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NO MEIO DO CAMINHO...

NO MEIO DO CAMINHO...Sem saber o motivo saíra de casa cedo, mas já havia sol brando pelos morros distantes que ainda se podia ver o verde carregado.A chave fizera tanto barulho no buraco da fechadura, que provocara o riso espontâneo, quase uma gargalhada.
   -Tchau, logo, logo volto – dissera, e achara ser apenas pelo pensamento, mas pode ouvir bem sua voz no espaço do quintal de cimento grosso e sem plantas.
   Ela era a felicidade sem motivo, que não sabia o motivo – depois de tantos meses dentro de casa – fizera-a sair, sair assim com tanta felicidade.Era a única bagagem, porque não esperava encontrar nada pelo caminho.
   Todavia, quando deixara o quintal, fechando o portão de madeira atrás de si, lembrou-se que o caminho era pouco reconhecível.Será que ficara tanto tempo assim isolada entre as quatro paredes amarelas daquela casa.O seu vestido anil tinha um leve embranquecimento causado pelo desuso.Ou seria mofo?Sutilmente cheirou-se pelos braços, e mesmo que identificou não se demovera da decisão.Estava decidido, decidido.E não tinha a menor noção para onde se deslocaria.
   Olhara os poucos transeuntes àquela hora acesa da tarde, e sorrira com coragem no rosto cheio de manchas brancas sobre a pele pálida.Colocara a mão sobre o alvoroço do cabelo amarrado de qualquer jeito, e prosseguira, com sua bocetinha de vinil vermelha debaixo do braço.Rumava ao ponto de ônibus.
   O caminho de ida fora fácil, porque nem adivinhava; pretendia, mas não adivinhava.A pretensão era escondida por uma surpresa de ansiedade.Sua bagagem era uma boba felicidade, uma felicidade de riso nervoso e louco.E se os passageiros de mais a olhava, ela nem era nada.Seu olhar era cuidadoso pela janela, e a vista ela reconhecera a cada progressão do veiculo sobre a rodovia.
   Paz por dentro, era muda, e tudo fervia em vozes e sopros de buzinas.Mas, a paz havia dentro dela, porque ela ainda não adivinhara, ela pretendia, mas não adivinhava.Todo cerne trabalhava silencioso, e por isto mesmo o pensamento era muito falante, e os seus ouvidos se fechavam ao som externo.
   A manhã ganhava também progressão, ela nem era de notar, porque seu pensamento a ocupava com a pretensão, a pretensão sem adivinhar.O sol ousara bater na vidraça, e apenas franzira o cenho, e aumentara ainda mais um sorriso tenso.
   Quando descera na rodoviária, procurara a cidade; procurara a cidade apressadamente, e os saltos finos, dos seus sapatos, não eram de fazer muito barulho.Ela era modesta, mas o pouco que saía economizava-lhe os sapatos, e estes eram como que sempre novos.A cidade se pedia na calçada, que era enorme e chamava-se calçadão.As lojas dependuravam seus artigos, e os vendedores gritavam chamando; poucos fingiam atender.Ela ignorara até a sede, como se estivesse ali para o que pretendia sem adivinhar.Alguns podiam enxerga-la como uma esgazeada, uma perdida e vadia.Mas, ela se retraía, sozinha ao meio do tumulto de vaivém, e repleta por dentro de vozes interiores.
   Quando chegara então no meio do calçadão, sentira um peso nos ombros, e esquecera o compromisso – se mesmo o tivera – olhara as agências bancária uma de frente a outra, com filas longas pelo lado de fora.Olhara para tudo grave, apertando muito a bocetinha debaixo do braço, e enxergava a aflição em forma de vida humana.Percebera o quanto todos eram cruéis consigo mesmo.Pretendia, pretendia sem adivinhar.Fingira, querendo não tanto fingir – porque dissera para si mesma – não estar ali para aquilo, mas não aceitara ficar naquela fila.E quase que falara para uma senhora – ao seu lado – que estava realmente na fila, que não, não enfrentaria aquela fila, preferia usar o debito automático.Rira ao dar de costas a fila e voltar – e porque a senhora a achara tão nobre, demonstrando no olhar humilde que a lançara – ela voltava pelo caminho que viera, rindo de si mesma.Nem cartão tinha, nem cartão tinha.Era uma tola sozinha, com um marido que só ganhava em dinheiro, e ela nem tinha dinheiro porque ela não a dava.Ele era de beber nas folgas, e ela o via envelhecer antes do tempo sem mais nenhuma piedade nem amor.Amor? Perguntou-se ao sol que um pouco calcinava – é que a tarde chegava acesa – ela nuca sentira isto, e isto devia doer muito quando se sentia.Era a pretensão sem ainda adivinhar.
   Apenas percebera estar voltando, quando já avistara a rodoviária, inflamada de gente apressada e suada.Seu rosto brilhara, mesmo pálido como era, no sol da tarde que já chegara.No céu que não se encontrava nuvens o estandarte era o grito de ufa!
   Finalmente, mas por quê? E já se aproximava da grade de embarque.A pretensão sem adivinhar ainda a acompanhava, agora com mais força e esperança.E tinha o estar na sombra, respirando a sombra e um vento à toa que corria como correra sua vida durante os instantes...Se ela ousasse, poderia ousar, é que tinha quase certeza.Ela planejava tão sozinha dentro de si mesma, que nem era possível ela própria acreditar.Deixara-se sorrir, cruzando os braços sobre o regaço do vestido.Tinha uma pontada de tão leve preocupação.E acumulava alguns transeuntes ao seu lado, que logo se veriam passageiros.Sentiu-se a única a existir – como era o momento enorme de sua solidão.
   O ônibus encostara ali perto, chegando de mais uma viagem e pronto para outra.A porta da frente se abrira, e os idosos na sede da ansiedade já queriam se precipitar, mas o motorista – de calça preta, camisa branca de mangas compridas, e óculos escuros sobre a cabeça quase toda raspada – os conteve com um certo animo malandro e arrefecido.Ela o olhara, o olhara assim como que dentro, algo que no só olhar ele também a buscara, sem deixar o seu intento – por um instante – para fora dali, em companhia do cobrador.Ela abaixara os olhos, escondendo o sorriso, que não podia ser imperceptível.Ela se figurou enrubescida, porque quando ele voltara, ele soubera que ela estivera a vigia-lo até onde ele se perdera, como se ele pudesse saber que ela tomava conta se ele voltaria mesmo.Já que dentro do seu pensamento, enfrentava a selva.A pretensão tomara o claro de seu dia, de sua decisão.Quantos dias ela não levara planejando, planejando, calculara bem se valia à pena.Ele, de um moreno que a despertava, de um jeito – no só sorrir – que a provocava.Ela queria, pretendia, apesar de não saber como chegar...
   Ela fingira não olhar – fingira para quem? – porque ele a olhara, assim logo depois que ela desviara sua atenção do nada para ele.Era um encontro solitário, ignorado ainda por ambos; ela, suada, esperava resposta.A resposta devia vir dele.Muito novo – falara o pensamento, que logo, logo teimara – uns trinta anos ou perto disto, eu tenho pouco mais que...Tinha que se corrigir ou...
   Ele abrira a porta da frente, e – mesmo que não precisasse – permitira a entrada dos idosos.Ela vacilando quase tentara.Ou seria porque perdera a noção depois de vagar mesmo sem esta.
   Ela entrara pela porta traseira, pagara o cobrador com o dinheiro em moedas tirado da bocetinha, e voltou lânguida apesar de lépida para a frente do ônibus, onde se sentou num dos bancos ao meio, do lado da janela.
   O motorista antes de sentar-se ao volante, olhara para o interior do ônibus – como que para se certificar que todos estavam ali – mas, ela sentira que ele a olhara com um sorriso de soslaio, sentira de imediato umas cócegas invisíveis, e riu-se toda acanhada, meneando a cabeça para o ombro direito.Ele colocara os óculos escuros, e abrira um sorriso largo e malandro antes de sentar-se ao volante.
   A viagem seria toda assim, e o ronco do motor era suave – apesar de barulhento que era realmente – aos ouvidos dela que se derretia, e esvaziara-se do pensamento na tensão em que se pegara.O que fazer para que... Interrompia, tinha medo da escravidão, ao mesmo tempo da solidão do marido viciado e sem prazer que a desse.
   Naturalmente – ao embolado da tensão acanhada – ela notara que tinha certa inteligência, pois escolhera um lugar no ônibus onde podia ver o rosto dele no retrovisor, e sabia que ele também a via; o sorriso malicioso desenhado na face.Quando o ônibus parava em certo ponto para que mais passageiros entrassem, ela notava o sorriso dele direto para o espelho, e ela – debalde – tentava esconder o seu, mas ele escapava, escapava...Em certos instantes quando desciam passageiros, ela quase conseguiu fingir que olhara para a janela, mas ela pode ver o sorriso malicioso de novo no rosto moreno e malandro.Ele dera a atenção a quem saíra e agradecia, mas o olhar com o sorriso permanecia de vigia no retrovisor.
   Teve um instante que fora para ela o cume de sua tensão quase cheia de orgasmo, em que ele acudira uma interjeição muda, porém quase perceptível pelo espelho.Enrubesceu.O coração acelerara, acelerara acudido...
   Fora então deixando se levar, se levar, sem pensamentos, vazia, tensa e acanhada, até que o veiculo ficara vazio, e apenas ela, o motorista que ainda dirigia e o cobrador que cochilava em sua cadeira.Então ela, mesmo ciente do que fizera, cuidara-se em ser boba.Passara do seu ponto, mas sem cochilar.Distração.chegara ao ponto final, mas antes, mesmo trêmula arriscou-se chegar a frente, bem perto dele que estava lesto no volante, e tartamuda indagara se ele não podia leva-la de volta.
   -Descanse patroa – falara ele causando nela arrepios – eu te levo de volta de graça, é só ficar ai mesmo.
   Trêmula, rindo à toa – a fingir que era por nervoso – disse-lhe ainda titubeante:
   -Estou tão envergonhada...
   -Não fica não, isto acontece quase todo dia – dissera ele escapando o riso malicioso, que ela já adivinhava que ele mentia por conveniência.
   Os minutos que ela esperara ao ponto final, sentada no primeiro banco junto ao motorista, fora de uma tensão cheia de gozo, porque ela tinha medo embora quase acreditasse na felicidade.Vira-o entrando na cabine do fiscal, com o sorriso malicioso de esguelha – seria possível – e ninguém mais entrava no ônibus.Ela esgazeou o olhar ao seu redor como que para certificar se o que ele fazia era a coisa certa.
   Ele viera só, sem o cobrador, e olhando com atenção para o que fazia, abrira a porta com a força das mãos.Entrara dentro do veiculo, sorrira secretamente para ela e ela acanhada e enrubescida percebera a malicia suada de seu rosto em cargas de luxuria.Coçara-se rapidamente entre as pernas, enchendo-a ainda mais de um pejo sonso.
   -Bem vou te levar até sua casa, no caminho da garagem – avisara ao sentar-se no volante.
   O ônibus contornara, e ele lesto ao volante seguiu chacoalhando pela estrada, com ela que o olhava pela nunca agora; a gola de sua camisa amarelada pelo suor, seus gestos rápidos entre o volante e a marcha,seu sorrir no espelho.
   Até que...
   Ele voltou-se em frente à garagem, que se mostrava excelsa pelo enorme muro de alvenaria, e disse-lhe olhando a por trás de si:
   -Sua casa é perto da garagem?
   -Não, só um pouquinho mais para lá – respondera tremula.
   -Dar para seguir à pé?
   Levantando-se, febril e tremula, fora dizendo um pouco desacoroçoada:
   -Dar sim, dar sim...
   Ele abrira a porta para ela descer, e ela fora descendo bamba nas pernas, rindo, fora seguindo rápida, com uma vontade de gargalhar e chorar ao mesmo tempo.Fora então que ouvira a voz dele a chamando forte e delicadamente:
   -Senhora espere!
   Ela se voltou queimando em febril esperança de novo, adivinhando quase, ele a sorria com sua bocetinha vermelha na mão, e antes de ela se aproximar, ele fora dizendo:
   -A senhora deixou cair...
   E ela nem se dera por conta.



RODNEY ARAGÃO
Rodney Dos Santos Aragão
Enviado por Rodney Dos Santos Aragão em 14/09/2007
Código do texto: T652081

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Sobre o autor
Rodney Dos Santos Aragão
Cabo Frio - Rio de Janeiro - Brasil, 44 anos
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Rodney Dos Santos Aragão