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OUTROS TEMPOS

Sr. Augusto foi passar uns dias na casa da filha. Ele estava numa idade em que era necessário todos os cuidados com a saúde e o bem-estar. Sr. Augusto sentia-se bem respirando o ar puro da casa que ficava em um lugar mais afastado, onde a poluição ainda não havia dado as caras. Certo dia, após o almoço, ele folheava uns jornais sentado na sala. Sr. Augusto lia, resmungava e balançava a cabeça, negativamente, indignado com as notícias ruins. A filha chegou na sala.
“Pai, por que resmunga tanto?”
“A humanidade está perdida, nunca vi tanta violência!”
“Mas ainda existem muitas pessoas boas nesse mundo.”
“Só se for no mundo da sua imaginação.”
Sr. Augusto mostrou um jornal para a filha.
“Olha, olha só isso. Aqui nesse jornal diz que os pitbulls estão atacando as pessoas por aí.”
A filha disse:
“Os donos desses cães não tomam nenhum cuidado. Muitos desses bichos são perigosos.”
“É um absurdo! Um absurdo! E se esses animais atacarem uma criança?” Esbravejava o velho.
A filha foi para a cozinha e ele continuou lendo os jornais, revoltado com tudo o que acontecia. Poucos minutos depois, a neta dele chegou. Ela tinha 17 anos.
“Vovô comprei algumas revistas pro senhor.”
“Só espero que tenha notícias boas.”
“Tem sim, essa daqui tem ótimas reportagens.”
Sr. Augusto começou a ler a revistas e acabou cochilando. Só acordou quando a neta disse que iria à casa de sua amiga. Ele a advertiu:
“Tome cuidado ao sair na rua.”
“Por que, vovô?”
“Porque há cães ferozes atacando as pessoas por aí.”
“Onde?”
“Eu li aqui nesse jornal.”
A garota pegou o jornal e leu a notícia em voz alta:
“Pitbulls atacam as suadinhas...”
Ela deu uma gargalhada e falou:
“Não, vovô, não há cães ferozes atacando as pessoas.”
“Mas está escrito aí.”
A neta riu novamente.
“Isso aqui é quando os meninos e as meninas ‘ficam’ lá nos bailes funk.”
O velho franziu a testa como quem não estava entendendo nada.
“Vou te explicar, vô. Lá no baile as meninas ficam suadas de tanto dançar e os meninos, que são chamados de pitbulls ficam perto delas, dançando também.”
Sr. Augusto prestava muita atenção.
“Depois, o cara que comanda o som grita: Agora eu quero ver os pitbulls atacarem as suadinhas! Aí eles começam a dançar, dançar muito e é aquela loucura, todo mundo dançando, os corpos se esfregando e...”
“Ah, eu já vi isso na televisão...”
“Então, é isso que acontece.”
“O negócio é esse, então. Eu nunca pensei que se tratava disso.”
“Quando eu voltar eu te explico mais. Beijinhos!”
Sr. Augusto continuou lendo a revista. Minutos depois a filha dele veio da cozinha, com um bolo.
“Pai, fiz um bolo para nós.”
Enquanto comiam o bolo a filha dele comentou:
“Sabe que aquele negócio dos cães me deixou muito preocupada?”
Sr. Augusto comia um pedaço de bolo. Em seguida ele limpou a boca e disse:
“Eu queria voltar a ser um pitbull. Daqueles bem ferozes!”
Alveres
Enviado por Alveres em 02/01/2018
Código do texto: T6214679
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Sobre o autor
Alveres
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil
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