NA PRAIA

Foi passear na orla. Queria aproveitar do feriado, da tarde de sol e sentir a maresia. Aquela brisa salgada e grudenta que sempre cura os males, do corpo e da alma. O barulho das ondas quebrando na areia, a algazarra das crianças, os boleiros e demais ruídos, todos se fundindo como se musica de orquestra fossem. Condução de Walter Smetak. Na contramão vem vindo um kit completo. Água de coco, óculos escuros, havaianas e cigarro na mão. E ainda usa chapéu, uma graça. Tem seus cinquenta, talvez poucos anos mais e um pneuzinho sexy na cintura. Sua canga, deslocada, deixa ver as marcas de outro bikini, de outro dia. "Meu número", pensou enquanto impedia-lhe a passagem. Distraída, quase assustou com a abordagem, mas aceitou a oferta. A idéia de lavar a garganta com um chopp gelado sempre é bem vinda. Conversaram longamente, labirintos de palavras e frases, dentro do qual buscavam a aproximação de seus corpos, até o sol se por.

Nessa hora acontece o impasse. “Estou com frio e preciso trocar de roupa.” “Vamos nos rever?” “Dentro de meia hora, não mais.” E ela apareceu mais linda ainda. Tomou banho e se perfumou, lavou os cabelos e prendeu-os com uma fita colorida. Usava uma bata de algodão com algumas flores bordadas, jeans e rasteirinhas com brilho. Voltou a ter vinte anos. Os dedinhos dos pés, todos felizes. Seus olhos sorriam mais do que a boca. Tentava disfarçar o prazer da companhia, o prazer de se sentir desejada. Queria dar menos na vista, mas com aquele brilho nos olhinhos, era quase impossível.

Jantaram um peixe, arroz, molho e salada. Tudo leve, para não pesar o estômago e estragar a sobremesa. Foram passear e, em certo instante, as mãos se trombaram e a lua viu dedos entrelaçarem-se como naufragos que agarram um pedaço de madeira. Agarrando-se à vida. Foi tão intenso que acabou em beijo, quase suruba a céu aberto.

“Meu ap é aqui perto...” pensou em voz alta e desculpou-se em seguida. Não queria, mas transpirava desejo, um tesão quase desesperado, uma secura alimentada pelos anos de separação. Duas almas aproveitando a circunstância. Não demorou muito e estavam rolando pelo chão da sala. O desespero dela foi domado, minuto a minuto, centímetro por centímetro, até o multiplo orgasmo. Com toques leves e outros toques. Aproveitaram-se em todas as posições possíveis. Quando ele caiu de boca e ela gritava feliz, pela terceira vez, notaram duas figuras em pé, junto da entrada em um típico contra-luz. A jovem, na casa dos trinta, segurando a menor pela mão: “Mãe!?” “Vó!?”.

Ocirema Solrac
Enviado por Ocirema Solrac em 10/07/2007
Reeditado em 11/03/2010
Código do texto: T559050
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