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O TRÂNSITO DE UM CASAL

Todos os dias Hamilton passava na frente do trabalho da Malu e eles iam juntos para casa. Gastavam menos e ficavam mais tempo juntos. O trânsito sempre foi um inferno de duas horas para chegar em casa. Nesse meio tempo o casal punha sua conversa em dia ou aproveitava para aparar arestas, fazer planos e decidir assuntos pendentes. Coisas comuns, típicas entre casais. Casais normais, é claro. Gente que se gosta e que faz a sua parte na manutenção da relação.
A coisa funciona mais ou menos assim:
-”Oi querido... (beijo) como foi seu dia?”
-”Uma merda, como sempre... não sei porquê fui aceitar este emprego... devia ter estudado mais para aquele concurso...”
-”Relaxa... outras oportunidades virão...”
-”Falando em relaxar.. sala de cinema ou DVD em casa?”
-”Quê?”
-”É. Você prefere ir ao cinema ou vemos um filme em casa mesmo?”
-”Ah... tá, pode ser...”
-”Pode ser o quê?”
-”O que você achar melhor...”
-”Mas eu não acho nada. Tanto faz... só dei uma idéia”
-”Querido, vamos aproveitar e dar uma passada na casa da mamãe... enquanto isso decidimos”
-”Tinha que ser... quando casamos eu devia ter mandado você contornar a árvore do esquecimento sete vezes, que nem faziam com as escravas no Benin...(rindo) assim você esquecia a bruxa...”
-”Por acaso você está falando da MINHA MÃE?”
-”Eu?...imaginação sua...” (rindo mais)
-”Seu cínico”
-”Quem sabe, depois de passar na sua mamãe, em vez de irmos ao cinema vamos a um motel...”
-”Pode ir tirando o cavalinho da chuva, pois a minha Maria Rita você não vai ver tão cedo... chamar a minha mãe de bruxa... e ainda quer a  minha delícia particular...”
-”Que foi? Tá de TPM...” (gargalhando e batendo o carro)
-”Seu idiota... veja o que foi fazer... lá se foi minha TV de plasma... sua besta!”
-”Bom... veja pelo lado bom...”
-”Que lado bom? Você vai gastar a grana da TV de Plasma para arrumar o carro, como isso pode ter lado bom?”
-”Não vou poder ir na mamãe... pegue um taxi, que quando eu resolver isso eu te pego lá...”
-”Você bateu o carro de propósito... só para não ir na mamãe... seu monstro!”
-”Antes fosse!... só de lembrar dela perdi a mão... a simples idéia de que vou ter de aceitar aquele café aguado que ela toma e os malditos bolinhos de tempestade que ela faz...”
-”É bolinho de chuva... amor...” (rindo)
-”É, até pode ser, mas depois que cai no meu estômago vira tempestade, quase tsunami...”
-”Ih... olha! O cara tá fugindo...”
-”Maldito... deve estar sem documento ou é carro roubado...”
-”Então vamos embora daqui... eu não quero nada com bandido... depois a gente leva um tiro...sei lá... vai... vai logo!”
O destino fez com que batessem o carro bem defronte de um motel, daqueles da avenida Ricardo Jaffet. Hamilton aproveitou para telefonar, pois seu celular ficou sem bateria e a Malu esqueceu o dela na gaveta do escritório. O radiador foi furado e só Guincho para resolver. Com o trânsito que estava e devido ao seguro ser de “terceira linha”, o socorro poderia demorar até mais de hora. Malu aceitou entrar no motel, pois precisava ir ao banheiro. Providencial necessidade fisiológica que acabou permitindo ao casal um “relax” perfeito, enquanto aguardavam o mecânico. Foi, talvez, a melhor trepada da vida deles. Coisa de cinema. O quarto escolhido tinha pista de dança com luzes coloridas, muitos espelhos e a Malu estava numa fase perfeita de sua vida, digamos assim.
Aproveitaram e pediram a janta que estava incluída no preço. Strogonoff de frango, daqueles congelados prontos, servido com batata palha, de saquinho. Para acompanhar duas cervejas sem álcool.
Enquanto a comida não vinha, Hamilton deu um cochilo e a Malu foi lavar a ditacuja para depois ligar para a mãe. Quem atendeu foi a Benê, que trabalha lá desde que a Malu era criança.
-”Oi Benê, tudo bem?... chama minha mãe por favor...”
-”Ih Dona Malu... não vai dar não...”
-”Porquê... deixa de onda e chama logo...”
_”Mas é que a senhora sua mãe morreu...”
-”O quuuuuuuêêê?... amor, acuda amor... corre aqui”
-”Dona Malu... Dona Malu... a senhora ainda está ai?”
-”Como foi que isso aconteceu?”
-”Foi agora de pouquinho... eu não consegui falar com a senhora, só dá caixa postal... mas seu irmão já está vindo... o Resgate acabou de ir embora... não puderam fazer nada...” E sem conseguir dizer mais nenhuma palavra desabou a chorar.
-”Mas Benê, que estória é essa... como pode, falei com ela de manhã e depois do almoço... estava ótima...”
Hamilton perguntou aonde estava a barata que tinha que ser morta... pois se a esposa pedia socorro só podia ser por conta de barata. Assim que chegou rindo e falando bobagem já levou um copo na cabeça.
-”Tá louca mulher!”
-”Não seu imbecil. A mamãe está morta e é por sua culpa... entendeu?”
-”Perdeu o juízo de vez. Que morta que nada e depois, mesmo que estiver, qual a minha participação nisso?”
-”Você bateu o carro e se não tivesse batido, teríamos chegado a tempo de socorrê-la” (chorando copiosamente)
-”Só me faltava essa... vê se vai à merda, entendeu... você e a defunta da sua mãe... e vai logo que não te aguento mais...” (saiu batendo a porta e foi pagar a conta)
Deste dia em diante só se falaram através de seus respectivos advogados. Nenhum dos dois sabe dizer quando e aonde a coisa desandou, depois de doze maravilhosos anos juntos. Sempre teve uma rusga aqui ou outra lá, mas se davam bem, tinham gostos parecidos e faziam sexo com bastante freqüência e prazer. Os amigos não entendem até hoje.
Alguns dizem que foi o fato de não terem tido filhos, já outros acham que esta foi a sorte de ambos.
Fato é... que estas coisas acontecem.
Ocirema Solrac
Enviado por Ocirema Solrac em 23/08/2007
Reeditado em 27/02/2010
Código do texto: T620224
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Ocirema Solrac
São Roque - São Paulo - Brasil
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