AS MARCAS DE NOSSO TEMPO

AS MARCAS DO NOSSO TEMPO

SEGUNDA-FEIRA:

Constatei que a poesia está amadurecendo e pronta a dar frutos; Mas não quero imaginar que uma viagem possa ser fatal quanto a rumos a seguir.

Na busca do pão senti cheiro de queima, era o lixo que queimava nas calçadas, pois os lixeiros estão em greve e o prefeito não compareceu na assembléia geral. Apareceram os bombeiros pra que o fogo não se espalhasse.

Lembrei do Galo Fino, Quisuco e suas vidas que se resumem em resumo.

Pensei em escrever sobre Vera Inocência e o amigo Luiz Henrique, mas acabei lembrando Íris e as músicas antigas do Raimundo Fagner:

“Tenho o mesmo segredo

Dos malditos solitários

Só a noite é minha amiga

A quem friamente confesso

A natureza noturna

Dos meus infernos diários...”.

A Dona Paula estava um pouco irônica. A Dona Sílvia estava como sempre. A Neca fez batata-assada e a Dona Eva folgou. O movimento foi calmo e os castelhanos já não atacam. O fantasma do restaurante não se manifestou no depósito acima da cozinha e todos estavam calados a observar cartas de baralho pela mesa.

Passei um pedaço da noite a cuidar o telefone, pois hoje é 11 de abril e ele tocou uma, duas, três vezes, só que não era pra mim.

Comentamos sobre a morte estúpida de Lúcio Flávio que buscava inspiração à arte. Seria um pintor no México?

As pessoas caminham apressadas e suas fisionomias são diferentes. Cada olhar, cada passo, cada sorriso, cada vida, cada pensamento, cada particularidade... E se misturam numa multidão imensa que não sente o fim do dia. Queria eu dizer-lhes: Veja, este dia foi engolido pelo tempo; mas ninguém me ouviria. Não há tempo aos poetas? Mil perguntas no ar. Será que bailei como uma dama num tango em Buenos Aires? Por que não escrevestes uma só linha?... Ninguém responde. Por quê?...

O tempo não para. Ninguém segura ele. O tempo galopa como um corcel selvagem. O tempo às vezes me parece um bêbado do infinito. Não sei por que, mas parece.

Quero mais do que nunca, viajar pra junto da musa que não manda notícias e ver se os frutos podem ser colhidos sem ter-se medo de um rumo fatal a seguir.

Espero que o tempo mate esta semana de ansiedade... E logo, logo o ponteiro opaco do relógio dará continuidade ao tempo, à vida...

TERÇA-FEIRA:

Os carroceiros estão ganhando muito dinheiro em cima da greve dos lixeiros, pois o lixo se acumula nas calçadas, ruas e portas de lojas e edifícios. Desesperados os comerciantes pagam pivetes e carroceiros para que a imundície seja removida. E o prefeito nada resolveu, pois não existe dinheiro: só lixo e mais lixo.

Caminhei no mercado central e não encontrei o linguado. Nem o Jones, nem a carta ou o telefonema que não chegam. São pessoas que amam (amam?) e não mandam notícias e nem incentivo à luta do dia a dia. Não entendo este tipo de amor. Quantos tipos de amor será que existe: Será o meu tipo de amar o mais correto ou mais porco?

Agora a greve é geral em todos os setores. É paralisação total da categoria que reivindica o pagamento de cinco salários atrasados, estabilidade de um ano no emprego e o afastamento de considerados “inimigos do funcionalismo”.

Os estudantes também estão paralisados e pedem ensino gratuito. A polícia entra na guerra, mas o povo não quer mais saber de exploração.

O filho do dono do restaurante chora muito. O Adão e a Dona Paula estão folgando. Dona Silvia fará um bife, pois minha fome está aumentando. Fofinho diz que o candidato não é daqui. Neca lava os copos e vai, mais tarde, amar com o seu motorista. Dona Eva canta e pensa muito – (pensa em quê, esta cozinheira?). Ninguém me telefona. O dono do restaurante janta um bacalhau à espanhola. O dia foi de sol. Vou lavar roupas de madrugada. Um dia compro passagem e... (tenho de viajar. E como tenho). Cadáver em decomposição encontrado dentro de um poço em Capão do Leão. Os desempregados invadem e saqueiam supermercados. A fome é gigante. A terça-feira está findando. O tempo não pára. O fantasma do restaurante não apareceu. Nunca aparece; se manifesta. As flores estão dormindo. Os peixes também. Também as pombas e os macacos que se masturbam na praça em troca de balas e amendoins. O tempo é um corcel que corre, corre... Leopoldo Gotuzzo morreu. O tempo galopa e o êxito... E o êxito? E o êxito?... O êxito vem no galopar do tempo (Será?). Preciso de tempo pra cabeça e muito mais pro coração. Precisamos de tempo, de tempo, pois a caminhada da manhã foi muito apressada e os pássaros já não cantavam. Outro dia será engolido. Mais outro. Mais outro... É o tempo. É o tempo o culpado pelo caos... É o tempo?

QUARTA-FEIRA:

Fazia dois dias que eu não levava almoço à velha. Hoje levei; Velha viajada, culta, rica... Fala da Europa, da América Central (que incompatibilidade), e tem Paris como sobremesa. E diz que Londres é como São Paulo e que Paris é como o Rio. Alegria, alegrias... E um dia tudo termina. Solitária não vê o tempo passar como nós, os sedentos.

Quando passei pela praça observei que centenas de desocupados estavam prostrados sobre bancos. E não foi preciso ler jornal pra saber que a greve continuava.

Hoje teve um grande almoço de banqueiros. Gente do governo. Culpados como o tempo. Velhos de ternos e gravatas. Mulheres pintadas e transbordando vaidade. Bacalhau à espanhola... Vinho. Muito vinho... E os índios (os donos da terra) comiam maçãs e vendiam seus artesanatos no calçadão. Quem vai pagar a conta? Quem? O povo? O governo? Os banqueiros? ... E quem vai pagar a folga da Dona Sílvia que foi sacrificada? Quem? Quando chegará àquela carta ou aquele telefonema? Quando? E a minha passagem quando virá? Quando? Por que o homem é uma besta e financia estas imundícies de guerra? E porque o homem manipula a história da civilização? Há história certa, verdadeira? Quem dentre nós terá o símbolo da besta? Quem terá o símbolo da besta apocalíptica? Quem?... E são mil perguntas no tempo e o tempo se faz culpado. Será ele o culpado? Será o tempo? E eu não sei. Só sei que o mundo dos Democratas e o mundo dos Socialistas vão falir e o Cristianismo virá à tona sem aquela bola de neve que envolve todo mundo. Bobagens. Bobagens, leitor.

As lojas cerram suas portas. Toda a polícia está alerta com rádios e viaturas. A polícia civil mistura-se com o povo; são os corruptos, as bestas, os hipócritas... Os estudantes se dividem e não sabem o que querem; segue greve ou para greve? O lixo está na rua e o funcionalismo não abre mão. Aos poderosos só resta o medo. Mas o povo aos poucos se dispersa e sinto que a quarta-feira chegará ao fim com os poderosos com medo do povo e o povo com medo dos poderosos. “Quem pode mais?” Como vou sair daqui? Nem mesmo o grande movimento me forneceu a passagem... Estou cansado, cansadíssimo e perigo explodir. (Eu explodir?) E o tempo segue agora. Quarta-feira vai embora. Vai embora sem demora, quarta-feira vai embora... E o barbeiro diz que eu sou louco e eu respondo pra mim (pois se respondo pra eles estou despedido) que os loucos são eles que não carregam engradados e nem esperam o tempo. E quem disse que as flores não choram? E o piso se enche de prantos. São os cravos; saudades da rosa.

QUINTA-FEIRA:

Neca folgou; deve ter feito muito amor com seu motorista cheio de ânsia.

Quanto mais o dia se aproxima mais a gente sente o dia se afastar, foi o que eu disse a um japonês que sonha em ser um grande engenheiro. E o dia e o tempo não são tão culpados como eu pensava, pois é o homem que se faz besta.

Quanto mais uma raça se aperfeiçoa, mais imperfeita ela fica; filosofo novamente para o japonês que estuda cálculos. Hoje o dia é de filosofia? Não quero saber. Não quero saber aonde vou, é muito cedo, canto.

Estive prostrado no vaso, no trono, e me lembrei daquele maravilhoso show do Gonzaguinha. Uns não gostaram e acham que ele é estúpido, comunista... Que atraso; Que atraso destes uns; Mas a vida continua. A fome continua. A greve continua. O lixo está nas ruas. O prefeito foi pedir auxílio no restaurante onde o filho do patrão chora muito. A vida continua. O tempo continua comendo os dias e nunca engorda. Ou melhor, acho que engorda e também acho que um dia vai explodir de tanto dia comido. Já não sei mais se aquela carta ou telefonema chegará. Já não sei mais se ela me ama e se me chama pra junto em seus sonhos loucos como os meus. Já não sei mais qual o rumo a tomar pras casas. Já não sei mais quanto tempo suportarei o tempo que às vezes é culpadíssimo e que noutras vezes se inocenta como uma borboleta. Quem é o culpado? O homem ou o tempo? Eu ou ela? Não sei; juro que não sei; Só sei que vi bêbado dormindo nas portas e menininhos fazendo fogueiras de papel na noite fria quando me retirava do restaurante onde carrego engradados e onde o filho do dono chora muito. Será medo? Será de medo?

As mulheres e meninas desfilavam pelas ruas. Como são lindas as mulheres. Como sinto saudades de uma mulher que me faça aquele carinho, aquele carinho, aquele carinho, carinho... E elas provocam com suas lindas pernas de amostra, e seus seios precisos e robustos. Seus rostos eram lindos e também eram lindos os seus cabelos. Como sinto falta delas? E quero mais do que nunca que a quinta-feira se desfaça; disse eu ao garçom que me contou que a mulher daquele industrial fugiu com seu motorista. Triste está ele e janta cabisbaixo e pensativo e muito, mas muito mesmo, triste.

O restaurante fecha e os cravos dormem. Os cravos não espalham o perfume que não lhes pertencem; filosofo novamente para o japonês que continua fazendo cálculos. Um bom sujeito é ele. E o predicado?

SEXTA-FEIRA:

Hoje eu folguei; justo. Caminhei pelas praças e fiquei a observar os animais que ali estão expostos; pela primeira vez vi um casal de macacos fazendo amor. O jacaré continua como uma besta apocalíptica e lerda como os passos do Adão Garção, mas sentindo muito pela extinção de seus camaradas do Mato Grosso. Já o gato-do-mato buscava ansioso uma saída e a mão-pelada prostravam-se indignado num canto; não me exponho; dizia.

Caminhei ao redor de um imenso viveiro e conversei com a arara velha e colorida. Admirei o verde quase oculto e o charme da pomba e a comparei com a mulher. Interroguei o faisão e ele disse que foi Deus quem pintou suas pernas. Eu quis saber por que a caturra fugia do azulão, mas os marrecos não souberam responder e se jogaram na água. E antes que eu me retirasse sem dar tchau ao jacu, ao gambá, ao ouriço e a capivara e a todos os outros animaizinhos, as seriemas cantaram e a orquestra toda acompanhou. Deus era o maestro;

Até hoje nunca tinha chorado frente a uma tela de cinema e olha que já vi filmes tristes e românticos como água. Mas o “Pra Frente Brasil” misturou o meu riso ao meu choro e eu solucei com aquilo tudo e ainda há quem diga que o cinema brasileiro não presta e que tudo aquilo era ficção. Pobre destes; tão pequenos que são.

Telefonei para casa e contei do filme para meu pai que está longe e que muito me pede para que eu volte. Falei com minha mãe e com meu irmão que não larga o piano, e também com o outro que não sai da frente do som e também com minha irmã que está feliz porque está de namoradinho. Senti saudades deles e acabei por desligar.

Não sei se o filho do patrão chorou muito. Não sei de Dona Sílvia, Dona Eva, Paula, Neca, Adão, Fofinho... Não sei se o fantasma se manifestou. Não sei se o movimento foi grande... Só sei que a greve continua e que o povo quer mais do que desculpas das autoridades. Os estudantes também.

A sexta-feira foi dos pássaros, dos macacos e das flores.

A sexta-feira não esperou carta, nem telefonema e nem acordou cedo. Não correu não viu o tempo passar e todos eram inocentes perante ela, a sexta-feira. A sexta-feira dos pássaros coloridos, dos bichos e das flores perfumadas da praça. A sexta-feira que não carregou engradados e que não leu o jornal. Perante a sexta-feira da voz do pai, da mãe, dos irmãos, do vento...

SÁBADO:

O sábado é sagrado; os judeus e os adventistas não trabalham (os judeus?). Eu trabalhei. Eu carreguei engradados. Eu enchi geladeiras. Eu quebrei gelo. Eu carreguei pratos, lavei copos... Suei... E o suor transbordou quando a roupa foi lavada; fui tirando-a até me ver nu diante do tanque, do tempo... E o japonês fazia cálculos.

O restaurante estava muito movimentado e o comentário na cozinha era a surpreendente fuga do fofinho com Neca para Montevidéu; Ele deixou uma família e ela deixou o motorista frustrado. É a vida; exclama Dona Sílvia sob o olhar de Dona Paula e de Dona Eva.

O filho do dono do restaurante não chorou. A greve continua. Os saques também. A fome também. E a carta, e o telefonema, e a passagem... Não apareceram.

Estou cansado, cansadíssimo e preciso viajar até meu amor. Minha alma está pronta. Quando vou? Quando vou?...

Sinto o gelo que os putos dos garçons estão me dando, mas vou me cobrar dos calos nas costas das mãos. Juro que vou. Nunca fui mau. Não sou mau. Perdoem-me, hoje é sábado, dia santo. Perdoe-me, sábado, mas vou me cobrar deles.

Quando parei pra jantar me espantei; meu sangue gelou e mudei várias vezes de cor; o antigo dono do restaurante (que morreu há tempos) desceu as escadas numa palidez absurda e perguntou se faltava alguma coisa na cozinha; Dona Eva desmaiou, Dona Paula fugiu aos gritos e Dona Sílvia viu o fantasma sumir. Adão não contia o riso e o desespero; estava louco. Os fregueses indignaram-se com o escândalo e o dono quis ver o restaurante em chamas. E eu ali pa-ra-li-sa-do. Sem acreditar.

Entre toda a correria o meu trabalho dobrou como se eu tivesse culpa da fuga de Neca com Fofinho, da manifestação do fantasma, da greve, da fome, dos saques, da podridão do homem e da insensibilidade dos patrões. Não sou eu o culpado. É o tempo; eu deveria ter dito. Mas... É o tempo?

E o sábado findou com o brilho da lua nova. O relógio me torturou e eu tive vontade de jogá-lo sete vezes na parede. Oito ou nove vezes. Mas a lua nova se fez presente e depois viria a crescente, a do meu amor.

DOMINGO:

O domingo é o dia mais triste dos solitários. O tempo se faz culpado, pois; custa a passar.

Pela manhã, manhã nublada e sonolenta, Dona Paula e Dona Sílvia viram três bestas que se dizem homens, agredirem a pauladas e pontas-pé um pobre. Coitado dos pobres. E quando a polícia chegou as bestas fugiram.

Domingo é o mais triste dos das. E o trabalho no restaurante foi intenso e cansativo. E eu senti a maior necessidade da viagem pra perto do meu amor; do sossego do carinho, do prazer, do lazer, da mulher, da vida... E acho que Deus sorriu muito no momento que criou a mulher; grande criação.

A greve continua. A fome continua. Os saques continuam... Também a exploração e eu me largamos em busca da passagem; é agora ou nunca? E na tarde de folga me larguei a lavar carro de burguês e o tempo não era culpado; lavei, lavei, esfreguei, esfreguei, lustrei, lustrei... E adquiri o dinheiro da passagem, do sonho. E quando o suor e o cansaço se faziam presentes em todo meu corpo judiado de esforços físicos, eu senti um alívio no peito quando a chuva me tocou e depois ela parou e só ficou o vento. E o tempo aos poucos se inocentava em minha mente.

Quando a noite me chegou já estava no restaurante. O fantasma tinha ido embora, mas o medo ainda não. E o trabalho foi intenso e eu servia os pratos cheio de ironia, de ódio e vontade de sair correndo estrada afora. Mas me continha, pois o tempo se inocentava e já me parecia simpático.

Trabalhei muito e uma convicção de que tudo ia se harmonizar me segurava as mãos que tinham gana de jogar pratos pra cima e cantar sobre as mesas; pisotear bacalhau, camarão e vinhos finos que me enjoavam e mostravam toda podridão daquela sociedade corrupta e hipócrita que ali se mostrava com suas vaidades.

Todos me estranharam, pois jantei distante e pensativo, como quem arquiteta um plano diabólico. Ria sozinho e a ironia já transbordava no suor que corria pela testa que aparentava ânsia, medo, raiva, loucura, vingança... E tantas expressões e vontades que se tumultuavam na cabeça, no peito... Iam explodir; explodir?

Fui o último a sair do restaurante e quando a lua passeava pelo céu tive certeza que o restaurante ardia em fogo. E tive a certeza de que era pobre e que pobre nasceu pra penar até a volta de Cristo. E a última coisa que vi no restaurante foi um cartaz com propaganda de cigarros; “As Marcas do Nosso Tempo”; e vi que o tempo não era bem inocente e nem culpado, era marcado pelas rodas do ônibus que me levou ata os braços de Cristina.

VLADIMIR CUNHA DOS SANTOS
Enviado por VLADIMIR CUNHA DOS SANTOS em 27/10/2017
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