e venda quitado. Se desejar lavrar a escritura em teu nome, bastará levá-la ao Cartório de Imóveis. Quanto aos impostos, darei um jeitinho neles, não deixando nada pendente. Estamos acertados?

Em resposta Wilson sorriu ligeiramente; pegou as chaves e confirmou com a cabeça. O Diretor estendeu-lhe a mão e cumprimentaram-se num forte aperto de mão, selando o acordo. O Prefeito também levantou-se o cumprimentou de mesma forma, além de dar-lhe alguns tapinhas nas costas. O Prefeito estava satisfeito com o trato e demonstrou o seu contentamento:

— É sempre bom termos amigos... E você agora é um dos nossos!

Depois do Prefeito falar, ficando um pouco mais sério e compenetrado, Wilson expôs aos dois comparsas:

— Ok! Não vou relatar nada quanto às documentações irregulares. Fiquem tranqüilos! Além disso, a verificação que normalmente faço é por amostragem e vocês não tiveram sorte, apenas isso... Se eu houvesse pego outra nota fiscal qualquer, não teria descoberto nada. Bom... bastará que eu pegue alguma outra que esteja regular e a situação se resolverá.

Ele fechou a maleta de serviço onde estavam os relatórios; de pé, cumprimentou o Prefeito e o Diretor, despedindo-se.

— No próximo fim de semana prolongado retornarei com alguns amigos para inaugurar a casa. Obrigado! Foi muito bom me acertar com vocês dois!

Wilson apegava-se, por definições de suas tarefas, em verificar a regularidade da documentação e não caberia a ele observar se os gastos municipais realmente eram eficientes. “Se a documentação estivesse correta, eu também não teria nada a fazer”.

Enquanto ele aplicava seus passos rápidos pelas ruas encharcadas, pensava um pouco mais sobre o assunto “Tanto gasto com pavimentação e surgem estas piscinas a minha frente! Além disso, toda essa sujeira demonstra que realmente os serviços de coleta de lixo não são prestados!”.

Seu senso de julgamento aproximava-se daqueles instantes onde focamos as circunstâncias. Os fatos começam a surgir claramente em nossa frente, perdendo as intrínsecas ligações pessoais que mantêm, a todos, cúmplices ou condescendentes com atitudes incorretas. Depois de aceitar o agrado, sentiu-se mergulhado num processo do qual dificilmente sairia.

Andava com cuidado desviando-se das poças, apressando-se para o retorno aos amigos. Um carro passou ao seu lado e o encharcou com respingos de lama, irritando-o profundamente. Pareceu-lhe que era proposital, quando notou que a identificação da prefeitura na lateral do veículo. No entanto, viu ainda que o motorista desviava-se de um garoto que passava de bicicleta.

O fio de alta tensão, bailando ao vento, algumas vezes entrava em contato com a água e as descargas provocavam ricocheteios; numa descarga mais intensa, o fio retornava ao encontro do poste de madeira e ali voltava a oscilar ao sabor do vento.

O garoto pedalava sua bicicleta segurando um guarda-chuva; ele não notava que Wilson, soltando impropérios pela lama que o atingiu, vinha em sua direção. Quando o menino aproximou-se um pouco mais, Wilson procurou desviar-se dele; tentou saltar para o meio fio e para isso pretendeu pular a poça d'água que havia ao seu lado. No entanto, seu pé não atingiu exatamente o meio fio. Acabou pisando num saco de lixo que ali estava, vindo a escorregar. Enquanto seu pé deslizava na poça, ele apoiou uma das mãos no poste. Em seguida, balançando ao sabor do vento, o fio de alta tensão voltou do poste em seu tétrico bailar e o alcançou.

O corpo de Wilson estremeceu ao receber uma violenta descarga elétrica em alta tensão. Assim ele finalizou a sua vida, abreviando a sua carreira de servidor público corrupto.

Julio Cesar da Silva
Enviado por Julio Cesar da Silva em 23/04/2007
Código do texto: T461090
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