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Uma noite na Midnight Street

Ela dançava no Recanto da Serpente e eu tomava sempre meus tragos na terceira mesa. Tomava sempre a mesma coisa usava sempre a mesma camisa pra ver se ela me notava. Porra nenhuma. Quando ela acabava seu trabalho, eu pagava o garçom e me mandava para casa, botava meus clássicos para rodar e curtia minha fossa desvairada. Ela se chamava Melissa. Tinha os olhos mais lindos  do mundo e um corpo tão perfeito que dava a entender que algumas mulheres não deveriam sair nunca pelas ruas. E vou te falar, rapaz, ela me deixava tão excitado que eu não conseguia evitar uma punhetinha discreta sobre a mesa. Algumas mulheres têm esse efeito poderoso sobre alguns homens como eu. Solitários, egoístas e altamente dependentes emocionais. Gente que gasta seu tempo em boates, bebidas e tem como principal diversão a masturbação e o amor platônico.
Foi depois de ver Melissa desaparecer por detrás das cortinas azuis, que chamei o Juliano, o garçom, para pagar a conta e me mandar. Depois que certas coisas na vida se tornam um hábito, elas se tornam parte de você e qualquer coisa que ultrapasse a linha do aceitável já é o suficiente pra se  entrar numa aposta alta. Tinha um cara no outro lado do salão totalmente sem classe. Um pulha que não sabia apreciar a arte e o que a natureza cria de forma tão perfeita. Ela rebolava. Ele gritava. Ela dava um giro e jogava suas pernas pro ar. Ele xingava. Ela agarrava com vontade o mastro. Ele comparava-o ao seu membro.  Num momento qualquer fiquei muito bravo com o cara. E pedi pra ele calar a boca. Imediatamente ele saiu da sua mesa e veio pra cima de mim feroz feito um leão indomável. Mas continuei bebendo sem tomar conhecimento do fulano. Então ele me deu um tapa na cabeça. Ela foi para frente e voltou pro mesmo lugar. Senti um zunido engraçado no ouvido. Por um instante todo mundo parou, inclusive Melissa. A música continuava tocando e ao perceber que eu era um idiota, ele voltou para seu lugar e me deixou em paz. Provavelmente Melissa achou minha atitude nobre porque antes de deixar o palco ela veio pra cima de mim e me deu um beijo gostoso na testa. Caramba me pegou de jeito a garota. O sujeito ficou murcho no seu canto. Aí  pedi outra saideira paro o Juliano e me mandei.
Que noite. Um beijo de Melissa bem na testa, ia ficar um ano sem lavar a cabeça de certo. O lugar em que ela me beijou ficou mais quente do que onde levei o tapa. Na rua estava quente e abafado. Não havia vento. Mesmo perto do estuário não ventava. Resolvi tomar outro caminho para casa ao invés do habitual. Eu ia andar um pouco mais, mas queria curtir a noite. Sonhar com Melissa e quem sabe me acabar na banheira ouvindo Mozart me deliciando com a mão sobre meu pênis. Fui pela entrada dos funcionários. Sei lá, a sorte estava tão grande que eu poderia dar de cara com ela outra vez e tomar coragem para um chope. Ao passar pela entrada de funcionários encontrei o Bandite um segurança negro que me conhecia de outros bares. Me cumprimentou com gesto quase insano com sua cabeça raspada. Virei à esquerda e segui meu rumo até em casa. Alguns metros depois, num canto escuro, percebi um casal discutindo. Pensei logo que era uma puta e seu cafetão lhe dando uma bela coça e obrigando-a dar sua parte no último serviço. Baixei um pouco a cabeça como quem diz “isso não é problema meu” e acelerei o passo para não me comprometer com nada. Mas aí o velho hábito que herdamos dos nossos ancestrais primatas; a curiosidade maldita que nos faz esquecer da prudência, me fez levantar os olhos e percebi que a puta não era puta e sim Melissa. E ao seu lado, segurando seu braço o sujeito do bar. O Lenny Grandão.não pensei duas vezes. Em mim, tudo bem, eu agüento. Nela não.
- Larga o braço dela, cara.
Ele olhou para mim como quem olha um inseto insignificante. Dava para sentir o cheiro do álcool a quilômetros.
- Se  manda panaca aqui é coisa de casal.
- Não estou vendo um casal. Estou vendo um idiota sem pai que comeu a própria mãe numa noite de inverno.
Ele veio para cima de mim mais furioso do que na boate. Bufava de verdade. Seu corpo duplicou de tamanho na frente da luz fosca do poste. Melissa soltou um “não” na esperança de evitar os dois socos do qual um escapei ileso; o outro me acertou o baço e eu caí.
- Vou te afundar no concreto, babaca.
Ele veio pra me afundar, mas Melissa pulou sobre ele. Nas costas. Então ele se perdeu. Foi minha chance. Juntei um pouco de tudo, força coragem e idiotice. Acertei-lhe os bagos. Ele dobrou os joelhos. Com Melissa em suas costas o peso dobrava também e ela caiu no chão e não pude desperdiçar a chance. Como Sugar Ray Leonard, disparei uma seqüência louca de socos e quase arrebentei minhas mãos. Quando terminei, estava ofegante. Fazia tanto tempo que eu não brigava com alguém que perdi a pratica. Sentei na calçada bastante ofegante olhei para Melissa e vi uma expressão horrorosa em sua cara. Depois olhei para o Lenny e entendi o motivo. O Lenny Grandão estava todo estourado. Caprichei na medida.
- Vamos dar o fora daqui antes que suje para gente.
- Para onde vamos?
- Para minha casa.
Eu moro num pequeno cubículo que o pessoal insiste em chamar de quitinete. O pessoal que eu digo é o Diego, o vendedor de bugigangas do 16 que vive enchendo meu saco pedindo cigarros, o Quino, o zelador e o Haroldo, a bichinha do 38. O resto de malucos que conheço, perco pelas valas das ruas esquecidos como indigentes. A maioria deles eu nem consigo lembrar o nome. Fora as teias de aranhas presas nos cantos das paredes e as rachaduras, até que minha caixinha era legal. Meio suja, mas legal. Quando entramos, a primeira coisa que ela queria providenciar eram os curativos.
- Fica fria, eu estou legal, Melissa. Eu preciso mesmo é de um bom trago. Tem vinho com pêssego na geladeira. Você quer?
- Será que o Lenny morreu?
- Não sei. Acho que ele é muito grande para morrer daquele jeito.
- Eu estou  com medo.
- E eu estou com sede.
- Você não devia ter batido tanto.
- Ué, você queria levar porrada dele, é? E depois era ele ou eu.
- Ele não ia me bater. Ele queria só um beijo.
- Ah sim. Um beijinho. Você é uma lady, Melissa. Uma artista, saca? Não tem que passar por isso. Você quer um drinque ou não?
- Está bem.
Fui até a geladeira e peguei o vinho, dois copos e gelo. Servi nós dois e sentamos no sofá. Ela numa ponta e eu na outra. Houve um longo silêncio. Um abismo entre nós dois. Nem parecia aquela dançarina envolvente do Recanto da Serpente. Nem parecia que eu estava tão louco por aquela mulher. Nem parecia nada. Então ela resolveu abrir a boca.
- Acho que você o matou.
- Não matei ninguém não consigo matar nem barata. Toma a sua bebida, vai.
- Você bateu tanto nele.
Eu não disse nada. Tomei o vinho num gole só e enchi o copo outra vez.
- O que a gente vai fazer agora?
-  Não sei.
- Vou chamar uma ambulância.
- Não precisa. Alguém encontra o cara. Toma outra.
Ela tomou. E eu acabei o meu e enchi o copo outra vez. Ela parecia nervosa.
- Escuta Melissa, que tal um beijo?
- Não estou bem.
- Esquece isso. Vamos fazer o seguinte: você me beija, eu te  beijo. Depois a gente dá uma bacana.
Então fui para cima dela. Dei-lhe um beijo. Deixei minha  língua cair funda em sua boca. Ela retribuiu. Quando percebi já havia tirado quase toda sua roupa. Havia tanto tempo que não  tinha uma mulher em minhas mãos que  se eu pudesse partiria Melissa em duas. Mas de repente ela levantou-se abruptamente.
- Que foi?
- Não posso. Preciso saber do  Lenny.
- Aquele veado já deve estar todo fodido agora, beleza.
- Eu preciso ir lá vê-lo.
- Porra,  ponho o meu rabo na reta e você quer se livrar fácil. Acho melhor você ficar.
- Acho que não.
Melissa colocou a roupa e estava ajeitando o sutiã. Peguei firme em seu braço. Ela se desvencilhou. Peguei outra vez e mais forte. Ela me deu um chute nas minhas bolas. Caí no chão gemendo de dor. Ela foi em direção da porta porém acabou se enrolando com o molho de chaves e o chaveiro da Mclaren que eu tinha prendeu em seu dedo. Consegui me levantar e fui para cima dela de novo. Puxei-a com força. Seu dedo estava preso ao chaveiro e conforme ela veio senti o som de um osso se que se quebrando. Melissa gritou. Era uma gata selvagem. Não estava disposta a desistir. Peguei forte em seus cabelos negros. Ela se debatia. Pensei que estava com ela sob controle, então ela pisou em meu pé esquerdo. Outra dor dos diabos. Apertei os olhos. O dedão tinha uma unha encravada. Curvei-me. Afrouxei a pressão sobre seus cabelos e ela acabou se soltando. Quando abri os olhos ela tinha alguma coisa nas mãos e me acertou em cheio na cabeça. Cai. Depois disso não vi mais nada.
Acordei com alguém me empurrando. Era o Diego. A cabeça doía. Tentei me levantar, mas eu não consegui de primeira. Eu parecia um joão-bobo bêbado cheio de uísque no rabo. Era dor, dor, dor, e um zumbido desgraçado parecido com um sino de igreja. Consegui sentar no sofá. Joguei o corpo para trás e fiquei lá. Dez minutos perdido no tempo.
- Noite ruim? – perguntou Diego.
- Das piores.
- O que houve?
- Briguei com um gorila, depois com um tigre.
- Bichinhos danados.
- Éééééé.
      - Tem um cigarrinho aí?
- Não.
- Ah, droga, preciso de um trago urgente.
- Eu preciso de uma bebida.
- Quem era a dona que saiu?
- A dançarina da Toca da Serpente.
- Sério?
- Já menti para você antes?
- Já.
- Vai se foder.
- Comeu ela?
- Não.
- Não?!
- Não.
- Hum.
- O quê?
- Pensei que você ia conseguir dessa vez.
- Não consegui.
- Você nunca consegue Herbert.
Silêncio.
- Qual é o teu problema afinal? – continuou Diego.
- Não sei. Sou muito estúpido. Acho que vou me acabar nos cinco dedos.
- É possível que você acabe mesmo é matando alguém qualquer dia desses e se dê muito mal.
- Não mato nem barata. Quer um cigarro?
- Ué, você disse que não tinha.
- Estava brincando. O tempo todo eu estava brincando.






             



FERNANDO COSTTA
Enviado por FERNANDO COSTTA em 09/09/2007
Código do texto: T645175

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Sobre o autor
FERNANDO COSTTA
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 41 anos
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