QUANDO UMA MULHER AMA UMA MULHER

Joana amava Renata. E era um sentimento sincero.
Mas Renata era fascinada por Caio.
E Caio era apaixonado por si mesmo.
E Renata falava de Caio para Joana.
E Joana sofria calada, ria falsamente, segurava a angústia do tamanho de um rio revolto.
Às vezes, Joana chorava em seu quarto. Renata era cega. Era tola. Caio só queria usá-la como um bibelô. Brigavam, voltavam. Brigavam, voltavam. Era sempre assim. E quando brigavam, lá ia Renata chorar as pitangas, reclamar e bater o pé. Faziam às pazes, lá ia Renata contar as maravilhas babilônicas de um amor caudaloso.
Joana ouvia. Joana sofria. Mas sorria. Falsamente.
E eles estavam juntos e felizes, quando o destino resolveu jogar um pouco de intriga neste conto.
Um dia, Caio radicalizou. Levou duas garotas para um motel. Nenhuma delas era Renata. Por pura sorte de Renata. Ao saírem do motel, os três devassos jogaram a picape verde do pai de Caio em uma ribanceira. Os três, bêbados, nem sentiram o golpe da lâmina da morte. Exangues, morreram na beira da estrada.
A notícia caiu como um petardo na alma de Renata. A morte. A traição dupla. As circunstâncias.
Merecida a morte? Ele enlouqueceu? Ele chegou a amar Renata alguma vez?
Renata correu confusa, para a casa de Joana. E esta abriu os seus braços, e chorou também. Não por Caio, um porqueira. Mas por Renata, anjo ferido e claudicante. As duas ficaram por vários minutos agarradas. Como se a salvação da vida dependesse daquele abraço.
Renata balbuciava a sua dor, entre impropérios e bênçãos. Amava odiando, odiava amando. Caio. Morto e maldito e belo e santo.
Joana chorava pela dor de Renata. E chorava por desejar Renata. Pois queria aquele corpo, que estava tão longe e tão perto. Aquela dor era sua, e tão-somente sua.
Mas ela esmoreceu. E entregue ao corpo, Joana cedeu ao impulso. Puxou Renata para junto de si e, olhos nos olhos, gritou:
"Ele não te merecia! Homem nenhum te merece! Você tem uma luz absoluta e me cega, dia após dia, hora após hora, segundo após segundo. Ele não te merecia. E eu não te mereço! Mas se quiseres, hei de te dar o melhor de mim. De minha razão. De minha loucura."
E, após dizer essas palavras candentes, beijou profundamente os lábios, o rosto, os olhos lavados de lágrimas, o rosto de Renata.
A jovem parou de chorar. E gritou:
"O que há contigo? O que há contigo?"
Joana parou de súbito, como se uma flecha penetrasse em seus ouvidos. Um longo silêncio cresceu na sala. Lá fora, a tarde começou a dormir, para a entrada da noite.
Renata, muda, mortificada.
Joana pediu, implorou, clamou por perdão, rompendo o silêncio brutal da casa. A penumbra ia cobrindo os móveis. As horas pesavam no silêncio de Renata.
Mas Renata ergueu os olhos. E uma misericórdia imensa surgiu em seu rosto, iluminando a quase escuridão. E ela abraçou Joana, e beijou seu rosto, beijou seus olhos, beijou as lágrimas que escorriam. E beijou a boca. As línguas em incêndio. A casa na penumbra, as duas foram para o quarto, e lá se despiram e se amaram por uma, duas, três horas.
Joana dormiu. Linda em seu sonho infantil, dormiu. E nem viu quando Renata se levantou e se vestiu e beijou o rosto da amiga e saiu.
E foi a única vez.
Renata viajou. E sumiu no lago da memória.
Joana conheceu Venceslau e, para o júbilo da família, começou um namoro, casou, teve dois filhos e foi infeliz para sempre.
Mas sempre sorrindo. Falsamente.