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O Homem Estranho

                Era uma tarde comum como todas as outras: quente, escaldante, seca e avermelhada; um sol para cada sobrevivente. Parecia até que o inferno era ali pertinho. O chão era a própria chama, árvores amortalhadas, animais castigados, a vida sendo destruída; tudo derretendo.
               Os sobreviventes daquela tarde já não reclamavam, acostumaram-se com o suor escorrendo em seus queimados corpos, a encharcar suas roupas, a embaçar a visão.
                E a bodega estava cheia naquele dia, parecia um formigueiro. Só que, no lugar da inquietação que contamina as formigas, havia apenas homens estapefados, sonolentos e embriagados. Eram figuras de todos os tipos, seres inertes ao mundo lá fora, cheiravam mal e estavam pessimamente vestidos. Comiam tira-gostos impregnados de sal, que desciam dolorosamente a goles repetitivos da cachaça. Tudo isso de uma forma monótona e desprezível.
               A bodega, pequena, abafada, insípida, era ainda mais repugnante. O mundo ali dentro girava em torno do nada, era apenas um cubículo a mais, triste, inabitável, em constante ebulição. Uma lacuna sem vida, que abrigava vidas vazias.
               De repente, entrou um homem desconhecido, nunca fora visto por ali. O sujeito era magro, alto, sua estatura não seria inferior à porta do lugar, o rosto coberto por uma barba rala que lhe subia até os olhos pálidos, tão desalinhado quanto os homens que ali estavam, ingualando-se na insignificância, num acúmulo de trapos e um par desgraçado de botas, surradas e empoeradas assim como aquele lugar.
                Quem seria o estranho? O que queria? De onde vinha e aonde iria? Seria uma miragem? Uma assombração? Não, não podia ser de outro mundo, ou de um outro espaço além. Por mais que se avistassem ali coisas sobrenaturais, daquela vez a visão era real. A figura era de carne e osso - muito mais osso que carne. Tão verdadeira que pediu um quarto de cachaça pura. O bodegueiro não se avechou, mas botou o quarto da bebida e serviu a estranha criatura. Este, ao alcançar o copo encardido, a pinga ainda sinuosa lá dentro, arremessou fora uma quantidade calculada, que chiou ao chão lá fora, como brasa ao ser tocada por água.
                - Esta, é pra São Benedito! - exclamou o homem, tragando o resto da dose logo em seguida.
                Todos ali presentes passaram a observá-lo, comendo o visitante com os olhos. Nunca fora visto naquela bodega tamanho desperdício, jamais apareceu alguém tão religioso ao ponto de compartilhar com algum santo aquela bebida sagrada.
                 Uma sombra enfadonha cobria de fora a fora o cubículo. Apenas um crepúsculo desajeitado iluminava lá dentro, saia de uma fresta de janela e debatia-se sobre um decrépito relógio, no alto de uma parede com velhos cartazes de propaganda de bebidas, e os ponteiros iam e vinham num irritante movimento, sem qualquer esboço  para soar as horas. O tempo não passava. O mundo parecia não existir, perecia parado.
                  E, ao engolir profunda e legeiramente a sua bebida, ele voltou a pedir um outro quarto. O pesado bodegueiro, sonolentamente sem estímulos, irritantemente repulsivo, veio a serví-lo outra vez.
                 - Esta, é pra Santo Expedito!
                 O chão, lá fora, refrescava-se, sugando imediatamente o milagre vindo da bodega. Lá dentro, as míseras gotas da cachaça que eram espirradas invuluntariamente no balcão, logo eram farejadas e devoradas pelas moscas, que giravam enlouquecidamente sobre o desperdício.
                 Pediu outra dose:
                 - Esta, é pro meu São Sebastião! - e novamente os gestos anteriores  repetiam-se.
                 E mais outra dose:
                 - É a vez do meu São Pedro!
                 A atenção de todos girava em torno daquele novo ser. Ele, ali, quase imóvel, em pé, cotovelos cravados sobre o balcão, fisionomia sisuda, a dose exata e sagrada aos santos, a outra sendo tragada rispidamente. E a pedir mais:
                 - Agora, pra Santo Antônio!
                 Os mesmos gestos, mecanicamente:
                 - São João!
                 Incansável:
                 - Pro meu São José!
                 Pederam a conta de quantos foram os santos reverenciados.
                 Até que parou. Não por falta de cachaça ou de santo, talvez já estivesse cheio, até o pé da goela com a bebida. Pôs-se a retirar-se dali como entrou, mudo, misteriosamente. Nenhuma dose de palavras aos olhares curiosos e compenetrados que o cercavam, nenhum quarto de gesto que expressasse algo. Nada. Virou-se, deu as costas a todos, apenas isso, abandonando o lugar com passos tontebeantes, pondo-se para fora.
                 Ao pé da porta -  junto a um miserável vira-latas estrebuchado numa pobre sombra, com a língua à mostra, goela tragicamente em deserto, sem sequer uma mísera o sôfrega gota de bebida ou comida e centenas de mosquitos a voar em ziguezague atormentando-lhe a sua já desgraçada vida de cão, os pêlos escassos, o corpo esquelético - o bodegueiro, com toda a sua languidez trágica, gritou pelo estranho:
                - Moço, a conta!
                O misterioso personagem virou-se para o camarada à bodega e, cambaleante e saciado, disse sem ironia:
                - Vai ter coragem de cobrar santo?
                E saiu de baixo do sol escaldante, a poeira seguindo seus passos.
                - Cada um que me aparece! - reclamou o bodegueiro ao vira-latas, conformado, o bicho indiferente a tudo e a todos,sempre à sombra, num triste estado mórbido.
                Como todos os outros da bodega.


                   
 

Samuel Silva Teixeira
Enviado por Samuel Silva Teixeira em 12/09/2007
Reeditado em 13/11/2007
Código do texto: T649909

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Sobre o autor
Samuel Silva Teixeira
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil
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