MARIA DA PENHA

Naquela noite, João bebeu o que podia e o que não podia. Chegou em casa às três da madrugada. Chamou a mulher de vagabunda. A garganta, uma serra de álcool e rancor. O filho, assustado, gritou. João deu uma bofetada no menino, que quicou no chão. A mulher disse para ele não fazer aquilo. Batesse nela, não no menino, um inocente. João ameaçou matá-la e foi até a cozinha, aos tropeções. Pegou uma faca de cortar pão. Mas a mulher não quis apanhar naquela noite.
Ela meteu a mão debaixo da cama e puxou uma pernamanca. E aguardou a volta do bêbado. Ele entrou no quarto, faca em punho, boca fervendo de palavrões e maldições.
Magra, frágil, a mulher jogou toda a sua força no primeiro golpe. Um som de madeira quebrando ecoou. Mas não era madeira. Era o braço direito de João. Ele gritou um puta-que-pariu furioso e rolou pelo chão. A mulher pensou em chamar a polícia, mas, amanhã ou depois, João voltaria à rotina de beber, berrar, babar, bater.
João se ergueu e avançou. Outra pancada acertou o lado esquerdo de seu rosto. Os olhos da mulher, vermelhos como brasa. Ela deu outro golpe. E outro. A cabeça de João, uma alface vermelha aberta.
Morto? 
João ficou estatelado sobre o assoalho. Ela o tocou. Seus dedos manchados pelo sangue bêbado de seu amásio.
O menino veio e a abraçou. Não gostava de João. Não era seu pai. Era só um homem mau.
A mulher ergueu os olhos e pediu perdão a Deus.
Ela não sabe, mas Deus não aprecia os suicidas.
Uma mãe deve proteger a si e a seu filho.
João teve suas chances; desperdiçou-as numa adolescência sem fim, no fundo de um copo de cachaça.
A noite logo terminou. O sol da manhã apontou um novo caminho, doloroso, mas bem menos que o de antes.