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Dia de compras e Araci encara o supermercado mais uma vez. Nunca foi problema para ela fazer compras, mas como tudo na vida passa, aos 66 anos, esse prazer foi substituído, por exemplo, por uma tevê, que lhe cairia muito bem, sem nenhum esforço, além de um pijama e umas pantufas coloridas com uma touca gigante. Aliás ontem, antes do meio dia, estava ela no corredor, rumo á caixa central de coleta do lixo, com esse look básico e uma touca de pinguim.

Bonita que só, seu sorriso e simpatia já são um convite para um abraço. Não gosta muito de redes sociais. O suficiente para enviar mensagens de carinho e saudade para o marido que vive na fazenda , local este lotado de histórias, das quais não se livra. Foram muitos os apertos que passou. Antenor seu filho mais jovem caiu na lagoa e foi de helicóptero para o hospital quase que sem vida (ao menos duas paradas cardíacas), Anderson acidentou-se com os animais quando de um surto da boiada e ele estava andando à cavalo no terreiro. O marido perdeu 3 dedos moendo cana de açúcar. Ela mesma viu a irmã ser picada por uma cobra e não poder fazer nada. Os cachorros foram envenenados e morreram todos, inclusive Zé, seu fiel escudeiro. Os traumas a fizeram escolher a cidade para passar o resto de seus dias. Na companhia de seus filhos, no interior, decidiu se instalar. Mas antes, durante 60 anos, viveu nos belo horizontes de Minas.

Mora sozinha no 2 andar. Os filhos também habitam o mesmo prédio, cada um no seu quadrado. “Noras são uma espécie de adversário que, quando percebem que a mãe “consome” os filhos, acaba sustando e dando inoperante pra mente doentia plantar ummpé de jiló, o negócio é que amarga de qualquer jeito, então melhor deixa cada um com seus ofícios e obrigações.

Araci veio de Uber, desde que perdeu sua carteira de motorista, seu meio de transporte é esse, quase que exclusivamente. Prefere não ocupar, nem filhos, nem noras. E já se habituou com esta nova implicação.  E lá está ela, colocando sacola por sacolão elevador, com o auxílio do menino do Uber. Agradeceu e apertou o 2. Enquanto subia, no sexto andar, estavam Beth e Suzy a destilar seu veneno, ao ver no aplicativo do celular, os passos de Araci fazendo exatamente o inverso do estipulado em normas gerais do condomínio: segurando o elevador para retirar as sacolas, uma a uma. As duas destilando ódio, enviaram uma mensagem para o síndico que apesar de ler, se absteve. Afinal era sábado e depois das 12 horas. Lá no sexto os nomes já despontavam: mansa, folgada, sem educação e tantos outros, até que o elevador chega é tudo se resolve, menos a raiva de Suzy e a coleguinha que a cada parada do elevador repetia seu ódio destilado em palavras.

No segundo andar, a nova moradora saindo para um passeio com a filha, quando enfim encontra Araci juntando as últimas sacolas, oferece ajuda, mas ela reluta por serem as duas últimas e antes de se despedir emenda:
- Desde que vim de BH para cá, minha vida mudou muito. Não posso maus dirigir, é vivo a necessitar da bondade alheia. Agora com as limitações do corromper causa da doença, não posso fazer quase nada, de dirigir até carregar pesos, empurrar carrinhos, por isso, acabo causando alguns transtornos. Mas fazer o que não é? A velhice chega pra todos! E o que mais me alegra é a solidariedade das pessoas, graças a Deus, nunca ninguém me destratou por isso. O elevador abriu e a vizinha entrou com sua filha acompanhada agora de Suzy e sua amiga. Quando a porta fechou, o veneno escorria pela boca, quando as meninas do sexto andar começaram denegrir Araci. Ela ouvia tudo em silêncio, quando da saída, já na portaria, a criança  soltou:
- Tadinda da Araci, ela é doente, não pode carregar peso e nem dirigir.
E o silêncio foi um sepulcro. Nem se despediram. Tomaram distraídas pelo julgamento precipitado.
Mônica Cordeiro
Enviado por Mônica Cordeiro em 22/06/2019
Reeditado em 23/06/2019
Código do texto: T6678744
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Sobre a autora
Mônica Cordeiro
Conselheiro Lafaiete - Minas Gerais - Brasil
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