Outra vida é possível

“uma dor que goza

como se doer fosse poesia

já que tudo mais é prosa”.

Paulo Leminski

As costas de Ana Lu eram um mapa-múndi. Aponte um dedo e toque em qualquer ponto e você sente um feixe de energias que afluem do universo e que te conecta com as dores e as alegrias deste mundo em particular. Ana Lu era única e Marcos sentia isso ao reparar as suas costas magras, reta e lisa. Quando ela se virava, no entanto, uma multidão de mulheres escapava dos seus olhos castanhos como um jorro de água escapa de uma torneira há muito tempo fechada.

Marcos observava, com olhos sonolentos, a agilidade dela no preparo do café. Naquele fim de tarde os lençóis agiam como cordas que o prendiam à cama e o deixavam refém da comodidade. Deitado, de barriga para cima, sentia o seu corpo flutuar em direção ao aroma provocante do café que pairava no ambiente. Então, se virando na cama, a contragosto, ficou apoiado no cotovelo esquerdo esperando que ela o chamasse. O chamado veio da cozinha como se viesse de uma terra distante:

-Amor, o café tá na mesa!

Juntando um resto de coragem saltou da cama. Calçou os chinelos, passou pelo banheiro sem entrar e chegou à cozinha. Ana Lu estava sentada mirando o pão de fôrma. Assim que o viu deixou escapar da boca um sorriso triste como um pedido de desculpas. Depois, Marcos percebeu pelo gosto do café que a noite seria amarga.

Ela olhava para a porta do quarto atrás dele. Ele buscava o olhar dela que perambulava da mesa às paredes. Uma vez ou outra o olhar dela se fixava no guardanapo de xadrez sob a garrafa. Em seguida, tentou aproximação e foi subindo lentamente, arrastando todos os objetos ao redor: pão, faca, manteiga e garrafa. Quando os olhos de Ana Lu pousaram em seus dedos ele percebeu, intuitivamente, que ela guardava algo novo para dizer. E disse:

-Você já se sentiu como se devesse viver outra vida?

A pergunta, assim de imediato, causou-lhe duas sensações diferentes e contraditórias: alívio e preocupação. Assim, ele esticou o braço e segurou a mão dela. Os dedos estavam quentes e suados, mas a pele – do pulso ao ombro – estava toda arrepiada. Ana Lu levantou as sobrancelhas e esticou o pescoço na direção dele. Toda a sua postura pedia uma resposta. Marcos não soube responder prontamente, pois estava com a boca cheia de pão. Balançava a cabeça suplicante querendo, com isso, dizer sim.

Afastando o cabelo dos olhos Ana Lu recostou-se pesadamente na cadeira e retirou sua mão da mão dele. Virando-se para trás pegou a bolsa que estava no braço da cadeira. Levantou-se sem nada dizer e relanceando o olhar sobre os ombros ofereceu-lhe um beijo com os dedos. Caminhava devagar e com a cabeça baixa como quem não quer sair.

Marcos levantou-se desajeitadamente derrubando a xícara vazia. Foi com ela até a porta. Ficaram os dois parados se olhando. Então, Ana Lu se aproximou e colou sua testa na testa dele e disse:

-Eu volto antes de você sair para o trabalho, tá?

Ele permaneceu parado olhando o caminhar rítmico dela que seguia para o ponto de ônibus. A seguir, fechou com cuidado a porta com medo de espalhar o aroma de perfume e café que dançava pela casa.

Puxando para cima o surrado pijama e assoando o nariz na manga da camisa Marcos olhou à sua volta e sorriu para o pão sobre a mesa, a louça na pia e o redemoinho de lençóis na cama. Entretanto, foi no cesto de lixo do banheiro que o seu sorriso murchou. Jogado sobre a sujeira estava um cartão da boate onde ela trabalhava. Fechou ligeiro o cesto, se retorcendo de ciúmes e dor de barriga. As paredes úmidas e bolorentas o empurravam para fora.

Marcos saiu pensando que tinha que recolher os cacos. Antes, abriu a cortina da janela da cozinha. Os últimos raios andarilhos do sol – que atravessam o mundo – pareciam sugerir que uma outra vida é possível.

make
Enviado por make em 31/08/2019
Reeditado em 04/09/2019
Código do texto: T6734141
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