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UM DIA NO HOSPÍCIO

A campanhia toca.
O maldito som estridente da campanhia. Eu já havia cortado o fio dela uma vez por causa de um primo meu que insistia em tocá-la repetidamente com o intuito de me irritar. É isso que dá morar em uma vila em que 95% das pessoas são da sua família. Tchau privacidade.
É o Sid quem está na porta. Infelizmente coloquei o fio da campanhia novamente.
São 05:00 hs da manhã de uma noite mal-dormida, na qual eu quase não preguei os olhos e ouvi o tempo todo o som fugidio da televisão no fundo do meu sono atribulado, como um eco no fim de um túnel escuro. Estava completamente esgotado.
Abro a porta mal conseguindo disfarçar a minha insatisfação em acordar àquela hora. Quem mandou eu me comprometer a apanhar os comprimidos na Juliano Moreira com o Sid, e ainda mais tão cedo?
É isso mesmo, o Sid é um viciado. Um cara que já foi hippie, tomou pico, cheirou cocaína, tomou chá de cogumelo e fumou maconha até o talo. Agora tomava remédio controlado pra segurar a onda e tomava um porre de vinho de vez em quando.
Lá estava ele sério, abatido, cabelos mais curtos do que na época das loucuras, bigode de zorro.
Na verdade o cara era um verdadeiro artista que já tinha pintado quadros abstratos ou não e se mantinha como serigrafista enquanto esperava uma gorda pensão do exército porque tinha uma pequena deficiência. A primeira olhada ninguém percebia, mas era comprovada pelos médicos e ele tinha até passado por uma cirurgia quando era pequeno. Tinham arrancado metade da panturrilha dele.
Agora ele estava ali, diante de mim, visivelmente abatido, tentando se livrar de um vício que aumentou gradativamente durante anos e enfrentando a dura barra de ter um espírito jovem encerrado num corpo que teimava em envelhecer.
-Entra aí, Sid. Eu me arrumo num instante. -digo ao abrir a porta.
Ele entrou arrastando a perna lentamente, tinha um jeito engraçado de andar, balançando o corpo todo com ritmo, enquanto arrastava a perninha, uma coisa que talvez tenha desenvolvido para transmitir mais naturalidade aos seus movimentos.
-Tem um cafezinho aí, Tibúrcio?
-Tem, peraí que eu já vou pegar.
-Cara - começa ele - eu tive uma noite péssima, sentei na poltrona pra assistir a novela mas quem foi que disse que eu consegui me concentrar? minha cabeça começou a girar, eu fiquei tonto e gelado, só deu tempo de chegar na cozinha aos tropeções e pegar um copo de água pra tomar outro comprimido. Pode ter sido a sinusite, o que você acha?
Era um especialista em doenças, você podia conversar com ele horas e horas sobre o assunto.
Dei um jeito de me apressar, botei a mesma velha bermuda de sempre, a camisa velha e surrada, uma sandália que os cachorros ainda não tinham destruído e logo estávamos na rua em direção ao local onde todas as pessoas são iguais ou ao menos onde as diferenças são menos nítidas.
Depois de algumas horas caminhando sob o sol escaldante de João Pessoa e de ter conversado sobre os mais variados assuntos mas que sempre convergiam para a pensão de Sid, chegamos ao hospício, creio eu, mais barra pesada da cidade.
Logo na recepção eu já não conseguia distinguir quem era são de quem não era (será que alguém sabe, afinal de contas?) e depois de alguma insistência e de tentarmos explicar das mais variadas formas que nós só queríamos falar com a doutora pra pegar uns comprimidos, ele nos deixou entrar.
Lá dentro foi a mesma BURROCRACIA doida, falamos com uma espécie de secretária que ficava com uma máquina datilográfica na entrada, pegamos uma ficha e nos sentamos em meio aos loucos para esperar a nossa vez. Tínhamos que falar com um médico pra obtermos um receita e só assim receberíamos os comprimidos na farmácia. Tanto protocolo, quando na verdade qualquer pessoa, doente ou não, pode conseguir facilmente todo tipo de remédio controlado inventando a mentira mais esfarrapada possível.
Sid se encontrou com um cara, amigo seu.
-E aí meu velho quanto tempo? Fala todo animado.
-É faz um tempão mesmo. Eu já tentei me matar duas vezes desde o último dia que a gente se viu -(A cara desse rapaz, do qual eu não me lembro o nome, era de uma total apatia e desilusão, como se tivesse levado um tiro meses atrás e tivessem esquecido de enterrá-lo).
-Foi mesmo? Sid tenta passar um ar de comoção no seu semblante - Eu também não tô nada bem, cara. Já faz algum tempo que eu não levanto.- Baixa a cabeça e fica um momento olhando pro chão, talvez numa tentativa de animá-lo, mostrando que existem coisas piores na vida que o suicídio.
-Passa lá em casa, eu preciso conversar com você. - (Agora o cara estava todo euforia, se sacodindo todo, gesticulando em excesso, como se tivesse apertado um botão no seu cérebro onde estava escrito: pra cima, avante, rotação total e que ficava logo ao lado do pra baixo, fundo do poço, depressão geral.
-Hoje eu vim aqui pra aumentar a dosagem. Eu tô que não me aguento - disse sem nem respirar, uma baba de cuspe escorrendo pelo canto da boca.
-Toma meu telefone. Me liga assim que puder. -(entrega um pedaço de papel higiênico com alguma coisa escrita dentro pra Sid)
De repente escuto a voz da enfermeira: é a vez de Sid ser atendido. Eu tento segui-lo, o cara me segura pelo braço.
-Ei, por favor, me ajuda!
-Em que? -Digo tentando acalmá-lo.
-É que eu tô pensando mesmo em me matar, cara, e se vocês não ligarem pode ser tarde demais. Tá vendo esse banco aí? - (Aponta pro banco onde estávamos sentados) - às vezes a vontade que eu tenho é pegar um banco desses, levar lá pra praia e, com uma vassoura nas mãos navegar até onde puder. Só com o meu kit de comprimidos na bolsa.
Depois dessa eu prometi veementemente que vamos ligar pra ele assim que pudermos, escapo dele e entro na sala do médico antes que outro doido apareça e dessa vez me convide pra passear na sua canoa imaginária.
Não ligamos pra ele. Até hoje eu não tenho notícias do cara. Talvez tenha mesmo se matado. Talvez, não. Quem se importa?
Abro a porta e sou logo interrogado:
-Você é o rapaz que veio acompanhando este homem?
-Sim, sou eu.
-Pode entrar.
Arrasto uma cadeira que estava numa mesa ao lado e me sento.
Quando entrei eu não havia percebido, mas o médico foi tirando o braço lentamente de um dos bolsos e de repente começou a exibir um cotoco, que muito bem escondido naquele bolso dava a falsa impressão de um braço perfeito.
-Tá vendo esse braço? - (Levantando ele pra mim) - Eu sou assim desde os 05 anos de idade quando aquele maldito ônibus passou por cima da minha mão enquanto eu brincava de bola na frente de casa. Esmagou tecidos, ossos,artérias e tudo mais que havia nela. Só restou esse cotoco pra me lembrar de como eu tive sorte por não ter sido o corpo inteiro.
Eu só olhava pra ele atônito esperando a explicação final daquele discurso escatológico.
-Antes de você chegar aqui, o seu querido amigo me explicava a respeito da dificuldade de se ter uma deficiência hoje em dia, como sempre foi difícil pra ele entrar na piscina ou no mar quando era pequeno ou mesmo caminhar entre as pessoas com a sua pequena deficiência. E o mais tocante de tudo foi quando ele me falou da parte de como era difícil arrumar um emprego com tal deficiência.
Eu apenas consentia com a cabeça pra participar de alguma maneira daquele monólogo.
-Quando ele chegou aqui - continua - eu mal acreditei que estava diante de um deficiente. Pedi que ele desse duas voltas na sala. E ainda me disse que quer uma pensão. Ora merda, se deficiência fosse doença, eu não estaria aqui diante dessa porra de mesa! Vai trabalhar, vagabundo!
Depois desse tiro de espingarda calibre 12, prescreveu, trêmulo, a receita e entregou a Sid.
-Tá aqui! Vai te dopar! Mas isso não vai resolver teu problema não. Você me disse que teu pau não sobia, não foi? Quem sabe se você arrumar um emprego e procurar ocupar essa tua cabecinha de merda, ele não reaja? Agora, vai!
Sid, sempre de cabeça baixa e com um bico característico, que ele sempre fazia quando estava numa situação embaraçosa, começou a mover-se lentamente em direção a porta e eu, pra não perder a deixa, fiz o mesmo.
Lá fora Sid começou a praguejar e a dizer que só não virou aquela mesa e deu umas bofetadas na cara do médico em consideração a mim, porque provavelmente iam chamar os enfermeiros e ele teria que quebrar todo mundo e blá, blá, blá. Só queria ver.
Aí finalmente nos sentamos à espera da nossa vez para pegar os comprimidos.
Foi quando começou a irromper pelos corredores daquela instituição imunda um verdadeiro festival de beleza e simpatia digno de um desfile de moda, contrastando fortemente com aqueles muros descascados, aquelas paredes sujas e mal-caiadas e aquela atmosfera triste e pesada prepoderante naquele local.
Era uma aula prática de enfermagem que acabava de se iniciar naquela hora. À frente vinha a monitora mostrando os casos mais deploráveis, irrecuperáveis de debilidade mental e depois os mais amenos, que seriam os que estavam perto de nós, porque ao menos ficavam sob controle, sorriam, se comunicavam e até trocavam gentilezas.
Aas meninas que estavam ali variavam dos 20 aos 30 anos de idade, quase todas muito bonitas e esnobes na mesma proporção. Fingiam piedade por aqueles doidos pobres e fedidos, ou para se sentirem melhores como seres humanos e por isso mesmo superiores, ou até mesmo para tirarem uma boa nota na avaliação.
Distribuiam sorrisos por onde passavam quando na verdade sentiam desprezo por todos que estavam ali. Só não tinham coragem ou sinceridade suficiente para admitir isso nem para si mesmas e muito menos para os outros.
Quando passaram por mim e por Sid a monitora resolveu dar a primeira lição do dia:
-Vejam vocês todas como eles são simpáticos! Não sintam medo deles. Eles são seres humanos como nós. São pessoas ESPECIAIS. (Mais do que nunca essa palavra havia recebido uma conotação bastante simples: significava imbecil, idiota.)
Falava com um sorriso de atendente de crediário no rosto enquanto Sid comia com os olhos uma loirinha que provavelmente tinha a idade da sua filha mais nova.
-Tá vendo aí, Tibúrcio? Quando eu ganhar a pensão nós vamos sair por aí pra tomar um bom vinho tinto na praia com uma menina dessas no carro. Você vai ver só... Quando eu era mais novo só gostava de transar com meninas magras e bonitas como essa...E além do mais - completou - você viu o jeito que ela olhou pra mim? Quase me comeu com os olhos. Minha pensão tá chegando, você vai ver, cara...
A animação dele foi tanta que nem viu quando foi chamado. Corremos lá, pegamos o tão almejado comprimido e demos o fora daquele depósito onde se armazenam tantas mizérias humanas e, no entanto, não era tão diferente do lado de fora.
Geraldo Castro
Enviado por Geraldo Castro em 27/08/2007
Código do texto: T625384

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Sobre o autor
Geraldo Castro
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 38 anos
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