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PARA ALGUÉM EM ESPECIAL

Negato, saudações. Que esta encontre você bem, com boa saúde, em ampla atividade e plena paz interior.

“Hoje eu me peguei pensando em você, te amo e nem sei com eu amo. Quero não lembrar que às vezes sem querer me apanho falando em você”. Acordei com Sandra de Sá cantando Retratos e Canções, esgoelada no rádio da vizinha. Escrevo para tomar um pouco do seu precioso tempo, a música acendeu lembranças de sonhos que venho tendo. Espero não te aborrecer. Quando não escrevo me sinto incompleta. Como aquela canção do Djavan, Faltando um pedaço.

Aquela conversa de passearmos de barco pareceu-me tão real. Agora eu me sinto melhor. Estou saindo de um mau tempo. Mas não se assuste com este papo meio maluco, não vou mudar sua personalidade. Quero é viver contigo momentos de paz e alegria. Não amoldar seus sentimentos nas fôrmas do meu ego. Nosso tempo é precioso! Sabe, desde a primeira vez, senti firmeza. Você parece ser uma pessoa convicta do que fala. Só te acho um tanto amargo, crítico demais em suas reflexões. Parece franco-atirador. Nos tempos de colégio, um professor de Educação Física dizia que “Todo Escritor é amargurado, Historiador é revoltado, Revolucionário é ditador enrustido e Cineasta é sonhador. Não é o seu perfil, mas em qual você se enquadra? Um rapaz passou pelo portão cantando A Minha Alma, do Rappa: “As grades do condomínio são para trazer proteção, mas também trazem a dúvida se não é você que está nessa prisão”. Será que hoje não estamos todos no mesmo barco, mesmo em lugares diferentes?

Talvez, por conta das pedradas da vida, você tem uma visão cortante como uma flecha. Acho que te machucaram demais, né?. E pelo que me deu a entender você me via como um pássaro livre no espaço. Sem problemas ou cicatrizes que o mundo nos deixa pela estrada afora. Mas não é bem assim. Tem horas que a gente precisa relaxar, deixar as tristezas de lado, soltar o corpo em passo de dança e viver o presente. Onde estivermos, lá estarão nossas raízes. Na minha opinião a vida é para ser vivida e respeitada. Principalmente se o momento for bom. Assim, com o passar do tempo será mais uma marca registrada em nossa vida como uma lembrança feliz. Por exemplo, você me deixou uma boa recordação daquele nosso primeiro beijo. Você me beijou com tanto gosto, como quem sentia grande satisfação em me beijar. E aquele seu jeito envolvente e carinhoso de me abraçar me levou nas alturas. Você nem imagina, fico toda arrepiada quando lembro. Ainda mais quando ouço a Rita Lee cantando “Nada melhor do que não fazer nada só pra deitar e rolar com você”.

Tempos depois, não sei porque você se transformou. Mudou num piscar de olhos. Fiquei apreensiva com seu jeito ouriço de me tratar. Talvez você conheceu alguém melhor ou eu disse algo que mexeu aonde não devia. Não sei porque, às vezes eu sinto que você foge de mim. Não consigo entender a razão. Desculpe este meu jeito de falar. Ou melhor, de escrever. Eu sempre tive pensamento aberto, livre de preconceitos. Gosto de falar o que penso, que sinto e procuro dissipar dúvidas. Acho que às vezes sou um tanto dramática. Mas como dizia o velho Chacrinha “Eu vim para confundir. Não para explicar”. Se bem que no nosso caso eu tento fazer justamente o contrário.

Ia me esquecendo estou aqui no jardim da minha casa, sentada naquele banquinho, ouvindo músicas, vendo as crianças brincando na rua e escrevendo, apoiada num pacote de livros. Estou num bom astral. Gosto de transmitir alegria e bem-estar para quem estimo. Não mais problemas como prefere a maioria. Já basta o dia a dia. Desculpe se te aborreço. Esta não é a minha intenção. Já disseram que você é um pedaço de mau caminho? Tesão. Você não me chama de gostosa? Não sou Alcione, mas aprendi com você, Meu Ébano, "Moleque levado, sabor de pecado, menino danado, fiquei balançada, confesso, quase perco a fala com seu jeito de me cortejar, que nem mestre-sala". Espero que você me escreva. Seja lá o que for. Admiro a sua sinceridade, a gente precisa confiar em alguém. E eu gostaria que uma dessas raras pessoas fosse você. Posso parecer chata, orgulhosa, mas não sou nada disso. É que eu às vezes chego nos lugares, tipo aquelas rodas, e quando a gente não sabe o quê falar, em vez de falar o que não deve, desconhece ou não diz respeito, eu prefiro apenas ouvir e observar calada. Eu quero, ou melhor, peço que você nunca tenha receio de mim. Não sou uma pessoa ruim. Apenas brincalhona, porém séria e compreensiva quando é preciso. Claro que tudo tem o seu limite. Sabe, eu penso muito antes de dizer qualquer palavra. Seja aquela que vou falar ou que vou escrever. Não gosto de cometer injustiças, nem de provocar mal-entendidos. Ossos do ofício. Um erro pode ser fatal!

Quero que saiba, não sei se vai ser uma pluma ou uma pena: eu gosto muito de você. E sem interesse. Sou mulher suficiente pra me sustentar. Você mora na Cidade Tiradentes do meu coração e não paga imposto. Sabe aquele samba da Leci Brandão, “Eu só quero te namorar, deixa eu te abraçar, deixa eu te beijar”? Como não gosto que insistam quando não estou afim, não vou insistir com você. Te desejo tudo de bom. Se conselho fosse bom vendia-se até pelo crediário. Mas digo pra você que trabalhe com afinco e leve adiante seu propósito de voltar a estudar. Lá no trabalho, tem uma colega devoradora de cursos. Ela comenta que quando teve oportunidade não teve ambiente; quando cavou estrutura não teve apoio. Agora ela tem os quatro e ninguém a segura. Que saia da frente quem não quiser ser atropelado. Vá, meu preto, vá com fé e determinação que você chega aonde almeja. Só espero não se esqueça de mim. E me escreva. Quero ter recordações suas para me fazer companhia quando você não estiver comigo.

Se bem que por outro lado eu penso que ninguém é propriedade de ninguém. Mas vou adorar e me sentir muito feliz se este nosso caso se casar. Porém reafirmo que só vou me sentir feliz se você estiver feliz comigo. Não quero nada forçado. Sabe, pode parecer piegas, mas eu queria tanto poder viver um grande amor com você! Às vezes eu fico pensando que se um dia tivermos o nosso cantinho, se depender da minha vontade, os nossos convidados seriam aqueles que realmente são nossos amigos de verdade.

Em relação aos sonhos contigo, eles continuam. O que tive a noite passada e hoje de manhã quando fui acordada pelo rádio da vizinha no talo (casa geminada é f...), eu não vou contar porque é proibido para menores de 80 anos. Imagine. Sinta... Quanto àquilo que você me disse sobre restaurantes e outras coisas mais são bobeira. Eu não estou exigindo nada. Não faço questão de luxo. Gosto da simplicidade. O importante é a confiança, a paz de espírito, este carinho que a gente tem um pelo outro. Saio sempre que tenho uma folga. Mas acredite, eu falo bem alto pra quem dá em cima de mim, algo como aquele samba do Partido em 5: “Eu não troco a minha preta pela preta de ninguém”.  Passeio pelas lojas blacks da 24 de maio, vou a bailes, seja do Musicália ou dos Carlos só pra descontrair, esquecer por algumas horas, cenas que vejo no trabalho. Embora eu esteja acostumada a lidar com doentes, têm coisas que mesmo não querendo marcam a gente.

Mudando de assunto gostei dos livros. Nesses tempos de pacote disso, pacote daquilo que não levam o povo a lugar nenhum, somente engorda os porcos do poder, ganhar um pacote cultural é sem comentário. Gostei de todos. Consciência Negra no Brasil: os principais livros, Cuti e Maria das Dores Fernandes. Impressionante. Obras de tanta gente que nunca ouvi falar. Estou envergonhada pela minha ignorância. Acho que os livros de história precisam ser escritos outra vez. Se bem que na prática não acontece o que se prega na teoria, faço minha as palavras dos autores no último parágrafo, pg. 19:

Acreditamos que atividades semelhantes a estas possam ser desenvolvidas entre amigos, na família, na escola, nas diversas associações culturais, sindicatos, etc e constituírem momentos fecundos de interação entre os participantes, momentos capazes de revelar que um simples livro pode iluminar o sentido da vida de cada um e ser um passo para a solidariedade humana.

Adorei um poema em Terceiro Filho, de Geni Guimarães, Falando de Amor, pg. 67:

Respiro amor.
É que ele tem sintoma de riso,
E o riso dá-me uma vontade imensa de amar.
Quero morrer de amor e continuar amando,
Para ser eterna nos corações falidos,
Que não podem como eu querer até cansar.

Paixões Crioulas, de Márcio Barbosa é um tanto sangrento e exagerado. Se bem que cinematográfico. Aquela passagem na pg. 47, do homem preso no guarda-roupa, me lembra alguns pacientes em estado terminal.

(...) o homenzinho olhou seu próprio corpo magro, completamente mudado para um tom escuro. Não o reconheceu. Sentiu saudades do tempo em que era branco. Um branco meio manchado, é certo, mas um branco. “Nunca pensei que iria virar crioulo”, dizia-se às vezes. Mas não era um negro. Era apenas um monte de ossos e pele amarela salpicada de enormes pontos pretos, agonizando no chão. Há muito não tinha forças nem para se levantar, nem para defecar, urinar, nada.

Cada livro desse pacote dá a impressão de que algo está indo para frente, foi dado mais um passo, subiu-se mais um degrau. Eu não entendo nada de literatura e dessas conversas de movimento. Apenas sou uma pessoa que gosta de ler e dei a sorte de me apaixonar por alguém amante da arte, filosofia e rádio CBN. Algo raro entre a nossa gente. A maioria prefere barzinho, samba, esporte, baile, religião, Transcontinental FM... Se bem que cheguei a pensar que você que você não era muito chegado na fruta. Agora sou eu quem quer ficar na sua cesta. Achei o maior barato este trecho, pg. 15, de Malungos & Milongas, da Esmeralda Ribeiro.

Naquele momento um click pareceu iluminar a sala vermelha e os sonhos, sem nenhuma cautela, foram expostos ali na mesa. Os desejos estavam todos no projetor da memória:
Carlos Gabriel via-se sentado ao piano de cauda Fritz Dobbert, tocando músicas de Oscar Peterson e Herbie Hancock. Seus dedos involuntariamente dedilharam uma melodia sobre a mesa de reunião.
No mesmo instante Marta respirou aliviada, não trabalharia mais após o expediente no magazine, como vendedora. A chave de seu escritório particular reluzia entre as imagens da sala.
Mauro sonhava em produzir seu livro (com textos e material fotográfico) sobre as escolas de samba no Brasil.
Ruth poderia continuar com a idéia de formar uma poupança escolar para o negro. Um círculo aberto para todos. Um sonho que a acompanhava havia muitos anos.
Todos esses ideais circulando na mesa fizeram com que se perdesse o contato com o tempo.

A Esmeralda, pelo que li, parece ser uma menina que tem garra. Promete. Não que vocês homens não tenham garra. Se cumprir será mais um ponto marcado no placar das mulheres. E eu terei um motivo a mais para me sentir feliz por ser mulher. Não estou sendo feminista. Acho que em breve escreverei direto, comentando mais a fundo, querendo saber mais. Você me consegue o endereço deles?

Sobre o cancelamento da nossa ida ao litoral eu não tenho hábito mesmo. Sou mais de mato do que de praia. Adoro verde! Prefiro chuveiro, banheira, lagoa, cachoeira ou como canta a Vanessa da Mata "O que a gente precisa é tomar um banho de chuva" pra lavar as demandas que rondam nosso amor. Ficar toda salgada, meu doce, não faz muito meu estilo. Deve ter surgido algum imprevisto que o impediu de cumprir a sua palavra. Não fiquei chateada. Talvez um dia, quem sabe, você reserva um tempo todinho pra mim. Está vendo, tenho imaginação fértil e escrevo demais. Isto tudo está mais para jornal do que pra carta. Algo jurássico nestes tempos de contato virtual. Confesso estar admirada e ao mesmo tempo envergonhada. E não escrevi tudo que desejava escrever. Quando a gente gosta de alguém parece que nada no mundo tem limite. Você também é assim? Quanto ao seu presente, ele já está guardado. Só não vou dizer o que é pra te deixar curioso. É algo que você comentou e eu acredito que você merece receber. Paro por aqui, antes que eu comece outra folha, com o Carlos Dafé cantando: “Venha matar saudades, mas venha pra ficar!”

Um beijo no seu coração, fica com Deus...

Dádiva



OUBÍ INAÊ KIBUKO
Enviado por OUBÍ INAÊ KIBUKO em 08/09/2007
Reeditado em 15/12/2007
Código do texto: T643674
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Sobre o autor
OUBÍ INAÊ KIBUKO
São Paulo - São Paulo - Brasil, 62 anos
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OUBÍ INAÊ KIBUKO