CONTO PROSAICO

... E o velho se encontra triste e deprimido. Depois de 25 anos de casamento, não entende por que sua mulher não o quer mais. Seu egoísmo nunca lhe deu chance de entender o que se passa em seu casamento e na sua vida.

Está todo descontrolado. Pressão alta. Impotência. Incontinência urinária. Calvície e dores nas articulações. Vinte e cinco anos antes, ele abandonara a primeira esposa com quem se casara aos 25. Ela, aos 20. Divórcio. Ele, aos 60 e ela, aos 55. Motivo? Paixão fulminante. Ele se apaixonara por uma garota de 25. A pobre mulher, que se dedicara inteira ao casamento, ao marido e aos filhos, deprimiu-se; desenvolveu um câncer de mama que a levou à morte pouco tempo depois. Ele pagou todas as despesas médicas e hospitalares, mas não suportava sequer a ideia de vê-la. Sua nova mulher era por demais saudável e isso lhe dava demasiado prazer. A doença da ex-esposa lhe causava repugnância.

Agora, aos 85, ele se sente retraído e só. A esposa com 50, ainda bela e faceira, bem tratada à custa do dinheiro dele, anda arredia, nem quer mais dormir no mesmo quarto. Almoçar com ele nos fins de semana já lhe é sacrifício suficiente. Dormir na mesma cama nem pensar. Roncos e mau cheiro. Ela não suporta mais o velho. Velho cheira mal, ela pensa sempre que ele se aproxima. Ele quer afeto e companhia. É marido. Ela sente nojo.

"Por que você não para de trabalhar? Minha saúde anda muito mal e você não precisa do seu salário. Eu sempre lhe dei tudo!"

"Não posso homem! faltam alguns anos pra eu poder me aposentar. Comecei a trabalhar muito tarde, depois que nos casamos". E o pensamento que invade a mente da bela mulher é uma mistura de malícia e asco: "Aposentar pra cuidar de você?! Uhr, só de pensar me dá nojo!"

Sentado na cama, com ar miserável, ele tenta compreender o que se passa na cabeça da mulher, ainda sacudida, cheia de vida. Faceira. Toda ela é luxúria. Sempre foi. No início..., ele não conclui o pensamento. Tem medo que ela adivinhe... Depois, foi se afastando, amigos, estudo, trabalho... e foi se afastando. A princípio, ele nem notou. Trabalho. Muito trabalho no afã de ganhar dinheiro. A mais valia... e o tempo foi passando... O tempo não a maltratou. Ao contrário, deu-lhe um ar majestoso, augusto. Dona de si e de tudo que ele tem. Rica e poderosa. Sem filhos e cada dia mais livre.

Seria muita maldade não reconhecer que de vez em quando ela se sente triste porque sempre quis ter um filho, mas não com o velho. Um filho do amor. Nunca suportou a ideia de ter um filho do velho. Tinha medo de não poder amar o próprio filho. Evitava. Ele tinha filhos no primeiro casamento. Filhos não lhe interessavam. Pra que filhos? Estragaria a beleza da moça. Ela concordava.

"Você não precisa trabalhar, eu lhe dou tudo. Faço uma proposta: pago o seu salário em dobro pra você cuidar de mim."

"Ficou doido?" A porta bateu e ele ainda ouviu seu grito ressoar do lado de fora "Ficou maluco, velho?"

Jô sempre cuidou de idosos. Idosa também, já não tem muita paciência para o vizinho rico e solitário. Todos os dias ele a grita no portão. "Jô!... Jô!.. Jô!"

Ela finge não ouvir. "Jô!", ele repete até que a pobre senhora saia já com o aparelho de medir pressão nas mãos. Ele se senta. Ar triste. Visivelmente deprimido. “Algum problema, seu Nicolas?”

“Bárbara não quer mais ficar perto de mim.” Responde o velho com os olhos cravados no chão de cerâmica velha encardida pelo tempo e pouca higiene. Ela esboça um leve sorriso que denota ironia e descrença.

“Sua mãe morreu com noventa anos, não foi, Jô?” “Sim, seu Nicolas, por quê?”

“Eu pensava se você considera que ela viveu muito, deu muito trabalho...” “É... pros padrões do Brasil, viveu. E trabalho, sempre dá trabalho cuidar de gente doente não é, seu Nicolas?”

Na resposta de Jô há uma veredicto, uma sentença para o velho. E ele continua falando como se não ouvisse senão a própria voz “Eu sou grego, você sabe, não sou brasileiro, mas a idade chega para todos, não é, Jô? E Bárbara não me dá mais atenção. Ela sai todos os dias, mesmo quando não trabalha. Não sei o que faz na rua...” E o “r” soa vibrante.

Jô olha-o indiferente. Não sente pena. Nenhum sentimento. Lembra-se do sofrimento da primeira mulher do velho e pensa com ironia num riso contido, “Tá colhendo o que plantou, velho. Agora aguente”.

Ele continua sentado na cadeira de balanço onde a mãe de Jô costumava se sentar para apreciar o movimento da rua ou tomar um pouco de sol. Uma cadeira defunta que ampara um quase defunto.

Sena Siqueira.

Sena Siqueira
Enviado por Sena Siqueira em 24/06/2014
Código do texto: T4857051
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